O que é comida saudável




Há poucos anos, jornais, revistas e profissionais da saúde passaram a nos alertar para o perigo da ingestão de gorduras. Em seguida, as manchetes condenaram os carboidratos. E quem curtiu esse cenário de "pode isso", "não pode aquilo" foi a indústria das dietas. Presenciamos, então, mudanças nos rótulos dos alimentos e naquilo que entendemos por comida.

Em vez de fazermos refeições em restaurantes ou em família, passamos a comer barras de cereais proteicas ou shakes nas academias, no elevador, no trânsito. O espaguete com molho de tomate, por exemplo, foi rebaixado e assistiu à ascensão do pacote de biscoitos funcionais, que leva mix de farinhas sem glúten, goji berry e sal rosa do Himalaia. Aqueles que não podiam pagar os preços exorbitantes desses produtos ou contrariavam os modismos, eram vistos como menos esforçados, omissos com a própria saúde. 

Dessa forma, o ato de comer deixou de ser uma prática cultural, algo que nos conta sobre quem somos, um momento de prazer e afeto. E se resumiu a uma atividade mecânica, burocrática, onde cada alimento é visto sem contexto, individualmente, e escolhido por seu percentual de nutrientes. 

De outro lado, mantemos hábitos alimentares influenciados por décadas de publicidade, seja da parte do agronegócio, seja da indústria de ultraprocessados. Mais que isso! Desde o período de colonização europeia, o Brasil vem passando por transformações gigantescas sobre o que considera comida. E, muitas vezes, só exaltamos uma única história: a dos europeus.

Em resumo, a comida nunca vai se resumir ao que está escrito no rótulo ou ao que enxergamos no prato. O conceito de alimentação saudável que eu acredito precisa englobar história, cultura e meio ambiente. Precisamos nos perguntar: a nossa comida é saudável pra quem?

VALORIZAÇÃO HISTÓRICA. Pra ser saudável, a comida precisa valorizar quem somos e não permitir o apagamento histórico das populações tradicionais e originárias. Por isso, comer milho, mandioca, abóbora, amendoim e feijão, por exemplo, é um ato de resistência, uma demonstração de um povo que tem orgulho de suas raízes.

JUSTIÇA SOCIAL. Se o profissional que plantou o arroz, lacrou uma embalagem ou entregou um hambúrguer na sua casa trabalhar em condições insalubres ou análogas às da escravidão, essa comida não pode ser entendida como saudável. E não custa lembrar que os líderes de denúncias trabalhistas são a pecuária e cana de açúcar.

LIBERTAÇÃO ANIMAL. Sim, houve um período da humanidade em que o homem precisou dos animais para sobreviver. Mas isso não é mais a realidade da maior parte da população dos grandes centros urbanos em 2019. Por isso, se podemos fazer escolhas, podemos sim escolher alimentos que não exploram o trabalhador e o meio ambiente, assim como vacas, galinhas, porcos e afins.

MENOS IMPACTO AMBIENTAL. Também não dá pra ignorar que nossas florestas, principalmente a Amazônia e o Cerrado, viraram gigantescas extensões de pasto. Em vez de árvores, animais selvagens, nascentes protegidas e terras indígenas demarcadas, temos gado de um lado e soja transgênica do outro pra alimentar os bichos. Além de tudo, a criação de boi agrava a situação das mudanças climáticas, por conta da emissão de gás metano, e consome enormes quantidades de água potável. Reduzir o consumo de carnes e laticínios pode ser um começo. Afinal, não temos outra saída se a gente quiser deixar um país para as futuras gerações. Mas por que não ir além e pensar nos direitos dos animais, que podem viver livres das grades dos seres humanos? 

SEM MACHISMO. Falando em grades, também nos acostumamos a aprisionar as mulheres no fogão, né? Só que se uma mulher extremamente sobrecarregada for a única pessoa responsável pela alimentação da família, será que dá pra chamar essa comida de saudável? Precisamos tirar o machismo dos nossos pratos (dos restaurantes também!).

ADEUS, ULTRAPROCESSADOS. Ainda tem o óbvio (mas nem tanto): comida é aquilo que vem da terra com o mínimo de processamento possível. Ou seja, não incentivo o consumo de alimentos ultraprocessados, que são ricos em açúcares, gordura e aditivos químicos, como recomenda do Guia Alimentar para a População Brasileira.

SEM NUTRICIONISMO. Também defendo que a alimentação seja entendida como um conjunto de hábitos e refeições. Então, no meu ponto de vista, não faz sentido dizer que esse prato é saudável e esse outro é "porcaria". Em tempos de nutricionismo e tantos distúrbios alimentares, nunca foi tão importante estimular uma alimentação livre de sofrimento, culpa e restrições severas, né? Os nutrientes são importantes, mas comer também é cultura. 

SEMENTES ANCESTRAIS. A maior parte do nosso milho virou uma mercadoria vendida nas bolsas de valores pra servir de ração animal. Nosso feijão carioca também deve ganhar uma versão transgênica em 2020. Só que não existe comida saudável à base de sementes que receberam o gene de outras espécies, em laboratório, vendidas por 6 grandes empresas estrangeiras. Nosso agricultores não podem ficar dependentes desse grandes monopólios agrícolas. Bora resgatar as sementes ancestrais?

SEM AGROTÓXICOS. Não precisamos de veneno pra alimentar as pessoas, assim como diversos estudos já mostraram. Na verdade, o uso extensivo de agrotóxicos no Brasil é uma escolha política de um país que exerce um papel de submissão internacional. Comida saudável precisa ser orgânica, como foi durante toda a história da humanidade até a chamada Revolução Verde, nos anos 60. Por isso, defendo que os subsídios do agronegócio sejam retirados e realocados aos produtores agroecológicos. Se precisar de mais dados pra entender esse cenário, espia o "Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia", da geógrafa Larissa Bombardi. 

FEITO EM CASA E SEM DESPERDÍCIO. Ao fazer um bolo em casa, a gente consegue ter noção da quantidade de óleo e açúcar que vai na receita, por exemplo, além de estar mais próximo da origem dos alimentos. Por isso, uma alimentação saudável também precisa ser caseira, dentro das possibilidades de cada família, é claro, e com o aproveitamento integral dos alimentos. Chega de descascar tudo e fazer comida estragar na geladeira, né? 

COM ATENÇÃO. Comer na frente da TV ou olhando os stories do Instagram é só um ato mecânico de engolir coisas, não é comer, viu? Sentir as texturas e o sabor dos alimentos contribui pro processo de digestão, inclusive. Bora deixar de ser um zumbi vidrado em telas e fazer as refeições de forma calma, consciente e atenta?

MEMÓRIAS AFETIVAS. Por mais que todo o lado político seja importante, comida é um troço que pega a gente de jeito, né? E eu mesma já chorei milhares de vezes depois de uma garfada que lembrou um momento ou uma pessoa maravilhosa. A gente nunca pode deixar que a problematização do mundo nos tire o prazer de comer, de socializar e de dar aquele quentinho no coração. 

PRA TODOS. Por fim, todas essas ideias aí de cima são lindas, mas só fazem sentido quando a gente torna possível pra todo mundo, pro coletivo. Não dá pra se contentar em comprar couve orgânica e cozinhar em casa enquanto grande parte das periferias se entope de ultraprocessado porque não tem onde comprar comida fresca. Alimentação saudável precisa ser uma causa coletiva, viu?

E se eu puder resumir tudo de uma vez, eu diria que alimentação saudável é um conjunto de hábitos pelos quais nos sentimos responsáveis, além de refletimos sobre isso de forma crítica e amorosa.