Carinho em forma de sopa - R$ 3,18

16 de maio de 2019
Até o Faustão já sabe que minha amizade com os vegetais é recente. Essa ladainha toda, que eu gosto de chamar de "como cheguei na berinjela depois de tanto miojo" foi contada mil vezes por aqui. Mas esqueci de contar uma parte dessa história. Bastante importante, aliás. E vou descrevê-la agora.

Nos tempos em que eu catava salsinha do prato e sonhava com nuggets, havia alguns pratos a base de vegetais que eu respeitava. Tinha o arroz com feijão, vamos ignorar a fase em que eu só tolerava o caldo do feijão, e as sopas

Sim, parece bem sem graça e com cara de comida de hospital. Mas guarde o seu preconceito pras propostas do novo governo! Pode confiar que fica bom!

Na minha família ninguém espera o inverno ou uma gripe pra jantar sopa. Apesar de alguns parentes terem votado no Bolsonaro, sopa sempre foi uma das poucas unanimidades entre os Gomes e os Pereira. 

Meu avô paterno nasceu em um vilarejo de Portugal e começou na roça aos 11 anos. Os parentes só comiam o que a terra dava, nem sempre tinham animais na criação pra complementar as refeições, e as sopas a base de verduras faziam parte da rotina diária da família.

A galera da parte materna, toda nascida no Brasil, e de origem pouco privilegiada, seguia o mesmo bonde. E não podemos pular o detalhe que a cidade onde todos nascemos fica próxima à serra catarinense, onde a gente mal olhou pro lado e a temperatura já ficou abaixo de 0 grau. 

Por isso, um caldo quentinho atochado de vegetais sempre fez parte da minha cultura alimentar. E isso foi um dos poucos hábitos que a invasão dos ultraprocessados não me tirou. Era canja, caldo verde, creme de cebola ou de palmito, sopa de abóbora, de repolho, de beterraba. 

Por conta das sopas é que aprendi a comer chuchu. Dona Neide Aparecida, também conhecida na fila do pão como minha mãe, sempre foi uma ativista capaz de mover montanhas em defesa de um dos legumes mais desvalorizados no Brasil. 

Como nem tudo são flores, também tive a fase de aceitar apenas as sopas batidas no liquidificador, pra não precisar lidar com a textura dos vegetais. Olha! Não sei como a Nossa Senhora da Comida Saudável não desistiu de mim, viu? 

Aos poucos, conforme fui ganhando experiência na cozinha e tal, comecei a desenvolver minhas combinações e técnicas preferidas pra chegar nas sopas perfeitas. Descobri a sutil arte de finalizar as receitas com sementes de girassol tostadas na hora, pra dar uma crocância. Ou com chips de couve (só fatiar a couve e deixar no forno até fazer croc).

Minha sogra, não posso esquecer dela, foi quem me ensinou a finalizar qualquer caldo com gotas de limão espremido na hora. De preferência, aquele limão caseiro que metade do Brasil chama de rosa ou galego. Se eu fosse você, levava essa dica muito a sério. O limão faz com que todos os sabores harmonizem na boca! É um sonho!

Lucio Carlos, meu companheiro, me ensinou a jogar cubinhos de pão de ontem torrados por cima da sopa, temperados com azeite e bastante páprica. Quando não tem pão, a gente usa arroz na sopa, principalmente nas noites que estamos mais famintos, sabe? Às vezes só chuchu e cenoura não dão conta de forrar o senhor estômago. 

Compartilhados os segredos, vamos à receita desse post. Ela pode ser entendida como uma versão vegana da canja. Mas vou evitar esse termo pra não criar expectativas. Acho que ela se basta sozinha, sem comparações. Em vez do frango, quem brilha é o repolho fatiado, uma das minhas verduras preferidas no mundo. Sou fã incondicional do repolho porque ele é inacreditavelmente barato. Até a versão orgânica por aqui não sai por mais de R$ 3. E podemos fazer o diabo a quatro com ele. Servir cru, com molho tailandês. Refogado com gengibre. Assado com alecrim e vinagre balsâmico. Enfim. 

Difícil é comer um prato só.

Ingredientes
⠂1/2 cabeça de repolho verde cortado em fatias bem finas
⠂1 cenoura com casca ralada 
⠂1/3 de xícara de arroz da sua preferência
⠂1 cebola cortada em cubos
⠂1 folha de louro
⠂2 colheres de sopa de orégano seco
⠂1 colher de sopa de azeite
⠂água filtrada
⠂gotas de limão a gosto pra finalizar
⠂sal a gosto

Como fazer
Essa é a receita de sopa mais rápida que eu tenho na manga! Quase um fast food! O tempo de preparo dela é apenas o tempo de deixar o arroz cozido. E pronto. Pra começar, aqueci uma panela e joguei o azeite, a folha de louro e a cebola picada. Mexi até a cebola ficar levemente tostadinha. Aí acrescentei o arroz, cenoura ralada, o repolho, o orégano e água fervente o suficiente pra alcançar a textura desejada. Eu gosto mais grossinha. Tampei a panela e fui viver a vida até o arroz estar cozido. Desliguei o fogo, joguei o limão por cima e é isso. 

Sugestões de finalizações pra adicionar mais sabor a essa gostosura
⠂salsinha picada ou
⠂cubos de pão de ontem tostadinhos com azeite e páprica ou
⠂sementes de girassol tostadas na frigideira ou
⠂páprica defumada ou
⠂chips de couve.

Observação: essa receita é tão leve que o teu corpo não vai ter trabalho nenhum pra digerir. Então rola de comer pouco tempo antes de dormir. Isso pra mim é muito importante porque QUALQUER coisa que eu coma pouco antes de ir pra cama costuma tirar meu sono. 

Ah! Lá no Instagram tem uma aba nos destaques com mais dicas de sopas simples e com ingredientes acessíveis. 

E não custa lembrar: esse trabalho aqui só é possível por conta da galera que me apoia no Catarse. Muito obrigada, viu? ❤Se você ainda não é um apoiador do Comida Saudável pra Todos e quer receber as Colheradas do Mês, clica aqui

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