Nachos abrasileirados - R$ 2,46

Mergulhada em leituras recentes, tive um clique (desses bombásticos) e percebi que a gente precisa de um pouco de história pra mudar a nossa relação com a comida. 

Esse sentimento também tomou força quando assisti ao episódio da série Chefs Table, do Netflix, com a chef Cristina Martinez. Se você é vegano, como eu, já se prepara porque 98% da série é focada em pratos com muitos bichos. E o episódio com a Cristina segue esse mesmo roteiro. Mas, a história dessa mulher é tão impactante, tão profunda, de tanta superação, que você esquece que se trata de comida. 

Cristina é uma moça que nasceu no interior do México, numa dessas famílias que fazem das refeições à mesa o momento de trocar afeto e amor. Ela acabou casando cedo, sendo escravizada pela família do marido, sendo espancada pelo fulano, e resolveu fugir pros Estados Unidos em busca de liberdade pra própria filha. O marido não queria deixar a menina estudar e defendia que ela devia casar cedo também. Pra pagar seus estudos e evitar o aprisionamento da filha, Cristina se mandou pra terra do Trump, onde vive ilegalmente até hoje. 

E sabe o que faz a cozinheira continuar firme depois de anos longe da terra e da família? A comida. Ela abriu um restaurante mexicano na Filadélfia, onde diversos imigrantes ilegais do México se reúnem. Sabendo que a base alimentar do seu país de origem é o milho, e que os astecas levantariam dos seus túmulos se ela fizesse tortilhas com o milho transgênico americano, Cristina nem pensou duas vezes: importou sementes ancetrais do México ilegalmente e entregou a agricultores conhecidos, que produzem pro seu restaurante. 

Chorei compulsivamente com esse episódio, principalmente na parte que encenam um ritual que os astecas faziam com o milho. Fica a dica. 

Ontem, quando fui no supermercado pra comprar azeite, saí caçando todos os rótulos de produtos que possuem milho transgênico na composição. E olha, talvez seja mais da metade da loja. Peguei um Doritos nas mãos e fiquei pensando no que Cristina e sua família sentem quando veem essa substância comestível, que a embalagem chama de "nachos". 

No Brasil e em outros países por aí, a comida mexicana virou febre. É tortilha, encilada, nachos, burritos, tacos, guacamole, etc. Alguns restaurantes não têm limites e criaram aberrações como tacos de queijo com goiabada. Outros já ostentam o título de "receitas tradicionais mexicanas". Mas eu duvido que tenha algum empreendimento aí que respeite, de fato, a culinária ancestral mexicana e faça suas receitas com milho de verdade. Sabe? Que não tenha caído no conto do milho transgênico, que já chega a ser 89% da produção de milho brasileira.

Tudo isso pra dizer que eu deixo de comer Doritos não só porque não é vegano, ou porque tem glutamato monossódico e milho de mentira. Aquele pacote não me conta história nenhuma. Não tem vida, não tem alma. É isso que significa qualquer alimento ultraprocessado: nada. 

O bolo de pacote que dura 6 meses sem posar nenhuma mosca não tem cheiro de bolo de vó. O pão com aromatizante tem gosto de isopor. Aquela pozinho de miojo não lembra qualquer molho que usamos pra dar sabor ao macarrão. 

Chega de importar dos Estados Unidos esses modismos alimentares e esse amor à indústria, né? A gente precisa, com urgência, resgatar o respeito que os nossos vizinhos têm pela culinária tradicional e pelos ingredientes que a cultura indígena nos presenteou, como o milho, o amendoim, o feijão, a abóbora. 

Pra abraçar e agradecer os nossos vizinhos mexicanos, trago uma receita facílima de nachos, pra gente comer nos dias mais corridos com o melhor fast food do mundo: o guacamole. 

Chupa, Doritos! hahaha

Não consegui fazer a receita apenas com farinha de milho. A massa ficou quebradiça demais. Meu amigo chef deuso Ruan Felix explicou que as tortilhas e nachos mexicanos só levam farinha de milho porque esse milho passou por um processo chamado nixtamalização. Como dá muito trabalho fazer isso em casa, a gente coloca uns trigo junto, né? E temos uma versão abrasileirada de nachos. 

Antes, só queria ressaltar duas coisas. O sucesso do seu preparo depende dos temperos da massa (capriche!) e da atenção total ao tempo de forno. A massa queima muito fácil. Então já adianto que nas primeiras vezes que fizer a receita você precisa ficar na cozinha de olho no forno. Esqueça a TV, o telefone e a vida. hahaha

Ingredientes
⠂1 xícara de farinha de trigo
⠂1 xícara de farinha de milho (fubá) não-transgênico
⠂1/2 xícara de água
⠂2 colheres de sopa de azeite
⠂1 colher de sopa de páprica defumada
⠂1 colher de café de pimenta caiena (vai ficar bem picante)
⠂1 colher de sopa de orégano
⠂1 colher de chá de sal 

Observação 1: Se você optar por fritar a massa, vai precisar de bastante óleo também. Eu sempre faço assado. 

Observação 2: Pode fazer com farinha de trigo integral, mas aí será preciso um pouco mais de água, tá?

Como fazer
⠂Aqueça o forno a 200 graus. 
⠂Misture tudo numa tigela com carinho, e trabalhe a massa com as mãos até ficar bem incorporada e nada farelenta. Como se fizesse um pão, entende? 
⠂Unte uma mesa ou bancada da sua cozinha com farinha de trigo, e dê uma leve sovada nessa massa. 
⠂Faça uma bolinha e abra com um rolo de macarrão ou garrafa de vidro. 
⠂Vá amassando até a massa ficar BEM lisinha e fininha. 
⠂Transfira essa massa pra uma assadeira, com cuidado pra não quebrar. Aqui em casa a gente não tem um assadeira imensa, então acabamos dividindo toda a massa em 4 assadeiras. 
⠂Faça riscos em forma de triângulo com uma faca. 
⠂E pronto. É só assar a 180 graus por cerca de 10 minutos. Cuida pra não queimar pelo amor da deusa da comida saudável! 

Observação 3: Parece trabalhoso e demorado, né? Mas a gente fez tudinho em menos de 20 minutos. 

Esse é último resquício de massa que sobrou. E assim que fazemos os riscos em forma de triângulo.

Duração: Se sobrar, pode guardar num pote bem fechado ou vidro por até 3 dias. Depois disso vai começar a ficar menos crocante. Se você fizer a versão frita, vai durar mais. 

A gente comeu com guacamole, mas podia ser com qualquer coisa! A receita rendeu 3 potinhos desses bem cheios de nachos. É bastante coisa!