Patê de talo de couve-flor - R$ 3,18*

Todo verão é a mesma coisa. Na barraca da feira, na fila do banco, no elevador, no balcão da loja, o assunto sempre gira em torno do calor. 

Eu também passo calor, é claro. Minha marca registrada nesses dias baforentos, inclusive, é aquele bigodinho de suor em cima da boca. Mas tento falar de outros assuntos com as pessoas. 

Gosto da ideia de lidar com extremos como desafio. Não todos os dias, é claro, porque não sou masoquista e curto um conforto. Mas tenho vivências de calor extremo que me ensinaram a resistir e buscar conforto em outras coisas.

A partir de 2011, comecei a trabalhar como educadora em escolas públicas do Rio. Em pleno janeiro daquele ano, a gente fez um treinamento na Cidade de Deus, Zona Oeste da cidade, que durava o dia todo. Esses foram os dias mais quentes da minha vida. Ao meio dia, com o sol na cabeça, nem um sinal de vento, pouca vegetação ao redor, nenhuma notícia de ar condicionado, o termômetro marcava sensações térmicas de mais de 50 graus. Era impossível comer, por exemplo. Eu me mantinha em pé apenas ingerindo copinhos de açaí vendidos a R$ 2 pela tia que ficava na esquina da escola. Nas manhãs que passava em sala de aula, meu corpo formava poças de suor no chão, como se eu estivesse fazendo xixi nas calças o tempo todo. Os adolescentes só não me zoavam porque acontecia o mesmo com eles também. hehe

Voltei a trabalhar na Zona Oeste do Rio um tempo depois. Mas nunca em janeiro. Passei outros momentos desesperadores, sempre na hora do almoço, principalmente no ponto de ônibus, mas nada se comparava à experiência de sobreviver ao janeiro da Cidade de Deus. 

E olha. Não tenho lembranças ruins desses tempos, não. Muito pelo contrário. Foi no meio desse calor todo que descobri o quanto eu gosto de dar aula e preciso ir atrás do sonho de ser professora de verdade. Pra não me demorar mais na busca dessa concretização, é que tô cursando Letras agora. 

Quando eu preciso enquadrar o Comida Saudável pra Todos em uma área, não me resta a menor dúvida. Não o coloco na caixinha da Culinária nem da Saúde. Até penso na caixinha do Jornalismo. É a minha formação, né? E tento ao máximo tornar esse projeto um canal de informação também. Mas, a área educacional me parece contemplar melhor meus objetivos aqui. 

Não no sentido de que educação significar "ensinar" algo a alguém. Esse conceito raso e antigo já deu o que tinha que dar. Gosto do significado do Rubem Alves sobre o processo educacional: que é provocar, questionar, estimular o pensamento crítico

Esse projeto nasceu justamente pra nadar contra a corrente quando o assunto é alimentação saudável. Enxergar tudo o que envolve a comida: questões sociais, ambientais, saúde, afeto, história, cultura. 

E a receita de hoje junta os objetivos desse projeto com o tema do calorão. Tenho sentido pouquíssima fome nesse primeiro mês do ano. Principalmente à noite. Às vezes só tomo um suco ou uma vitamina antes de dormir. Também tenho apostado muito em pastinhas e patês geladinhos pra comer com torradas, bolachas de arroz ou pra acompanhar algum legume refogado.

Dona Neide, minha mãe, veio passar uns dias aqui e trouxe duas toneladas de comida, como uma couve-flor imensa. Usamos as flores pra alguma receita que não lembro e deixamos os talos na geladeira. Depois de um tempo pensando em uma forma de transformar esse troço em algo gelado e saboroso (jogar no lixo não é uma opção), tive a ideia desse patê. 

A textura do patê é você que vai escolher. Vá colocando água aos poucos e batendo até achar a tua textura preferida. 
Ingredientes
⠂talos de 1 couve-flor
⠂1/2 xícara de azeitonas verdes
⠂1 limão
⠂1 colher de sopa de polvilho azedo
⠂orégano a gosto
⠂sal a gosto
⠂água o suficiente pra não queimar o liquidificador

Como eu fiz
Cortei os talos em pedaços menores e cozinhei no vapor até ficarem beeem macios. Depois disso, joguei todos os ingredientes no liquidificador, acrescentando água aos poucos, até achar a textura que eu considero satisfatória: nem muito ralo, nem muito grosso. 

Aí é só guardar num vidrinho dentro da geladeira. Temos um patê super simples, com um ingrediente que as pessoas costumam chamar de lixo, leve e refrescante. Ah! Coma bem geladinho, viu? Em temperatura ambiente ele fica super sem graça!

A validade depende da quantidade de conservantes das azeitonas que você comprou. Tenta escolher uma com uma lista enxuta de ingredientes. Lembra: quanto mais perecível, mais saudável. Aqui em casa não durou nem uma semana porque a gente comeu antes.

Observação: Dá pra fazer sem o polvilho azedo sim, mas vai ficar com mais cara de purê de couve-flor. Ele contribui pra uma textura mais firme e cremosa. 

Observação 2: Pode acrescentar os temperos que quiser. Tô pensando seriamente em usar manjericão fresco ou hortelã na próxima vez. 

*Última observação: os talos da couve-flor não entraram no preço da receita, tá? Como já tinha usado as flores pra outro preparo, acabei nem pesando a verdura inteira pra conseguir calcular o valor.