Quantas vezes você foi gordofóbico hoje?

11 de junho de 2019

Há uns meses atrás, me descobri bastante preconceituosa. E o preconceito que eu desfilava por aí é um dos mais invisíveis: a gordofobia. Sim, existe uma palavra para chamar a discriminação com pessoas gordas e ela é a "gordofobia", prazer. 

Eu vivia pensando em como aquela jogadora de vôlei podia ser gorda se ela treina 8 horas por dia. Me questionava como uma professora vegana e naturena podia ser obesa. Fiz piadas com o tio que colocou um balão no estômago, com a atriz que não emagreceu mais depois da maternidade, com as amigas que não cabem mais na calça 38. E me envergonho muito disso.

Mas acredito que o primeiro passo pra gente deixar de ser preconceituoso é o mais difícil: reconhecer! Ninguém se vê enquanto um gordofóbico, já reparou? 

E desde que comecei a estudar o tema e ficar atenta, tenho questionado comportamentos de pessoas próximas. O que ouço é sempre o mesmo, o mesmo que eu repeti a vida inteira: "só estou preocupada com a saúde da pessoa".

Não estamos. E mesmo que estivéssemos, cada um que cuide da sua vida, né? A gente justifica muitos preconceitos por conta de um possível "cuidado", que na verdade significa se meter na vida dos outros e achar, do alto da nossa arrogância, que sabemos o que é melhor pra cada um. 

A primeira coisa que aprendi ao me debruçar sobre esse tema foi: magreza não é sinônimo de saúde e gordura não é sinônimo de doença. E não sou que falo isso, não, é a ciência. Como esse assunto é delicado e polêmico, resolvi chamar os universitários, mais precisamente, a minha nutricionista, que pesquisou esse assunto.

Além de ser terapeuta ayurveda, a Jacobina Cantisani é nutricionista pela Universidade Federal de Santa Catarina e fez o seu TCC sobre a gordofobia. Ela pesquisou como os equipamentos de saúde reproduzem a gordofobia, assim como a própria formação em Nutrição. Se quiser ter acesso a um artigo que ela escreveu sobre o tema, clica aqui

Espero que a entrevista te ajude a repensar várias atitudes e a lutar contra esse tipo de opressão. 

Ah! Também recomendo o episódio do podcast Mamilos sobre o assunto. Clica aqui pra ouvir. 

Sabe o que também ajuda as pessoas gordas a se aceitarem? Todo mundo parar de achar que gordura é anormal, feio ou doença!

Pra quem não tá familiarizado sobre o termo, como a gente pode explicar o que é gordofobia?
A gordofobia é uma opressão, um tratamento estigmatizante, desigual e hostil para com as pessoas gordas e seus corpos, reforçando estereótipos e impondo desvalorização, constrangimento e segregação. O estigma reduz a pessoa gorda à sua característica corporal ou comportamental vista como anormal e a discrimina por isso. Dessa forma, se estabelece um controle coletivo sobre seu corpo, a partir da crença de que o aumento de peso é reflexo de qualidades morais do indivíduo, principalmente o descontrole. É importante ressaltar que o estigma não se trata apenas de uma crítica individual, ele se estabelece por meio de uma série de interações que desvalorizam a pessoa gorda e a transformam em culpada por sua desvalorização.

Quais são as consequências mais evidentes na vida de uma pessoa vítima de gordofobia?
A exclusão e opressão afetam diretamente a autoestima, levando a consequências como o isolamento social e doenças induzidas pelo estresse (depressão, ansiedade, tendência ao suicídio). O sentimento de fracasso por não corresponder ao padrão tem efeito direto sobre a integridade psicológica do indivíduo. As relações sociais e a relação com o próprio corpo são significativamente afetadas pela busca do ideal estético e de saúde socialmente aceitos, aumentando a insatisfação corporal e a probabilidade de comportamentos alimentares prejudiciais (dietas da moda, transtornos alimentares). Especificamente na área da saúde, encontramos com frequência o afastamento da pessoa gorda dos serviços, na tentativa de se ver livre do constrangimento, negligência e violência recorrentes, muitas vezes exercidas por profissionais que, supostamente, estariam ali para ajudá-la fornecendo suporte terapêutico para sua condição de sofrimento.

Por que a pessoa gorda é vista como "anormal"?
Os critérios de normalidade são construídos a partir de uma certa visão de mundo daqueles que “fazem ciência”. Em determinado momento da nossa história, quando a escassez cedeu lugar à abundância alimentar, o corpo magro passou a ser visto como algo a ser alcançado, um sinônimo de status, autocontrole e determinação, numa falsa crença de que ele só pode ser fruto de alimentação e práticas “saudáveis”. Em contrapartida, o corpo gordo passa a ser visto como o oposto disso, como sinônimo de algo “não saudável”, do ponto de vista científico, que é fruto de um “comportamento desviante”, aí já entrando no campo da moralidade.

É muito comum ouvirmos "não, não sou gordofóbico, eu só estou preocupado com a saúde da pessoa". Como podemos desfazer essa confusão?
Mascarar gordofobia com o discurso de “preocupação com a saúde” é algo bem recorrente, mas tratar alguém de forma discriminatória, invasiva, hostil e desrespeitosa não é nem de longe uma maneira de promover saúde. E, ao contrário do que se acredita, o constrangimento não funciona como incentivo ao emagrecimento e a adoção de práticas saudáveis. A primeira crença que deve ser desfeita é a de que uma pessoa gorda é necessariamente “não saudável”. Esta forma de pensar é devido a uma maneira simplista e binária de entender o que é saúde, que coloca como não saudável tudo aquilo que foge do que seria a “norma” cientificamente estabelecida sob uma perspectiva biológica. No caso da pessoa gorda, essa norma “não cumprida” é o chamado Índice de Massa Corporal (IMC).


Muito amor por essa ilustração da @isadoranãoentendenada. A reprodução da imagem foi autorizada por ela!

De fato, pessoas gordas podem ser saudáveis?
Totalmente. Inclusive existem estudos recentes que trazem essa discussão. Um estudo publicado em 2012 (MATHESON, KING, EVERETT) determinou a associação entre hábitos de vida saudáveis (comer cinco ou mais frutas e vegetais diariamente, fazer exercícios regularmente, consumir álcool com moderação e não fumar) e mortalidade em uma grande amostra populacional (mais de 11 mil indivíduos acompanhados por cerca de 14 anos), estratificada por IMC, e concluiu que a adoção de hábitos saudáveis diminui o risco de mortalidade independente do IMC inicial.

Em 2016 outro estudo (TOMIYAMA et al) utilizando os dados de pressão arterial, triglicerídeos, colesterol, glicose, resistência à insulina e proteína C-reativa, analisou as porcentagens de indivíduos metabolicamente saudáveis versus insalubres, estratificadas por IMC: mais de 30% de pessoas com peso normal estavam metabolicamente insalubres e quase metade dos indivíduos com sobrepeso + 29% dos indivíduos obesos grau I + 16% de indivíduos com obesidade II e III estavam metabolicamente saudáveis, concluindo assim que pessoas podem ser saudáveis não importando o seu IMC.

O IMC isoladamente não é um indicador de saúde confiável quando se trata de indivíduos; ele é um indicador populacional. E, ainda assim, trata-se de um indicador populacional concebido a partir de uma perspectiva limitada de saúde.

E existe relação entre magreza e saúde?
O que existe é uma valorização moral do corpo magro, visto como resultado de “força, foco e fé”. Uma ideia equivocada de que ao ser magra a pessoa já cumpriu um pré-requisito para ser saudável, mesmo que ela não tenha feito absolutamente nada para ter aquele corpo e tenha hábitos completamente contrários à manutenção da saúde.Vivemos um momento em que quase ninguém supõe que uma pessoa com baixo peso (IMC inferior a 17) pode estar doente, “pode ser apenas uma característica pessoal”. Porém, o mesmo pensamento não ocorre com pessoas com IMC acima de 25. De fato, tanto a pessoa magra quanto a pessoa gorda podem estar saudáveis ou não, isso sem entrar na discussão do que deve ser entendido como saúde, me refiro aqui apenas do ponto de vista biológico/metabólico.

Uma pessoa pode ser obesa e desnutrida ao mesmo tempo?
Apesar de ser contraintuitivo para muitas pessoas, fome e excesso de peso não são opostos, mas estão relacionados. Especialmente se considerarmos a realidade do Brasil, a insegurança alimentar determinada pela pobreza pode induzir à escolha de alimentos com alta densidade calórica, porém com baixa qualidade nutricional, relacionados ao baixo custo desse tipo de alimentos, que geralmente são os industrializados ultraprocessados.

Qual a diferença entre gordofobia e lipofobia?
A gordofobia é a discriminação das pessoas gordas e seus corpos, associando-as ao descontrole, desleixo, preguiça, doença, inadequação. Por outro lado, a lipofobia é a aversão ou medo da própria pessoa em se tornar gorda.

Na sua formação como nutricionista, houve espaço para discussão sobre esse tema? De que forma a gordofobia é tratada no curso de nutrição?
Nos últimos cinco anos o tema tem aparecido com um pouco mais de frequência, em espaços extra classe: semanas acadêmicas, seminários, aulas especiais – mais por uma busca das/os próprias/os estudantes. Na grade curricular ainda não há espaço para discussão do tema, e em diversos momentos nos vemos às voltas com o discurso gordofóbico disfarçado de preocupação com a saúde, onde a “ciência” cede lugar aos preconceitos de ordem moral.

No seu trabalho de conclusão de curso, você apontou que os profissionais da área da saúde, no geral, têm uma postura bastante estigmatizante e gordofóbica. Você pode explicar como isso acontece?
Embora tenhamos (eu e a Barbara Leone, minha dupla no trabalho) observado mais atentamente o espaço em que estávamos inseridas – curso de graduação em Nutrição da UFSC – há algum tempo que não são mais segredo as atitudes gordofóbicas entre profissionais de saúde das mais diversas áreas. Por exemplo, sob a hashtag #gordofobiamedica podemos ter acesso a relatos que podem ser subdivididos em algumas categorias:

Estigma, reduzindo a pessoa gorda a suas características físicas e comportamentais consideradas inapropriadas e rotulando-a como preguiçosa, descontrolada, desleixada, indisciplinada, gulosa, etc.
Constrangimento por meio de comentário inapropriados e desrespeitosos à pessoa gorda. Os profissionais sentem-se no direito de supor e opinar sobre sua vida e seus hábitos, de maneira invasiva.

Tudo se resume ao IMC, qualquer problema de saúde é reduzido ao peso corporal, ou seja, se a pessoa chega com um dedo quebrado, refluxo ou ansiedade, a causa sempre será o alto índice de massa corporal. Negligência no diagnóstico em favor do IMC. Um dos casos que mais me impactou foi o de uma moça que teve um câncer diagnosticado tardiamente pela indiferença aos sintomas em detrimento do seu peso.

Como deveria ser um tratamento respeitoso e esperado para pessoas gordas nos equipamentos de saúde (postos, hospitais, clínicas)?
Um dos grandes limites do combate à gordofobia é a negação da existência da opressão, impedindo a realização da autocrítica por parte dos profissionais e, com isso, agravando a persistência da reprodução do preconceito. Um bom começo seria sair do lugar de julgamento e rejeição e adotar uma postura mais empática e acolhedora, buscando entender e atender os reais motivos que levaram àquela pessoa a buscar o serviço que podem, ou não, estar relacionados com a insatisfação corporal e um (suposto) interesse em perder peso.

Contatos da Jacobina Cantisani
Telefone: (48) 99673-9631. 
Instagram: @jacobina.nutri.ayurveda

Ah! Esse post é patrocinado pelos assinantes do Catarse, que contribuem todo mês para que o Comida Saudável pra Todos continue firme e forte! Se você também quiser dar uma força, clica aqui. 

Carinho em forma de sopa - R$ 3,18

16 de maio de 2019
Até o Faustão já sabe que minha amizade com os vegetais é recente. Essa ladainha toda, que eu gosto de chamar de "como cheguei na berinjela depois de tanto miojo" foi contada mil vezes por aqui. Mas esqueci de contar uma parte dessa história. Bastante importante, aliás. E vou descrevê-la agora.

Nos tempos em que eu catava salsinha do prato e sonhava com nuggets, havia alguns pratos a base de vegetais que eu respeitava. Tinha o arroz com feijão, vamos ignorar a fase em que eu só tolerava o caldo do feijão, e as sopas

Sim, parece bem sem graça e com cara de comida de hospital. Mas guarde o seu preconceito pras propostas do novo governo! Pode confiar que fica bom!

Na minha família ninguém espera o inverno ou uma gripe pra jantar sopa. Apesar de alguns parentes terem votado no Bolsonaro, sopa sempre foi uma das poucas unanimidades entre os Gomes e os Pereira. 

Meu avô paterno nasceu em um vilarejo de Portugal e começou na roça aos 11 anos. Os parentes só comiam o que a terra dava, nem sempre tinham animais na criação pra complementar as refeições, e as sopas a base de verduras faziam parte da rotina diária da família.

A galera da parte materna, toda nascida no Brasil, e de origem pouco privilegiada, seguia o mesmo bonde. E não podemos pular o detalhe que a cidade onde todos nascemos fica próxima à serra catarinense, onde a gente mal olhou pro lado e a temperatura já ficou abaixo de 0 grau. 

Por isso, um caldo quentinho atochado de vegetais sempre fez parte da minha cultura alimentar. E isso foi um dos poucos hábitos que a invasão dos ultraprocessados não me tirou. Era canja, caldo verde, creme de cebola ou de palmito, sopa de abóbora, de repolho, de beterraba. 

Por conta das sopas é que aprendi a comer chuchu. Dona Neide Aparecida, também conhecida na fila do pão como minha mãe, sempre foi uma ativista capaz de mover montanhas em defesa de um dos legumes mais desvalorizados no Brasil. 

Como nem tudo são flores, também tive a fase de aceitar apenas as sopas batidas no liquidificador, pra não precisar lidar com a textura dos vegetais. Olha! Não sei como a Nossa Senhora da Comida Saudável não desistiu de mim, viu? 

Aos poucos, conforme fui ganhando experiência na cozinha e tal, comecei a desenvolver minhas combinações e técnicas preferidas pra chegar nas sopas perfeitas. Descobri a sutil arte de finalizar as receitas com sementes de girassol tostadas na hora, pra dar uma crocância. Ou com chips de couve (só fatiar a couve e deixar no forno até fazer croc).

Minha sogra, não posso esquecer dela, foi quem me ensinou a finalizar qualquer caldo com gotas de limão espremido na hora. De preferência, aquele limão caseiro que metade do Brasil chama de rosa ou galego. Se eu fosse você, levava essa dica muito a sério. O limão faz com que todos os sabores harmonizem na boca! É um sonho!

Lucio Carlos, meu companheiro, me ensinou a jogar cubinhos de pão de ontem torrados por cima da sopa, temperados com azeite e bastante páprica. Quando não tem pão, a gente usa arroz na sopa, principalmente nas noites que estamos mais famintos, sabe? Às vezes só chuchu e cenoura não dão conta de forrar o senhor estômago. 

Compartilhados os segredos, vamos à receita desse post. Ela pode ser entendida como uma versão vegana da canja. Mas vou evitar esse termo pra não criar expectativas. Acho que ela se basta sozinha, sem comparações. Em vez do frango, quem brilha é o repolho fatiado, uma das minhas verduras preferidas no mundo. Sou fã incondicional do repolho porque ele é inacreditavelmente barato. Até a versão orgânica por aqui não sai por mais de R$ 3. E podemos fazer o diabo a quatro com ele. Servir cru, com molho tailandês. Refogado com gengibre. Assado com alecrim e vinagre balsâmico. Enfim. 

Difícil é comer um prato só.

Ingredientes
⠂1/2 cabeça de repolho verde cortado em fatias bem finas
⠂1 cenoura com casca ralada 
⠂1/3 de xícara de arroz da sua preferência
⠂1 cebola cortada em cubos
⠂1 folha de louro
⠂2 colheres de sopa de orégano seco
⠂1 colher de sopa de azeite
⠂água filtrada
⠂gotas de limão a gosto pra finalizar
⠂sal a gosto

Como fazer
Essa é a receita de sopa mais rápida que eu tenho na manga! Quase um fast food! O tempo de preparo dela é apenas o tempo de deixar o arroz cozido. E pronto. Pra começar, aqueci uma panela e joguei o azeite, a folha de louro e a cebola picada. Mexi até a cebola ficar levemente tostadinha. Aí acrescentei o arroz, cenoura ralada, o repolho, o orégano e água fervente o suficiente pra alcançar a textura desejada. Eu gosto mais grossinha. Tampei a panela e fui viver a vida até o arroz estar cozido. Desliguei o fogo, joguei o limão por cima e é isso. 

Sugestões de finalizações pra adicionar mais sabor a essa gostosura
⠂salsinha picada ou
⠂cubos de pão de ontem tostadinhos com azeite e páprica ou
⠂sementes de girassol tostadas na frigideira ou
⠂páprica defumada ou
⠂chips de couve.

Observação: essa receita é tão leve que o teu corpo não vai ter trabalho nenhum pra digerir. Então rola de comer pouco tempo antes de dormir. Isso pra mim é muito importante porque QUALQUER coisa que eu coma pouco antes de ir pra cama costuma tirar meu sono. 

Ah! Lá no Instagram tem uma aba nos destaques com mais dicas de sopas simples e com ingredientes acessíveis. 

E não custa lembrar: esse trabalho aqui só é possível por conta da galera que me apoia no Catarse. Muito obrigada, viu? ❤Se você ainda não é um apoiador do Comida Saudável pra Todos e quer receber as Colheradas do Mês, clica aqui

Guia antidesastre na cozinha

9 de maio de 2019
Eu e o fogão não temos uma super intimidade, o que pode ser estranho para uma pessoa que tem um blog de comida. Mas essa é a verdade. Nunca fiz curso de gastronomia, nem trabalhei em restaurantesMinha bagagem paneleira veio de leituras, observação, experiências, e das entrevistas quando era repórter de gastronomia.

                   
A cara e os utensílios são bem amadores, não se engane!
                         
Minha cozinha é, sobretudo, bastante amadora. Eu faço questão de lembrar isso sempre porque muita gente acredita que precisa estudar, cozinhar por anos, ou fazer cursos pra conseguir transformar uns ingredientes em comida boa. Mas não. 

Se eu, que volta e meia ainda queimo arroz, que há pouco tempo não sabia a diferença entre coentro e salsinha, consigo, qualquer um na fila do pão é capaz também. Mas é claro que não dá pra sair fazendo qualquer coisa. Sem nenhum tipo de informação você vai fazer coisas abomináveis como cozinhar um espaguete na água fria! hahahaha

Então não espere um momento de grande inspiração ou maratonar todos os episódios do Masterchef pra ir pra cozinha. Esse momento mágico não vai chegar. Se quiser um incentivo a mais, aí vai: fazer a sua própria comida não significa apenas mais saúde e maior proximidade com a produção dos alimentos. Preparar as suas próprias refeições significa dizer não às sacanagens da industria! Sacanagens ao colocarem no ar comerciais enganosos, na escolha de insumos de péssima qualidade, milho sempre transgênico, altas doses de gorduras, chuva de conservantes e informações desencontradas nos rótulos. 

Então, se eu puder te dar uma dica, anota aí: não terceirize a responsabilidade pelo que entra no seu estômago! :) 

E "por onde começar?" é uma uma pergunta que recebo todos os dias no Instagram. São mensagens de gente preocupada com o que anda comendo, mas totalmente perdida na frente do fogão. É bolo embatumado, feijão sem gosto, brócolis molenga, arroz empapado. Então, a pedidos, dediquei minhas últimas semanas a pensar em como estruturar esse guia antifracasso culinário. E cheguei a essas conclusões aí embaixo. 

Não são dicas profissionais, mas pontos que me ajudaram a evitar grandes desastres. Aliás, grande parte desses aprendizados aí eu adquiri depois de muitas cagadas! hahaha Partiu?

Algumas informações aí de baixo foram tiradas desse livro!

TRANQUEIRAS NECESSÁRIAS

Alguns instrumentos nos ajudam a economizar tempo e a transformar qualquer coisa em comida. Pra isso acontecer, não precisa de fritadeira elétrica, sanduicheira, máquina de pão e um conjunto de panelas que custa mais do que o seu aluguel. A necessidade dos eletrodomésticos depende de cada um, da sua rotina e gostos. Fique a vontade! :) Eu fiz uma listinha apenas com o essencial, na minha humilde opinião, pra começar a cozinhar:

Frigideira antiaderente: pra fazer panquecas, batapiocas, arepas, omelete de feijão, grelhar legumes, etc. Não esqueça: se for de teflon não dá pra usar depois de arranhada, hein? É perigoso por conta das toxinas que esse material solta! As frigideiras de cerâmica costumam demorar mais pra esquentar, é importante saber disso. Se ela tiver riscada, não importa o material, tem grandes chances da sua receita grudar no fundo! Cuide bem da sua frigideira!

Panelas: não preciso explicar esse item, né?

Panela de pressão: muita gente não vê necessidade, mas eu acho que economiza gás e bastante tempo na cozinha. Costumo usar pra feijões, mandioca e pra risotos a jato. 

Liquidificador: admiro muito quem consegue viver sem um. Pra mim, é impossível. Uso pra engrossar sopas, fazer leite de coco, suco, vitamina, patês...

Ralador grande e pequeno: o grande serve pra ralar batata, mandioca, cenoura. O pequeno pra raspas de limão, laranja, noz moscada. 

Faca boa e afiada: não dá pra fazer milagre sem uma faca decente. 

→Cumbucas grandes e pequenas: pra separar os ingredientes na hora do preparo, pra preparar molhos ou misturar massas de tortas e bolos.

Colher de silicone que possa ir ao fogo: são ótimas pra raspar o que foi batido no liquidificador, de forma que não desperdice nada, e servem pra mexer caldos, brigadeiro... 

Tábua: eu uso de madeira, por mais que não seja recomendada pela galera da engenharia de alimentos. Sou apegada e odeio tábuas de acrílico. Costumo passar água fervente e colocar no sol pra secar 1 vez por semana. 

Assadeiras: Eu não vivo sem forno também. Adoro tortas, bolos e legumes assados. Pra isso, precisamos de assadeiras. Eu tenho duas retangulares pra preparações gerais e uma de furo no meio pra bolos. 

COMO LIDAR COM AS GORDURAS

O maior cuidado que precisamos ter com as gorduras é não queimá-las. Por isso, nunca aqueça a frigideira com óleo ou azeite dentro. Ligue o fogo, espere o fundo da panela esquentar e só aí acrescente a gordura. Pra frituras, use sempre o fogo baixo e não reaproveite o mesmo óleo mais de 2 vezes. Tem dúvidas sobre a função de cada tipo de óleo? Espia esse post antigão aqui do blog. 

Outra dica importante é: alguns pratos precisam de muita oleosidade pra ficarem saborosos, como a farofa. Não tem como reduzir a quantidade de gordura. Então o jeito é comer com moderação mesmo. 


O DESAFIO DE MANIPULAR O CALOR

Sabendo administrar o fogo, dá pra deixar o feijão branco tostadinho, sem desmanchar. 

Pra mim, o maior desafio dos cozinheiros amadores é entender o tempo de calor das coisas: por quanto tempo assa e em qual temperatura, por quanto tempo grelha, cozinha, refoga, defuma. Eu mesma apanho do calor o tempo todo! Por isso, minha regra de sobrevivência é: antes cru, porque dá pra consertar, do que passado ou queimado. 

E outra coisa que não podemos esquecer: o tempo de preparo da Rita Lobo ou dos livros de receitas nunca será o mesmo da sua casa. Porque o tamanho do forno influencia, se ele é elétrico ou a gás, se a boca do fogão é grande ou pequena, além do tipo de assadeira ou panela. Saber controlar o tempo de preparo das coisas em casa é uma tarefa que só a experiência nos traz. 

Aqui também está um dos maiores motivos de problemas no preparo das famosas arepas de milho do blog. Muuuuuuita gente tentar virar a panquequinha antes do tempo, quando a massa ainda está molenga, o que faz a bonita se despedaçar toda! A mesma regra vale pras batapiocas ou panquecas no geral: abaixa o fogo e espera ficar bem tostadinho no fundo antes de virar. O segredo é a paciência! :)


O QUE PRECISAMOS SABER SOBRE ERVAS E TEMPEROS



Primeira coisa: que não dá pra viver sem eles. Comida sem tempero é uma ofensa à diversidade de aromas e sabores que a natureza colocou a nossa disposição. Já tem um post do blog bem explicadinho sobre quais temperos combinam com quais vegetais. Espia aqui. E nesse outro post tem informações sobre os benefícios de cada um pra nossa saúde. 

Mas vem mais dica por aqui. Já experimentou dar uma grelhadinha nos temperos com azeite antes de acrescentar outros ingredientes? Não deixa de investir nisso! Uma refogadinha em folhas de sálvia ou louro, num ramo de alecrim ou manjericão, ou em sementes de coentro ou cominho deixam qualquer comida muito mais aromática e saborosa. Isso acontece porque o calor desperta os cheiros e sabores das ervas e especiarias. :) Só cuida pra não queimá-las, viu? Vai amargar a comida! Gosto de fazer isso com sementes e ervas frescas. Já as versões em pó de temperos eu gosto de usar depois de incluir outros ingredientes. 



COMO EXALTAR AS FRUTAS

Poucas coisas simples são tão saborosas como uma banana grelhada!


Ok! Nada como se fartar de frutas frescas do jeito que elas vieram ao mundo. Mas, sei que muita gente tem dificuldades ou preguiça de consumi-las. Eu, por exemplo, me entupo de melancia, abacaxi e manga feito uma morta de fome nos meses mais calorentos. Por outro lado, reduzo o consumo em 800% durante o outono e o inverno. Não sei explicar, a vontade apenas reduz mesmo. Só tenho desejo por coisas quentinhas. No café da manhã, então, até no verão eu perco a vontade de frutas. Acho que o corpo ainda tá despertando e precisa de carinhos e aconchegos morninhos. 

Mas já resolvi essa questão aqui em casa com uma ferramenta maravilhosa chamada calor! Sim, se você nunca grelhou ou assou frutas não sei o que anda fazendo da sua vida. Banana, maçã, caju e abacaxi, então, parece que foram feitas pra isso. Gosto de fazer na frigideira, com os pedaços cortados em cubos ou fatias, um tico de azeite ou óleo de girassol. Douro dos dois lados até os pedaços ficarem escurinhos. Às vezes salpico um pouco de canela em pó, noz moscada, coco ralado ou flambo na cachaça. Já a pera, o pêssego, a ameixa e o caqui prefiro fazer no forno com uma colher de açúcar mascavo por cima e suco de 1 laranja. 

Esse processo funciona bem com as frutas mais "cremosas". Morango, maracujá, tangerina, laranja, acerola, pitanga, uva e jabuticaba não! Elas encaixam melhor em geleias ou doces. Aliás, não deixa de usar esse artifício pras frutas maduras, hein? Nada de desperdício. Tem milhares de receitas de compotas e geleias na internet! O processo é quase sempre o mesmo: fogo baixo, açúcar e paciência. 

Aliás, tem uma diversidade imensa de frutas que rendem ótimos pratos ou molhos salgados. Já pensou em fazer um vinagrete de carambola ou um chutney de manga?

COLOQUE OS LEGUMES E VERDURAS NUM PEDESTAL


O dia que você refogar as arvorezinhas do brócolis no alho com um pouco de molho shoyu e acertar o ponto, deixando as bonitonas crocantes, mas cozidas ao mesmo tempo, já pode chamar Jesus e avisar que a missão da sua vida foi cumprida. Pra mim, um cozinheiro só ganha respeito quando acerta o ponto do brócolis. E olha, poucos vegetais são tão saborosos quanto um brócolis na textura certa, viu? Eu poderia viver apenas disso. Já o repolho, não tem erro. Pode ser consumido cru ou só precisa de uns minutos de refogado. Ele também fica maravilhoso com "aromas" orientais: óleo de gergelim torrado, tahine, amendoim, pimentas, gotas de limão. 

As cenouras podem ser cortadas em fatias grossas, cozidas por alguns minutos na água, depois finalizadas na frigideira com um tiquinho de óleo e sal. Antes de servir, despeje umas gotas de suco de laranja! Cenoura e laranja se amam sempre, não só no suco! Pode confiar. 

As beterrabas não costumam roubar meu coração. Mas insisto. Coloco no risoto, no recheio de tortas ou faço conservas com bastante vinagre, gengibre e sementes de coentro. 

A berinjela eu sou suspeita pra falar. Sem ela, sou tipo Bochecha sem Claudinho. Rola de empanar na farinha de mandioca e assar ou fritar, grelhar em rodelas ou fatias. O céu é o limite. E, se você tiver poucos minutos pra preparar uma refeição, corte uma abobrinha em rodelas, despeje as queridas numa frigideira untada com óleo de girassol e doure dos dois lados até estarem bem cozidas. Assim que desligar o fogo, jogue suco de 1 limão por cima das rodelas, sal e umas folhas de hortelã fresca. Poucos legumes alcançam esse nível de maravilhosidade em tão pouco tempo, de forma tão simples. 

Chuchu eu gosto de colocar na sopa ou fazer picles. Tem receita no Instagram. Quiabo fica um sonho sem baba grelhado no forno com raspas de limão e seu amigo jiló alcança um nível divino quando grelhado ao molho de melado e vinagre balsâmico. 

Em resumo, não existe legume ou verdura ruim. Eles só foram mal preparados mesmo. Vamo deixar de jogar tudo na panela com água, porque de falta de vergonha na cara já basta esse novo governo, e passar a colocar o reino vegetal num pedestal. 

Ah! Tem uma informação preciosa pra evitar desastres no preparo dos legumes. Cada um tem o seu tempo de cozimento. Então não dá pra assar ou cozinhar beterraba e brócolis juntos. No geral, as raízes e tubérculos precisam de mais tempo do que hortaliças. Os vegetais mais aguados, como chuchu, abobrinha e tomate, também são mais rápidos de preparar e não costumam se dar bem em recheios de tortas. As chances de soltarem muita água e deixarem a massa crua e molenga é muito grande! 

Seguem algumas sugestões de receitas bafônicas aqui do blog:








VEM NIMIM, FOLHAS VERDES

Ai, os matos refogados! ❤

Já tô chata e repetitiva, eu sei. Mas lá vou eu pedir um minuto da sua atenção pra ouvir a palavra do mato refogado. As folhas verdes não foram concebidas apenas para serem comidas cruas. Principalmente as mais amargas, como almeirão e chicória. Elas ficam muito mais amigáveis quando refogadas e acompanhadas de outros ingredientes que equilibram o amargor. Não entendeu direito como isso pode ser possível? Espia esse post. 

Não esqueça: não tem plano de saúde melhor do que comer folhas verdes! Elas nos fornecem cálcio, ferro, vitaminas e aumentam a imunidade. De quebra, ainda nos dão autonomia alimentar e ajudam a diversificar a alimentação. Não fique na mesmice da alface, não! Vamos explorar todo o mato disponível nesse mundo! Estude as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) da sua região, como ora pro nobis, azedinha, bertalha, caruru e já pra cozinha!

Ah! As folhas ficaram murchinhas ou amareladas? Nada de jogar fora! Elas podem render um pesto maravilhoso ou ocupar espaço em tortas ou empadinhas


COMO VIVER SEM LEGUMINOSAS?

Tem receita de omelete a base de feijão fradinho aqui no blog!

Não existe vida sem feijão. Se você discorda, acho que não podemos ser amigos. hahaha Mas há algumas coisas importantes que devemos lembrar nesse tópico. 

→Todas as leguminosas (feijões, lentilhas, soja, favas, grão de bico) precisam ficar de molho e essa água precisa ser descartada. A exceção é apenas a lentilha rosa. Muita gente entende esse processo como frescura, mas não é. O demolho ajuda a retirar os fitatos, que são substâncias que atrapalham a digestão e dificultam a absorção do ferro. Por isso, o preparo delas exige planejamento. Coloca aí na agenda ou pendura um bilhete na geladeira pra te lembrar de colocar os feijões de molho. Aqui em casa a gente põe as leguminosas de molho, em geral, nos domingos e quartas. O tempo de demolho varia conforme o tamanho do grão: quanto maior, mais tempo. Nesse post do blog tem mais detalhes sobre isso e sugestões de preparo.

→Cozinhar na pressão acelera o processo de cozimento e economiza gás. Eu costumo cozinhar todas as leguminosas com folhas de louro, sal e uma pitada de cominho em pó. Depois disso é que tempero melhor. 

→Como são de difícil digestão, as leguminosas precisam ser temperadas com ervas e especiarias digestivas: louro, gengibre, cominho, coentro e feno grego, por exemplo. Também é bom evitar consumi-las à noite. 

→Como temperar: alho e cebola juntos dificultam ainda mais a digestão do feijão. Então escolha um só por vez. Acho que não é só uma questão de digerir melhor. A gente precisa variar os sabores e formas de preparo, né?

→O caldo do feijão fica sempre ralo? Então você mexendo demais. Depois de temperar, tampe a panela, abaixe o fogo e nada de colocar a colher! É a crosta que forma em cima do caldo que vai engrossar o feijão. Aprendi vendo Masterchef. 

→Ah! As leguminosas não servem apenas pra caldos, viu? Elas rendem patês, panquecas, saladas e até pra bases de tortas. 


O BASICÃO SOBRE OS CEREAIS

Sobrou arroz? Que tal rechear o pimentão?

Existem mil técnicas de preparo do arroz. E, pasme, isso é até motivo de grandes conflitos! hahaha Eu faço de duas formas: ou dou uma fritada no arroz com um pouco de azeite antes de colocar a água ou pulo essa etapa e coloco 1 colher de sopa de vinagre de maçã, o que também ajuda a deixá-lo mais soltinho. O sal entra antes da água também!

O que costuma fracassar o arroz é meter a colher nele depois de colocar a água ou ir acrescentando água à medida que ela for secando. Isso só dá certo na casa das avós. Comigo nunca rolou. Então eu faço sempre a porção exata de 1 xícara de arroz pra 2 de água (ou 3 xícaras se for arroz integral). 

Tem arroz velho na geladeira? Mistura com feijão (sem o caldo) e faça bolinhos. Tem receita aqui. Ou aproveita pra rechear legumes, como pimentão, ou fazer charutinhos de folha de uva ou repolho, cozidos no molho de tomate. 

Depois do arroz, o cereais que a gente mais consome aqui em casa são o milho e a aveia. Em relação ao milho, esse lindo, procure as versões não transgênicas. Não sabe o que isso quer dizer? Clica aqui. E não esqueça que se trata se um cereal muito seco, então é bom consumir em forma de coisas molhadinhas, como um creme, uma sopa, pamonha, panqueca, mingau. Esses preparos mais úmidos vão facilitar a digestão desse ingrediente maravilhoso e super presente na culinária brasileira.

Você também precisa saber que existem milhões de variedades de farinha de milho no Brasil. O fubá, a versão mais fina, é bom pra polenta e panquecas. Os flocos finos ajudam a engrossar o virado e o flocão rende farofas ótimas, além do cuscuz. 

Da aveia eu sou super tiete também. Não só porque ela é versátil, engrossa caldos, dá um excelente molho branco, mas porque tem uma função maravilhosa de proporcionar saciedade! Comer aveia, pra mim, significa demorar a ter fome. 

O que você precisa saber de importante sobre preparações com aveia: esses grãos incham em contato com a água. Isso quer dizer que podem ser uma opção esperta pra panquecas, hambúrgueres e bolinhos. Espera hidratar por uns minutos e pode correr pro abraço. Aqui no blog tem uma receita maravilhosa de hambúrguer de aveia a parmegiana. Espia aqui.



COMO EVITAR O FRACASSO DE UM BOLO

Tem receita desse bolo de banana com casca e tudo aqui no blog.


A confeitaria não tem nada a ver com a culinária no geral. Preparar bolos, tortas, docinhos, pudins e seus amigos significa adentrar em outro setor gastronômico, com regras bem mais exigentes! Eu não queria ser essa pessoa, mas temos um compromisso com a honestidade aqui, né? Então lá vai a verdade: dificilmente alguém tem sucesso nos seus primeiros bolos. É cruel mesmo, mas há muitas possibilidades de cagadas. Pra evitar a maioria delas, anota aí:

→Antes de começar qualquer etapa do bolo, pré-aqueça o forno! Introduzir a assadeira no forno frio é desastre na certa! Na preparação de brownies, por exemplo, o forno precisa estar BEM quente pra ajudar na formação da famosa casquinha. Eu costumo deixar uns 15 minutos pré-aquecendo antes de colocar qualquer bolo pra assar.

Peneire a farinha, o açúcar, o cacau e o fermento/bicarbonato. Essa etapa ajuda a deixar a massa mais fofinha e evita possíveis bolinhas de farinha no meio do bolo. 

→Você não precisa de fermento industrializado com milho transgênico pra fazer um bolo crescer. A simples junção de 1 colher de chá de bicarbonato de sódio com 1 colher de sopa de vinagre de maçã já será suficientes pra fazer seu bolo aumentar de tamanho. 

→Não asse bolos no fogo alto! A temperatura deve estar sempre entre 200 e 180 graus. Do contrário, a superfície e o fundo vão torrar e o meio ficará cru. 

Não abra o forno antes de 30 minutos, pelo menos. O choque térmico com ar frio vai cagar o processo e embatumar a sua massa.



COMO PLANEJAR O CAFÉ DA MANHÃ

Nesse café tem: pãezinhos de mandioca, ricota de gergelim (receitas aqui no blog), banana grelhada e suco de manga com maracujá.

Cada um que sabe da sua rotina e possibilidades, né? Eu gosto de tomar café da manhã com calma e me organizo pra isso. Em geral, já penso na noite anterior o que vou comer. Se tiver pãezinhos de batata congelados, já coloco na geladeira pra ir descongelando e assar mais rápido no dia seguinte. Colocar o feijão fradinho de molho pra fazer um omelete também é uma opção. Aos domingos também costumo deixar alguma pastinha pronta pra rechear tapiocas, panquecas ou pra comer com pão mesmo. O segredo é variar, né? Nos dias apressados só como frutas com granola. Nos mais calmos, como esse da foto, dá até pra grelhar uma banana. As bebidas eu gosto de variar também. Um dia café com leite de coco, outro um chá de erva doce com hortelã ou um suco. 

PLANEJAR UMA REFEIÇÃO EM CASA


Minhas refeições principais não têm muito segredo também. É sempre um feijão com alguma coisa. De noite, eu costumo comer um sanduíche com abacate, pipoca ou sopa. 

Em geral, na hora de planejar a composição de um prato, eu tento reunir pelo menos 1 integrante de cada um dos 6 sabores segundo as medicinais orientais, o que garante uma boa digestão, a absorção de nutrientes e a construção de sabor. São eles:

Doce: raízes, cereais e frutas
Ácido: frutas cítricas, conservas, vinagre, limão
Salgado: sal, missô, molho shoyu
Adstringente: leguminosas
Picante: ervas e especiarias
Amargo: folhas verdes

Então seguem algumas sugestões de composição divididas por pressa! 

Pros dias mais corridos:

→Arroz, feijão, um legume grelhado, como abobrinha, e uma folha verde crua temperada com limão e azeite.

→Arroz, feijão cozido no molho de tomate, quiabo grelhado, uma folha verde crua temperada com mostarda e melado.

→Feijão, purê de batata doce, picles de chuchu e salada. 

→ Kitchari de lentilha (receita aqui) com salada. 

Pros dias mais calmos:

→ Feijão, arroz, almôndegas de berinjela e salada. 

→ Sopa de feijão e uma torta de legumes.

→ Sopa de feijão e escondidinho de legumes.

→ Arroz de carreteiro (receita aqui) e salada com molho de shoyu e cebolinha. 

→ Risoto de grão de bico e mato refogado.

→ Pirão de feijão com jiló frito e salada. 

→ Omelete de feijão fradinho (receita aqui) e legumes refogados de fácil digestão (cenoura, abóbora, abobrinha, couve-flor, etc). 


COMO ORGANIZAR MARMITAS


O principal na hora de organizar marmitas é a escolha de pratos práticos, que podem ser consumidos frios, e que não vão virar uma mistureba imensa dentro da vasilha. Hoje eu trabalho de casa, mas quando era assalariada e trabalhava em escola, não tinha como manter a marmita refrigerada. Então não rolava de levar coisas que azedam fácil, como as leguminosas. 

Eu optava por hambúrgueres de vegetais (como esse) com salada, risotos de legumes, tortas (como essa) ou yakissoba. Tenho pavor de microondas, então sempre escolhia pratos que não precisam ser esquentados. Deixava pra comer feijão à noite, em casa. 


COMO PLANEJAR LANCHES FORA DE CASA

Docinhos a base de amendoim ou castanhas também sustentam e rendem ótimos lanches.

Tudo vai da sua boa vontade e tempo, né? Dá pra levar uma porção de amendoim temperado em casa com páprica e curry, frutas com granola, pipoca, docinhos como esse da foto, à base de uva passa, cacau e amendoim (receita aqui), um pedaço de bolo ou bolachinhas.


Ajudei? 

Ah! Esse post é especial pros seres humanos do sexo masculino que insistem na falta de "talento" pra justificarem sua vida boa e escravidão das mulheres. 

Nachos abrasileirados - R$ 2,46

4 de abril de 2019
Mergulhada em leituras recentes, tive um clique (desses bombásticos) e percebi que a gente precisa de um pouco de história pra mudar a nossa relação com a comida. 

Esse sentimento também tomou força quando assisti ao episódio da série Chefs Table, do Netflix, com a chef Cristina Martinez. Se você é vegano, como eu, já se prepara porque 98% da série é focada em pratos com muitos bichos. E o episódio com a Cristina segue esse mesmo roteiro. Mas, a história dessa mulher é tão impactante, tão profunda, de tanta superação, que você esquece que se trata de comida. 

Cristina é uma moça que nasceu no interior do México, numa dessas famílias que fazem das refeições à mesa o momento de trocar afeto e amor. Ela acabou casando cedo, sendo escravizada pela família do marido, sendo espancada pelo fulano, e resolveu fugir pros Estados Unidos em busca de liberdade pra própria filha. O marido não queria deixar a menina estudar e defendia que ela devia casar cedo também. Pra pagar seus estudos e evitar o aprisionamento da filha, Cristina se mandou pra terra do Trump, onde vive ilegalmente até hoje. 

E sabe o que faz a cozinheira continuar firme depois de anos longe da terra e da família? A comida. Ela abriu um restaurante mexicano na Filadélfia, onde diversos imigrantes ilegais do México se reúnem. Sabendo que a base alimentar do seu país de origem é o milho, e que os astecas levantariam dos seus túmulos se ela fizesse tortilhas com o milho transgênico americano, Cristina nem pensou duas vezes: importou sementes ancetrais do México ilegalmente e entregou a agricultores conhecidos, que produzem pro seu restaurante. 

Chorei compulsivamente com esse episódio, principalmente na parte que encenam um ritual que os astecas faziam com o milho. Fica a dica. 

Ontem, quando fui no supermercado pra comprar azeite, saí caçando todos os rótulos de produtos que possuem milho transgênico na composição. E olha, talvez seja mais da metade da loja. Peguei um Doritos nas mãos e fiquei pensando no que Cristina e sua família sentem quando veem essa substância comestível, que a embalagem chama de "nachos". 

No Brasil e em outros países por aí, a comida mexicana virou febre. É tortilha, encilada, nachos, burritos, tacos, guacamole, etc. Alguns restaurantes não têm limites e criaram aberrações como tacos de queijo com goiabada. Outros já ostentam o título de "receitas tradicionais mexicanas". Mas eu duvido que tenha algum empreendimento aí que respeite, de fato, a culinária ancestral mexicana e faça suas receitas com milho de verdade. Sabe? Que não tenha caído no conto do milho transgênico, que já chega a ser 89% da produção de milho brasileira.

Tudo isso pra dizer que eu deixo de comer Doritos não só porque não é vegano, ou porque tem glutamato monossódico e milho de mentira. Aquele pacote não me conta história nenhuma. Não tem vida, não tem alma. É isso que significa qualquer alimento ultraprocessado: nada. 

O bolo de pacote que dura 6 meses sem posar nenhuma mosca não tem cheiro de bolo de vó. O pão com aromatizante tem gosto de isopor. Aquela pozinho de miojo não lembra qualquer molho que usamos pra dar sabor ao macarrão. 

Chega de importar dos Estados Unidos esses modismos alimentares e esse amor à indústria, né? A gente precisa, com urgência, resgatar o respeito que os nossos vizinhos têm pela culinária tradicional e pelos ingredientes que a cultura indígena nos presenteou, como o milho, o amendoim, o feijão, a abóbora. 

Pra abraçar e agradecer os nossos vizinhos mexicanos, trago uma receita facílima de nachos, pra gente comer nos dias mais corridos com o melhor fast food do mundo: o guacamole. 

Chupa, Doritos! hahaha

Não consegui fazer a receita apenas com farinha de milho. A massa ficou quebradiça demais. Meu amigo chef deuso Ruan Felix explicou que as tortilhas e nachos mexicanos só levam farinha de milho porque esse milho passou por um processo chamado nixtamalização. Como dá muito trabalho fazer isso em casa, a gente coloca uns trigo junto, né? E temos uma versão abrasileirada de nachos. 

Antes, só queria ressaltar duas coisas. O sucesso do seu preparo depende dos temperos da massa (capriche!) e da atenção total ao tempo de forno. A massa queima muito fácil. Então já adianto que nas primeiras vezes que fizer a receita você precisa ficar na cozinha de olho no forno. Esqueça a TV, o telefone e a vida. hahaha

Ingredientes
⠂1 xícara de farinha de trigo
⠂1 xícara de farinha de milho (fubá) não-transgênico
⠂1/2 xícara de água
⠂2 colheres de sopa de azeite
⠂1 colher de sopa de páprica defumada
⠂1 colher de café de pimenta caiena (vai ficar bem picante)
⠂1 colher de sopa de orégano
⠂1 colher de chá de sal 

Observação 1: Se você optar por fritar a massa, vai precisar de bastante óleo também. Eu sempre faço assado. 

Observação 2: Pode fazer com farinha de trigo integral, mas aí será preciso um pouco mais de água, tá?

Como fazer
⠂Aqueça o forno a 200 graus. 
⠂Misture tudo numa tigela com carinho, e trabalhe a massa com as mãos até ficar bem incorporada e nada farelenta. Como se fizesse um pão, entende? 
⠂Unte uma mesa ou bancada da sua cozinha com farinha de trigo, e dê uma leve sovada nessa massa. 
⠂Faça uma bolinha e abra com um rolo de macarrão ou garrafa de vidro. 
⠂Vá amassando até a massa ficar BEM lisinha e fininha. 
⠂Transfira essa massa pra uma assadeira, com cuidado pra não quebrar. Aqui em casa a gente não tem um assadeira imensa, então acabamos dividindo toda a massa em 4 assadeiras. 
⠂Faça riscos em forma de triângulo com uma faca. 
⠂E pronto. É só assar a 180 graus por cerca de 10 minutos. Cuida pra não queimar pelo amor da deusa da comida saudável! 

Observação 3: Parece trabalhoso e demorado, né? Mas a gente fez tudinho em menos de 20 minutos. 

Esse é último resquício de massa que sobrou. E assim que fazemos os riscos em forma de triângulo.

Duração: Se sobrar, pode guardar num pote bem fechado ou vidro por até 3 dias. Depois disso vai começar a ficar menos crocante. Se você fizer a versão frita, vai durar mais. 

A gente comeu com guacamole, mas podia ser com qualquer coisa! A receita rendeu 3 potinhos desses bem cheios de nachos. É bastante coisa!