Uma ceia simples e vegana

22 de dezembro de 2018
Para os curiosos: a bebida da jarra é chá gelado de casca de abacaxi com capim limão, um pouco de vinho branco e pedaços de morango. 

Se tem uma coisa que não me anima muito desde que virei adulta é o Natal. Estar de férias e reunir a família não parece algo ruim, mas tem duas coisas que mexem muito comigo nessa data festiva: a questão do machismo, porque as mulheres costumam ficar extremamente sobrecarregadas nessa época, e o festival de animais mortos na ceia. 

Até achei que fosse ser mais zoada pela família desde que passei a negar o chester, há 6 anos. Pensei que seria um sofrimento imenso deixar de comer todos aqueles bichos decoradíssimos e que deveria levar vários pratos vegetarianos pra ceia da família. 

Até cheguei a levar um tabule de quinoa e uns rolinhos de berinjela a parmegiana pra ceia na casa da família do meu pai e da minha mãe. Mas praticamente ninguém comeu porque já tinha um festival de comida. 

Comecei então a me contentar apenas com o que já estava incluído no menu familiar: farofa, maionese, torta de palmito, creme de milho, salada. E todos os doces do mundo. Mas agora eu virei vegana e nenhuma dessas opções é livre de ingredientes de origem animal. Minha mãe, a responsável pela famosa torta de palmito, já tratou de fazer um teste da receita com leite vegetal. E deu muito certo. E vai ser isso que eu vou comer. Tô pensando apenas em levar uma sobremesa. Talvez alguma entrada também. Vamos ver se conseguirei um espaço no calor das cozinhas da família. 

O resto é copo cheio de cerveja, telefone desligado, ouvidos a postos para as piadas do meu pai, sessão de fotos, amigo oculto rouba-rouba (a melhor parte sempre). 

Maaaaaaas, o post de hoje é uma sugestão de ceia vegana completa da forma mais simples possível. Seria exatamente isso que eu faria se a o Natal fosse na minha casa. Nada de animais na mesa, nem pratos trabalhosos. Ninguém merece passar o dia inteirinho na cozinha quando a família toda tá na piscina ou tomando banho de mangueira. 

Pensei num cardápio que facilite a vida de todo mundo, que até as crianças podem ajudar, e que possa ter alguns passos adiantados no dia anterior. De quebra, tudo sem glúten, sem excesso de açúcar, muito barato e com ingredientes comuns no Brasil.

Se tem uma coisa que não faz sentido no mundo é a gente ficar replicando um modelo de Natal comum nos Estados Unidos e na Europa. Pra que endeusar um senhor de barba branca com uma roupa de neve? Pra que tanta coisa assada se aqui faz um calor escaldante nessa época? 

Planejei um menu bem refrescante e com ingredientes a cara do Brasil. Em vez de lentilha, que não produzimos por aqui, o prato principal da ceia leva ervilha, uma leguminosa cultivada em massa no nosso país. 

Ah! Minha família nunca teve tradição de comer bacalhau, rabanada ou salpicão. Então nem me dei ao trabalho de testar opções veganas e acessíveis dessas receitas. 

Informação importante: essa ceia completa serve de 4 a 5 pessoas. 

Rolinhos de abobrinha com molho de manga - R$ 5,89

Pode variar a receita como quiser. Rechear com castanhas, trocar a manga pelo maracujá, a rúcula por agrião...

Ingredientes
⠂1 abobrinha 
⠂1 manga
⠂2 colheres de sopa de molho de mostarda (pode ser dijon ou dessas de lanchonete)
⠂1/3 de xícara de sementes de girassol sem casca
⠂1/4 de xícara de uva passa
⠂8 folhas de rúcula
⠂1 limão
⠂pimenta rosa a gosto (opcional)
⠂sal a gosto

Como fazer
Com um descascador de legumes ou mandolim, é só fatiar a abobrinha no sentido do seu comprimento. Numa frigideira, toste as sementes de girassol com um pouco de sal até ficarem morenas. Num liquidificador, bata a polpa da manga com a mostarda e o suco do limão. Reserve. Aí é só montar. Estique a fatia de abobrinha numa tábua. Num cantinho, coloque uma folha de rúcula, um punhadinho pequeno de semente de girassol e a uva passa. Vá enrolando como se fosse panqueca. Se não conseguir deixar o rolinho fechadinho, espete um palito pra fixá-lo. Pode deixar na geladeira e na hora de servir é só jogar o molho de manga e um pouco de pimenta rosa por cima.

Observação: Essa receita pode ser feita no dia anterior. 

Mini batatas com ricota de amendoim - R$ 4,62

O problema dessa receita é parar de comer. Dá vontade de fazer a ceia só com ela. hahaha

Ingredientes
⠂12 batatas inglesas do tipo baby*
⠂2 xícaras de amendoim cru** sem sal (com ou sem pele)
⠂1 maço de cebolinha
⠂1 ramo de alecrim (ou manjericão)
⠂2 limões
⠂2 colheres de sopa de azeite

*Se não achar essa mini batata, pode usar a normal e cortar em rodelas. 
**Pode fazer com o amendoim torrado, mas o sabor vai ficar muito forte. Eu prefiro pra receitas doces. 

Como fazer
Vamos começar pela ricota. Eu fiz exatamente a mesma receita da ricota de gergelim, apenas dobrei a quantidade. Como o amendoim é cru (eu prefiro por ter um sabor mais suave), cozinhei em água por 10 minutos antes de bater e coar pra fazer o leite. Separei o resíduo do leite de amendoim pra fazer um patê e comer com pão depois. Pra isso, só temperei com sal, limão e orégano. Voltando pra ricota, temperei com 1 limão, sal, 2 colheres de azeite, a cebolinha e o alecrim. E pronto. Aí basta cozinhar as batatas em água e sal até ficarem macias, cerca de 10 minutos. Escorri essa água e coloquei as batatinhas num refratário. Em cada uma, fiz um cruz com uma faca e coloquei o recheio por cima. A ideia de fazer essa cruz é deixar o recheio entrar mais, mas não precisa fazer isso não. É importante deixar essa receita esfriar na geladeira por, pelo menos, 30 minutos. 

Observação: Pode deixar pronta na geladeira no dia anterior. 


Assado de berinjela e ervilha picante - R$ 9,53

Esse prato parece simples, mas é super especial. A berinjela fica com uma crostinha maravilhosa. Parece até que foi empanada. 

Observação: essa receita é uma adaptação abrasileirada da Márcia do blog Compassionate Cuisine. Pra ver a versão original, clica aqui

Ingredientes
⠂1 xícara de grãos de ervilha deixados de molho por 12 horas
⠂2 berinjelas com casca cortadas em rodelas
⠂1 cebola
⠂4 dentes de alho
⠂1 colher de chá de cominho em pó
⠂2 folhas de louro
⠂1 colher de chá de páprica picante (ou uma pimenta de sua preferência)
⠂1 lata de tomate pelado (ou 4 tomates maduros)
⠂1 xícara de leite de coco
⠂1/2 maço de coentro ou salsinha
⠂pimenta do reino a gosto
⠂4 colheres de sopa de azeite

Como fazer: Enquanto cozinhei a ervilha com as folhas de louro por 30 minutos na panela com água, levei as rodelas de berinjela ao forno com sal, 2 colheres de azeite e pimenta do reino. Assei em fogo alto por 15 minutos. As berinjelas precisam estar assadas, mas não desmanchando. Numa panela, refoguei a cebola e o alho. Depois acrescentei a ervilha já cozida, a páprica, o cominho, sal, a lata de tomate pelado e o leite de coco. Deixei esse molho apurando por 15 minutos. Num refratário grande, coloquei 2 colheres de sopa de azeite no fundo e untei bem com as mãos. Acrescentei uma concha do molho. Em cima dele, fiz uma camada com as berinjelas assadas em rodelas. E assim fui intercalando as berinjelas e o molho. Levei ao forno por 20 minutos e, na hora de servir, acrescentei o coentro picado por cima. 

Arroz com cenoura e raspas de limão

Arroz é um negócio muito particular, né? Ainda mais no Natal. Todo mundo tem uma receita de família. No meu caso, resolvi inovar e fazer o arroz com raspas de limão da Rita Lobo (receita aqui), que é extremamente incrível e dá vontade de comer puro. A única coisa que mudei foi acrescentar uma cenoura ralada pra dar uma cor. Não calculei o valor dessa receita porque esqueci. hehe

Sagu de abacaxi com hortelã - R$ 5,94

Pode servir o sagu numa tigela grande ou em mini potinhos.

Eu peguei essa maravilha de receita da querida da Mônica, do Santo Legume, link aqui. Aliás, se você não conhece, precisa voar e conhecer esse blog. As únicas coisas que mudei na receita foram: acrescentei hortelã na hora de fazer o chá de casca de abacaxi e também na hora de servir, além de usar gengibre fresco picadinho em vez de em pó. É uma das melhores sobremesas da vida, brasileiríssima, super refrescante e ainda funciona como um bálsamo digestivo pra aliviar a comilança. 

Se quiser mais uma opção de sobremesa, tem o nosso famosíssimo manjar de coco. Receita aqui

Já não estamos mais na época de amora. Que tal uma calda de pêssego ou graviola?


E não esqueça: dê um descanso para as mulheres da família! Vamos dividir as tarefas de tudo que envolve a reunião familiar, não só da comida. 

Reinventar o restê dontê

9 de dezembro de 2018
Ao contrário do que muita gente pensa, trabalhar de casa continua sendo trabalhar. E como uma usuária desse sistema de emprego moderno, eu vivo em busca de estratégias pra usar o meu tempo de forma sensata. Um dos desafios é a cozinha. Por questões econômicas e de saúde, minhas refeições são todas feitas em casa. Só como em restaurante quando tô na rua e não tenho outra opção. 

Só que preparar café da manhã, almoço, lanche e janta todos os dias em casa dá trabalho e requer um tempo imenso. E ainda não posso me dar ao luxo de passar o dia apenas na cozinha, o que acredito que iria me aborrecer bastante também. Uma hora a gente não aguenta mais ver cebola na frente nem sujar louça. 

Pra economizar tempo, eu e Lucio nos revezamos. Em geral, quem fez o almoço não faz a janta. Mas além do compartilhamento de tarefas, há milhões de outras estratégias que nos ajudam a agilizar as comidas aqui em casa. Uma delas é fazer alguns preparos básicos em grande quantidade pra semana toda, como arroz e feijão. Só que aí tem um problema: a frescura de não aguentar comer a mesma coisa todo santo dia. Inclusive é saudável comer comida fresca e variada, né? 

Nosso lema, então, é reinventar novos pratos com o arroz e o feijão da geladeira. E esse é o post de hoje. Vou resumir, em detalhes, o que faço com os restos desses dois ingredientes aqui em casa. 

Mas antes, não custa lembrar, pare imediatamente de jogar comida fora. Primeiro porque é dinheiro jogado no ralo. Segundo porque é mais lixo pro aterro sanitário. Terceiro que é uma questão ética, né? Uma parte bem considerável da humanidade passa fome. Então o mínimo que você precisa fazer, já que tem comida na mesa, é usufruir ao máximo e agradecer por isso. 

Aliás, saber recriar pratos a base de sobras é uma das habilidades que respeito muito nas pessoas. Tô de saco cheio desses programas de culinária que desperdiçam horrores de ingredientes e não dão dicas pra ajudar a gente a reaproveitar as sobras. Esses programas amam xingar as tias amadoras por não saberem fazer um empratamento refinado, mas não valoriza o potencial delas de aproveitar aquele arroz de ontem como ninguém. 

E é claro, se você tem pavor de comida requentada, mesmo se tiver novos sabores e texturas, dê o seu jeito de comprar menos e cozinhar em menor quantidade, assim você evita o desperdício. 

Vamos lá. 

Sobras de feijão

Croquetes de feijão com molho de pimenta

As sobras de leguminosas cozidas, como os feijões, exigem um tiquinho de cuidado por causa da umidade do caldo. Por mais que a gente escorra beeeeem, será praticamente inevitável usar algum tipo de farinha em novas refeições. Já tive a proeza de fazer hambúrguer de feijão preto e batatas sem farinha. Mas só depois de deixar a massa no congelador por uns 30 minutos. Apenas escorri bem o feijão cozido e já temperado, misturei com um purê de batatas bem amassado e acrescentei cheiro verde (ou outras ervas aromáticas). Um pouco mais de sal, um tipinho de páprica defumada e massa pronta. Aí deixo no congelador pra massa ficar mais fácil de modelar. E pronto. Basta fazer o formato desejado e levar ao forno, ou frigideira bem quente untada com azeite ou fritar por imersão. 

Se optar pelos bolinhos, há um segredo pra deixar as casquinhas mais crocantes: empanar. Nessa versão da foto, empanei os croquetes com farinha de mandioca. Mas poderia ser farinha de trigo, arroz, de rosca ou linhaça. Cada uma vai deixar a receita com uma textura e sabor diferente, mas todas dignas de comer lambendo os beiços. 

Pra essa receita da foto, eu usei 1 xícara de arroz, 1/2 xícara de feijão bem escorrido, bastante manjericão picado, 1 colher de café de molho de mostarda (desses industrializados) e 2 colheres de sopa de farinha de trigo. Misturei tudo com as mãos, modelei a massa em formato de croquete, empanei na farinha de mandioca e levei no forno (com fogo alto) por 20 minutos. Na metade do tempo de forno, virei os croquetes pra ficarem crocantes em cima e embaixo. 

Mas também dá pra fazer coisas mais simples com feijão de ontem. Em Santa Catarina a gente usa muito farinha de mandioca pra fazer pirão. E pirão de feijão é uma das melhores coisas do mundo. Basta ferver o feijão bem temperadinho (com alho, cominho, louro, pimentas) e acrescentar farinha de mandioca na panela até alcançar a textura desejada. Ah! Alguns lugares do Brasil chamam isso de tutu. 

E se quiser algo mais saboroso ainda, também rola de fazer bolinhas com essa massa e fritar. E já temos outra receita: bolinhos de feijão. Confesso que já usei até dendê pra fritar e ficou uma delícia inexplicável. 

Sobras de arroz

Hambúrguer de arroz de ontem com temperinhos

Arroz puro já é o suficiente pra dar textura em bolinhos e hambúrgueres. Se estiver bem sequinho talvez nem exija alguma farinha para dar liga. Então aqui em casa os restos de arroz sempre viram essas duas possibilidades. 

Pro tradicional bolinho de arroz eu só misturo qualquer tipo de arroz (em geral em torno de 1 xícara), cenoura ralada (1 cenoura média), 1 cebola crua bem picadinha, sal e cheiro verde a gosto. Faço bolinhas. Se a massa tiver difícil de dar o ponto, acrescento um tiquinho de farinha de trigo até conseguir fazer bolinhas com a mão. Coloquei farinha demais? Basta acertar a receita com um pouco de água. Pra modelar a massa com facilidade, a dica é molhar as mãos com água. E pronto. Aí é só levar ao forno pré-aquecido até ficar sequinho por fora ou fritar. Mas confesso que a melhor versão dessa receita é feita no formato de hambúrguer, grelhado na frigideira com um pouco de azeite. 

Também dá pra variar a receita e acrescentar outros legumes em vez da cenoura, como berinjela defumada, ou beterraba ralada, batata cozida e amassada, pedacinhos de tomate seco, ou até rechear com algum patê. Uma dica importante é não usar vegetais que soltam muita água, que vai atrapalhar a liga do bolinho, como tomate, chuchu ou abobrinha. 

E outra saída maravilhosa pro arroz de uns dias atrás é usá-lo em recheios. Pode ser pra rechear pimentão, tomate, abobrinha ou folhas de couve, uva ou repolho. 

No caso dos legumes, é só fazer um corte neles crus, temperar com sal, pimenta do reino e azeite e tacar o arroz dentro. No caso das folhas, precisa cozinhá-las antes por 2 minutos pra amolecerem. Depois é só rechear e levar ao forno ou cozinhar na panela com molho de tomate. 

A minha musa inspiradora Sandra Guimarães, do blog Papa Capim, também tem um post sobre como reciclar sobras de comida. Nele, a rainha dá dicas ótimas de como transformar restos em uma espécie de paella. Espia aqui. E este blog que vos fala também tem receita de empadinhas recheadas com sobras da geladeira. Espia aqui

E para outras dicas de como agilizar a vida na cozinha, espia esse post também. 

Cozinha saudável é cozinha sem desperdício.