Patê de feijão com alecrim - R$ 2,49

31 de outubro de 2018
Homus de grão de bico. A gente vem sentindo um aumento no número de pessoas veganas nesse país, como também de intolerantes à lactose ou de gente que reduz laticínios pra emagrecer. Certo? Ou sou só eu? Esse movimento pode ter causado, na minha humilde opinião, uma popularização súbita do homus. É chuva da pastinha a base de grão de bico em feiras, eventos, restaurantes, perfis do Instagram way of life. 

Mas pensa aqui comigo. Será que faz sentido massificar o homus, por mais delicioso e incrível que seja? Faz sentido investir em taaaantas receitas a base de grão de bico se não produzimos essa leguminosa no Brasil? Ok, já tem uns produtores começando a cultivar e vender por aí. Mas ainda não é nada expressivo. 

E sabe uma coisa que tem bastante por aqui, de Roraima ao Rio Grande do Sul, e que também serve pra fazer pastinhas? E que também tem bastante ferro e proteína? Feijão. O Brasil produz, pelo menos, 14 tipos de feijões comercializáveis. 14 tipos. Não é nem um, nem dois. São 14. Por que diabos a gente tá se entupindo de grão de bico então, consagrados?

Além disso, é mais caro. Estamos desperdiçando dinheiro mesmo por causa de modismos. Em Floripa não encontro grão de bico por menos de R$ 14 o quilo. Enquanto os feijões branco, preto, carioca, mulatinho, fradinho, etc, não passam de R$ 8 o quilo. 

É uma questão de sustentabilidade, inclusive. Consumir o que dá no nosso quintal significa menos combustível queimado pra distribuir comida por aí. 

É uma questão de valorizar a nossa identidade alimentar também, de pertencimento, de nos reconhecermos enquanto brasileiros. Mas olha. Não precisa me odiar. Esse não é um texto pra fazer você sentir culpa por comer grão de bico ou proibir o consumo de homus. Eu adoro provar umas comidas diferentes, de outras culturas, inclusive. Mas não podemos transformá-las na base da nossa alimentação, entende? Comida saudável é comida local!

Menos pizza, sushi e homus, por favor! Mais feijão, arroz e farofa! 

Sim, eu virei a cesta de pão do avesso só pra usar esse xadrez maravilhoso na foto. Sou cafona! Aguente.

E como ode de amor à Vossa Majestade Feijão Branco, trago em poucos minutos a receita maravilhosa de hoje. Eu gosto de insistir no feijão branco. Pouca gente conhece, os restaurantes servem pouco, mas ele é barato, produzido aqui, e merecia ocupar mais espaço no nosso estômago.

Pra mim, é o feijão perfeito para hambúrguer, patês e bolinhos porque ele é bem massudo. Quando a gente processa, deixa qualquer massa bem cremosa e suave. Também uso pra fazer omelete, receita aqui, e saladas. Pra temperar, o feijão branco combina muito com sálvia ou alecrim frescos, berinjela, tomate, azeitona. Também gosto de fazer um refogado de legumes com ele, mais gengibre, curry e leite de coco. Um delicioso acordo alimentício do Brasil com a Índia. 

Só um último adendo. Essa receita foi inspirada no patê de feijão branco com alecrim e castanha de caju da minha musa inspiradora, ídola, ícone, rainha, mestra dos magos, Sandra Guimarães, do blog Papa Capim. Amei a ideia da Sandra, mas queria baratear a receita. Então tirei a castanha de caju e incluí a semente de girassol. 

Mas preferi a versão torrada, que fica beeem mais saborosa. Também fiz sem alho, ao contrário da Sandra, porque tenho comido alho em tudo, acho melhor dar uma segurada. As últimas mudanças que fiz foi tirar a pimenta do reino e incluir o alecrim na hora de bater. É isso! Sandra, muito obrigada por me apresentar a maravilha que é a combinação de feijão branco com alecrim. Não esquecerei dessa dupla jamais. E se você não conhece essa mulher, o blog e o trabalho dela, corre pro link aí de cima. 

Ingredientes
⠂1 xícara de feijão branco cozido (lembra de deixar de molho por 24h antes de cozinhar!)
⠂1/2 xícara de semente de girassol sem casca
⠂1 ramo de alecrim fresco
⠂1 limão grande
⠂5 colheres de sopa de azeite
⠂1/3 de xícara de água
⠂1 colher de café de sal 

Como eu fiz
Como meu processador não é dos melhores, cozinhei bem o feijão branco, por 20 minutos na pressão, pra ele ficar bem molinho e homogêneo na pastinha. Numa frigideira, joguei a semente de girassol e esperei ficar moreninha. Essa "torra" a jato vai dar um gostinho esperto pra pastinha. Despejei as sementes de girassol no processador e bati até virar uma farofa. Se o seu processador for bom, não precisa fazer isso antes. Pode bater as sementes junto com os ingredientes todos. Se for podre como o meu ou se for um liquidificador normal, bate a semente de girassol antes ou ela vai ficar pedaçuda demais no patê. Enquanto isso, coloquei o azeite na frigideira e o ramo de alecrim. Com o fogo baixo, dei uma leve fritada nos ramos de alecrim por uns 3 minutos. Depois disso, despejei o feijão, o azeite, o alecrim (sem o caule, só as folhas), o sal, o limão e água no processador e bati. Pronto. 

Observação: Servir frio, depois de pelo menos 1h na geladeira. Dura cerca de uma semana num pote bem fechado. 

Observação 2: Por favor, nada de jogar o alecrim cru no processador, viu? Vai ficar super forte e roubar o sabor de tudo. O tchan dessa receita está justamente no sabor delicado do alecrim. 

Sementes de girassol ainda cruas.

Já torradas. 

Nunca imaginei que viveria pra grelhar alecrim. 

Pronto. Patê delicioso, brasileiro, perfeito pra comer com torradas, pães, palitos de cenoura, nachos, panqueca, arepas. Se acompanhar uma cervejinha então...

Como começar uma rotina saudável

23 de outubro de 2018
O post de hoje é uma resposta a vários pedidos do Instagram, principalmente de uma seguidora recente, a Adriana, que me escreveu: "pelo amor de deus, me ajuda a me organizar pra ter uma alimentação mais saudável". 

Mas vou ser bem direta: não existe uma receita, tá? Nem um manual, muito menos um botão que a gente aperta e vira os "senhores da comida saudável". Não é assim que funciona porque cada vida é uma vida, cada corpo é um corpo, cada rotina é uma rotina, cada região é uma região. Então, esse post não vai ser um mantra pra você ler, seguir exatamente a risca e ser feliz. A chave de tudo tá em você se descobrir mesmo, descobrir o que te faz bem e o que faz sentido no teu dia a dia

Mas é claro que há algumas pistas pra gente discutir aqui. Vou contar um pouco da minha vida e da minha rotina alimentar com base nos meus hábitos, tá? E vamos ver o que você consegue adaptar pro teu dia a dia. 

Antes de começar, quero te lembrar de ler alguns posts que vão ajudar nessa empreitada: 

1. Esse post aqui dá algumas dicas de produtos bem acessíveis pra sempre ter no armário da cozinha e não passar perrengue. 

2. Esse post aqui ensina umas estratégias pra economizar tempo na cozinha. 

4. Esse bonitão aqui tem a lista dos vegetais da estação mês a mês, pra você consultar a hora que quiser e comer sempre comida fresca. 

5. Nesse texto aqui, você encontra dicas de como usar temperos e ervas aromáticas no dia a dia. 

6. Nesse aqui, que eu fiz pro blog da Cristal, o Um ano sem Lixo, você encontra dicas de como gerar o mínimo de resíduos na cozinha. 

7. E se você ainda não me conhece muito bem, espia esse post, onde eu conto de forma resumida como cheguei na berinjela depois de tanto miojo.

Fazer leite de coco caseiro ou outros leites vegetais é um dos meus hábitos preferidos. 


Agora vou dar o contexto da minha vida pra você entender os meus hábitos, tá? Eu moro num bairro longe de tudo, fica a 50km do Centro de Floripa. Consigo comprar vegetais frescos aqui, com poucas opções de orgânicos, e tem umas lojas de produtos naturais também, que são meio caras. Eu trabalho de casa, mas viajo bastante, quase toda semana. Então, minha rotina se resume a passar o dia inteiro em casa ou alguns dias inteiros fora de casa. Quando eu tenho aula da faculdade, durmo na casa minha mãe, que fica mais perto. Em resumo, minha vida é uma grande bagunça. 

Compras
Pra começar, não tem como cozinhar com geladeira e despensa vazias. Ir ao supermercado toda vez que der fome é insustentável, e você vai acabar caindo no conto do miojo ou do delivery se não tiver um estoque mínimo de comida em casa. Aqui, por exemplo, a gente sempre tem espaguete, azeite, óleo, açúcar mascavo, arroz, farinhas, feijão, aveia no armário. Assim que um desses itens acaba, a gente já coloca na lista do mercado e se organiza durante a semana pra comprar. O resto dos itens não perecíveis a gente compra com menos pressa, quando dá. Temperos seguem a mesma regra. Tem os indispensáveis: orégano e pimenta do reino, por exemplo, que uso todos os dias, e os que dá pra ficar uns dias sem, como páprica, cominho a gente compra quando encontra uma brecha. Dos vegetais frescos, pelo menos uma vez por semana eu ou Lucio nos responsabilizamos por abastecer a casa. Sempre que vou na casa da minha mãe, trago toneladas de comida, e não preciso ir na feira ou hortifruti nessa semana. Também ganho muita coisa de uma vizinha, o que tapa um buraco. E, outra dica importante: fique de olho nos lugares que vendem produtos orgânicos mais baratos, itens que vieram da agricultura familiar ou dos assentamentos do MST. E inclua uma passadinha nesses locais sempre que puder. Em resumo, acho importante destinar um dia na semana, e o horário e o local variam de acordo com a vida de cada um, pra comprar vegetais frescos. Sem eles, não dá pra ser minimamente saudável. 

Como planejar o que cozinhar
Nos fins de semana, gosto de fuçar blogs e livros de receitas e selecionar algumas ideias pra fazer durante a semana, se já tiver os ingredientes em casa. Marco a página do livro com um marcador ou mando a receita pra mim mesma por e-mail pra não esquecer. Também faço bastante as coisas aqui do blog, que já decorei as proporções, ou adapto pro que tem em casa. Lucio é rebelde e nunca cozinha com receitas, sempre faz coisas da cabeça dele. Não curtimos a ideia de cardápio semanal aqui em casa. Nunca deu muito certo. A gente nunca tinha vontade de comer o que tava escrito no cardápio. 

Pré-preparo
Tem muita comida que exige uns processos antes, como o feijão. Não dá pra decidir comer feijão na hora que der vontade porque os grãos precisam ficar de molho. Aqui em casa, todo domingo à noite é a nossa hora de deixar leguminosas de molho pra semana. Coloco no demolho com água, pelo menos, 2 tipos. Lentilha é sempre bom de ter em casa porque cozinha mais rápido que feijão e exige menos tempo de demolho. Depois de cozinhar os feijões, a gente deixa um potinho na geladeira pra comer em até 2 dias depois do preparo e separa outros potinhos pra congelar. Nunca ficamos sem pelo menos uma vasilha de feijão no congelador. Também sempre tenho molho de tomate congelado, pão, mandioca (congelo assim que compro, ainda crua) e polenta. Esses itens salvam em qualquer momento de desespero e correria. Domingo aqui em casa também é dia de deixar algumas pastinhas prontas pros cafés da manhã ou lanches da semana: ricota de gergelim, tofu, patê de berinjela, alguma geleia com uma fruta que já tava passando. Pelo menos um deles sempre tá marcando presença na geladeira. Vamos variando conforme a vontade e o que tiver na despensa. Também recomendo muito sempre ter uma granola caseira (receita nos destaques do Instagram) pronta num vidro pra quebrar o galho de cafés da manhã ou lanches mais apressados. Nas manhãs de segunda-feira, quando costumo estar de mal humor, reservo pelo menos 30 minutos pra fazer leite de coco caseiro, que funciona como uma terapia pra mim. Amo abrir o coco seco com um martelo. É libertador!

Cozinhar em casa
Com uma despensa e geladeira abastecidas, não tem drama pra comer em casa. No café da manhã, a gente varia a comida conforme o tempo que temos disponível. Pãezinhos de batata, que exigem pelo menos 25 minutos de forno, ficam pros dias mais tranquilos. Na correria, banana grelhada com granola sempre salva, ou algum pão congelado em fatias, que só exige uma esquentadinha na frigideira. Quando temos pelo menos 30min pra comer com calma, rolam as arepas de milho, batapioca, vitaminas. O almoço geralmente sou eu que faço e consiste em uma leguminosa cozida, arroz ou batatas, e verduras cruas ou refogadas. No lanche da tarde, como alguma fruta, pipoca, torrada com alguma pastinha, uma vitamina, ou um pedaço de bolo, se tiver. Em geral, fazemos bolos nos sábados aqui em casa. De janta, a gente tem o hábito de jogar uns legumes no forno com mil temperos, ou comer alguma massa rápida, sopa, ou restos do almoço. Não tem muito segredo. No inverno, sexta à noite é nosso dia de comer massa e tomar um vinho. 

Marmitas
Não tenho o hábito de levar marmita. Como trabalho de casa, costumo almoçar em casa mesmo. Quando tô viajando, tento comer num buffet a quilo barato. Se você almoça todos os dias fora, pode tirar um dia na semana pra organizar suas marmitas. Dê prioridade pra receitas simples e que podem ser consumidas frias: quibe, massa, torta salgada, hambúrguer, etc. 

Lanches
Quando vou passar o dia todo fora de casa, sempre levo alguma coisa pra comer no meio da manhã ou no meio da tarde porque nunca tem opções veganas e saudáveis na rua ou são caríssimas. Costumo levar amendoim torrado, alguma bolacha caseira, pipoca, banana, maçã, o que tiver dando sopa em casa. Também gosto de levar chá numa garrafinha de vidro porque sou viciada em chás. 

Horta
Uma coisa importante. Eu cultivo alguns temperinhos na minha varanda e tenho uma horta num canteiro do meu prédio com manjericão, hortelã, cidreira, tomate cereja, alecrim, sálvia, boldo, espinafre. Isso faz com que eu sempre tenha essa carta na manga na cozinha. Nunca preciso lembrar de comprar ervas aromáticas. E todos sabemos que são elas que deixam os vegetais realmente suculentos e deliciosos. Por isso, recomendo muito que você comece a cultivar essas belezinhas se tiver um espaço em casa. Além do mais, é de graça, né? Tem dicas de como começar uma horta em casa nesse post

Então é isso. Peço perdão a quem pensou que fosse encontrar um manual de autoajuda aqui, achou que sairia com todos os problemas resolvidos. Mas não tem como ser saudável se você não for você mesmo e respeitar seus hábitos, suas vontades. Essa é a vida. 

Não custa reforçar também a importância de compartilhar as responsabilidades das compras, pré-preparos, limpeza, cozinhar, com todo mundo da sua casa. Se você mora sozinho, tenta revezar as marmitas e lanches com os colegas do trabalho. Cada dia um leva pode levar uma porção, etc. 

Patê humilde de berinjela - R$ 1,44

14 de outubro de 2018
Como quem não quer nada, citei esse modesto patê de berinjela num post do Instagram há uns dias atrás. Era tão fácil e simples que achei que ninguém fosse se interessar. Mas pra minha surpresa recebi uma enxurrada de mensagens de fãs incondicionais do patê, que ficaram hipnotizados com a possibilidade de ter algo pra passar no pão por menos de R$ 2

Essa receita é perfeita pra comer com pão, torradas, nachos, batatas assadas em rodelas...

Por isso, cá estou. Pra oficializar e dar vida à essa receita tão honesta. Não sei você, mas eu acho revolucionário a gente deixar de comprar essas pastinhas industrializadas.

Cozinhar, por si só, já é um ato revolucionário, ainda mais se for com ingredientes que NÃO exploram a mão de obra de algum trabalhador ou a vida dos animais. Se você que me lê for homem, faça pras mulheres da sua vida também. Liberte a sua mãe, filha, esposa, tia, avó, da obrigação de alimentar a família. 

Essa receita me lembrou outra coisa. Pessoas maravilhosas me convidaram pra participar da Vegfest, em São Paulo, com uma palestra sobre veganismo acessível. Trata-se da maior feira vegana da América Latina e terminou hoje, domingo. Mas, mesmo sabendo que dividiria espaço com tanta gente querida, politizada e crítica, eu resolvi recusar o convite. 

Não teria como bancar os custos da viagem pra SP e não acho coerente falar de comida vegana até R$ 10 para pessoas que podem pagar pelo ingresso caríssimo que dá direito à entrada no evento. Ingresso que eu não poderia pagar do meu próprio bolso. Além disso, sei do meu lugar de privilégio. Falo de comida acessível, mas continuo sendo mais um rosto branco e classe média. E não acho que mais um rosto branco e classe média deva compor a equipe de palestrantes. Neste ano, gente não branca e periférica subiu no palco do evento! Amém! Mas ainda é pouco.

Precisamos lutar pra que o assunto "comida saudável" não seja mais associado a um grupo restrito de pessoas. Precisamos lutar para o próprio movimento vegano, do qual faço parte, perca essa cara elitista e segregadora. Eu mesma demorei muito a me assumir vegana por vergonha de fazer parte de um movimento representado por pessoas que não me representam. Até que conheci a musa Sandra Guimarães, do blog Papa Capim, além de uma multidão de gente maravilhosa que me representa muito bem. 

Aliás, tem duas divas que me representam muito, a Babi e Thais. Elas fazem um trabalho incrível, por conta própria. O Outras Mamas é o primeiro podcast vegano e feminista do Brasil e eu tive a honra de gravar um episódio com as meninas. Se ainda não ouviu, clica aqui

Ainda volto pra fazer um post assumindo politicamente o meu veganismo e retomando esse assunto de comida acessível, mas agora vamos pra receita. 

Eu gastei R$ 1,44 no patê porque a berinjela entrou na época e aqui tá custando R$ 2,49 o quilo. Se você é um berinjelofóbico, pode fazer a mesma coisa com abobrinha, com a diferença de que vai precisar temperar mais. Afinal, berinjela tem muito mais personalidade que abobrinha. Sozinha, ela se basta. Já a prima da abóbora, leva desvantagem em sabor e precisa de coadjuvantes de peso, como azeitona, tomate seco, ervas aromáticas. 

Uma boa substituição pra essa receita seria a mistura de abobrinha, cebola roxa, hortelã e azeitonas pretas. Fica a fica. 

Outro ponto maravilhoso dessa receita é que não exige nenhum equipamento. Então ela alcança um nível de acessibilidade ainda maior!!!

Ingredientes
⠂2 berinjelas grandes com casca (cerca de 500g)
⠂4 dentes de alho sem casca
⠂1 limão
⠂pimenta do reino a gosto
⠂sal a gosto
⠂azeite a gosto

As folhas de manjericão da foto são apenas uma firula. Nessa versão, temperei da forma mais simples possível. 

Como eu fiz
Lavei as berinjelas, cortei fora o pedacinho da bunda e a cabeça dela. Fatiei o que sobrou em rodelas grossas. Numa panela de cozinhar legumes no vapor (pode ser cuscuzeira), coloquei as fatias de berinjela e o alho descascado. Deixei cozinhando com tampa até desmanchar. Quando vi que já tava tudo bem molinho, transferi pra um prato fundo e amassei tudo com um garfo até ficar numa consistência de patê. Acrescentei sal, o suco do limão, um pouco de pimenta e um fio de azeite. Misturei mais um pouco e pronto. Deixei esfriar e guardei na geladeira num pote com tampa. 

Sugestões: pode acrescentar tahine (pasta de gergelim), folhas de manjericão fresco picadas, cebola, azeitona, ou o que quiser. Eu prefiro essa versão bem simples, mas já fiz mil vezes com ervas frescas. Dona Neide Aparecida, minha mãe, também faz com o alho refogado em vez de cozido no vapor. Também fica incrível com a berinjela defumada. Em vez de cozinhar no vapor, espeta um garfo na berinjela e fica segurando na boca do fogão e girando, até todos os pedaços estarem cozidos por dentro. Nessa versão, a casca precisa ser descartada. 

Duração: não faço a menor ideia porque aqui em casa nunca durou mais do que três dias. A gente come muito rápido. 

Dadinhos de tofu - R$ 8,13

9 de outubro de 2018
Eu gosto muito de comida com história, mas a receita de hoje foi apenas uma insanidade do acaso. Não passa de uma grande maluquice da minha parte. Pode soar arrogante, mas nunca vi nada parecido por aí. 

O contexto é esse. Eu não sabia que existia tofu antes de virar vegetariana, há seis anos. O único representante da soja na minha vida era o molho shoyu. Mas aí comecei a conhecer alguns restaurantes que vendem comida sem bicho, espiar blogs, livros e descobri esse troço estranho, que não tem gosto de nada e cuja textura lembra uma esponja. 

Comecei a comprar pra fazer em casa porque descobri que não ter gosto de nada é uma vantagem: dá pra colocar o gosto que quiser. Pode parecer loucura, mas dá pra fazer molho pra lasanha ou cobertura de bolo com ele. Pois bem. Deixei o queijo de soja entrar na minha vida, com certa desconfiança, confesso, e ele acabou me conquistando. 

Costumo fazer muitas pastinhas e patês a base de tofu. Às vezes rola uma dupla com a azeitona, às vezes com coentro ou cebola. Pras fases mais abastadas, também faço com tomate seco, o melhor de todos. 

Já tentei fazer mousse a base de tofu, com morango ou chocolate, mas acho que fica bem desagradável. Nunca acertei. Na verdade, preciso confessar minha tendência a preferir tofu em receitas salgadas, principalmente acompanhado de cebolinha e shoyu. 

Não adianta. Uma cultura alimentar não se consolida à toa. Ela sempre faz algum sentido. E se os japoneses costumam comer com cebolinha e shoyu, é porque essa combinação é inegavelmente irresistível. Foi pensada por gerações. 

Lúcio tem a sua forma de estimação de preparar tofu. E já sendo bem puxa saco, fica incrível. Ele corta o queijo de soja em fatias retangulares, tempera com shoyu e limão, empana com gergelim e põe no forno. Se você nunca provou tofu ou não tem experiências felizes com ele, é porque nunca provou essa receita. Sério! 

E a receita de hoje é mais uma estratégia pra te convencer a dar uma chance pra essa belezinha. A galera da maromba, então, é paixão certa! Porque o tofu é basicamente proteína, com a vantagem de ter pouquíssima gordura. 

A história dos dadinhos de tofu é curta. Começou nesse fim de semana, na verdade. Eu costumo fazer tofu em casa mesmo, porque fica anos luz mais barato. No supermercado não dá pra comprar. É um assalto. Prefira sempre as feiras de rua ou as lojas de produtos japoneses. Mas passei na casa da minha mãe e ela tinha comprado uma peça de 1 quilo pra mim. Neide Aparecida encomenda tofu de uma moça japonesa que vende numa loja perto da casa dela. Custa R$ 15 o quilo. Por mais que meus pais e minha irmã não sejam vegetarianos, eles costumam gostar muito de uma pastinha de tofu que Dona Neide sempre faz. 

Já na minha casa, comecei a fazer planos pro blocão de queijo de soja. Já tô enjoada de patê e não queria nada doce. Pensei em fazer a receita do Lucio, mas bateu a loucura de improvar algo novo. Era sábado, um dia antes das eleições, e eu não conseguia fazer nada além de ficar 24h falando com deus e o mundo no whatsaap, querendo cortar os pulsos. Nessas horas, cozinhar ajuda a desconectar e sair dessa explosão de ansiedade.

E foi aí que resolvi fritar tofu no azeite de dendê. E saí me achando a rainha do balacobaco porque esse tipo de coisa só é possível no Brasil. É só aqui que China, país que criou o tofu, e África, continente de onde vem o dendezeiro, poderiam se encontrar. Pra melhorar esse acordo internacional, resolvi acionar a diplomática farinha de mandioca e lembrar que estamos em terras tupiniquins. 

A porção deveria ter o dobro do tamanho, mas eu não me aguentei e fui comendo enquanto fritava!

E é isso. Apenas cortei o tofu em cubos, deixei marinando com temperos, empanei na farinha de mandioca e fritei no dendê. A porção da foto tá minúscula, mas é uma ilusão. Eu comi mais da metade do que tá aí durante o preparo. É sério. Ficou uma delícia tão grande, mas tão grande que eu comeria todos os dias até enjoar. 

Pensei em chamar a receita de acarajé chinês ou algo do tipo, mas achei que seria muita forçação de barra, né? hahaha 

A receita ficou mais cara porque foi feita com tofu comprado. Se você fizer em casa, é claro que vai sair beeeem mais em conta. O passo a passo de como fazer tofuaqui

E uma dica: pra deixar ele beeeem firme a ponto de conseguir cortar em cubos, como fiz nessa receita, precisa fazer uma espécie de prensa. Assim que terminar o preparo do tofu caseiro, coloca num pote e, por cima, algum objeto ou outro pote com peso (pode ser água). Esse objeto precisa pegar toda a superfície do tofu, pra ele ficar bem uniforme. Deixa ele ali em cima de um dia pro outro. E depois tira e corre pro abraço. 

Vamos à receita.

Ingredientes 
⠂500g de tofu firme
⠂2 dentes de alho ralados
⠂1 limão
⠂1 colher de chá de cominho em pó
⠂1 pimenta dedo de moça ou outra de sua preferência bem picadinha
⠂1/2 xícara de farinha de mandioca
⠂8 colheres de sopa de azeite de dendê
⠂sal a gosto ou molho shoyu

Observação: aproveita pra usar teus temperos preferidos aqui. Pode brincar à vontade. Eu colocaria coentro fresco picado, mas não tinha. Também pensei em marinar o tofu com um pouquinho de leite de coco. Imagina o sonho. 


Você nunca mais vai dizer que odeia tofu!

Como eu fiz
Cortei o tofuzão em cubinhos. Não muito pequenos pra não desmanchar. Num pote raso, coloquei os pedaços de tofu, os dois dentes de alho ralados, o limão espremido, o cominho, a pimenta e sal. Espalhei esses temperos nos pedacinhos de tofu com as mãos. Fechei o pote e coloquei na geladeira por 1 hora. Quanto mais tempo ficar, mais sabor vai pegar. Se puder, deixe da noite pro dia. Depois, espalhei a farinha de mandioca num prato fundo e joguei uma pitada de sal. Mergulhei cada cubinho na farinha de mandioca enquanto esquentava o azeite de dendê numa frigideira funda. Não fritei por imersão, viu? Porque dendê é caro aqui em Floripa. Basicamente só grelhei os cubinhos com uma dose generosa de óleo. Fica a teu critério, viu? Fui colocando os cubos pra fritar e virando pra dourar em todos os lados. É coisa bem rápida. Em 5 minutos já tava pronto e crocante. 

Aí é só servir e ser feliz. Comi com arroz de coco (receita no Instagram), feijão e uns matos.