2 receitas pras eleições

5 de setembro de 2018
É época de eleições. Não sei se é coisa da minha cabeça, mas me parece que a proximidade do encontro com a urna eletrônica nos torna ainda mais descrentes na política. 

Muita gente acha que é só mais um ano de eleição. Cidades sujas, coronéis impondo votos, os velhos barões comprando o eleitorado com pão ou promessas, além daquela propaganda chatíssima do Tribunal Superior Eleitoral fazendo de conta que todo mundo tá animado com a "festa da democracia". 

E sabe o que mais me incomoda nesse período? O quanto a galera xinga o próprio país, os próprios vizinhos. Pelo discurso desse povo parece que só a gente tem políticos corruptos no mundo, só a gente tem uma democracia frágil, direitos sociais negados, impostos altos demais. Pelo amor da Nossa Senhora da Brasilidade, teremos esse insuportável complexo de vira lata até quando?

Mini hambúrgueres de feijão fradinho com macaxeira e vinagrete de caju ou "a brasilidade em forma de comida".

Pra mim, não adianta só fazer reforma política e votar em gente que realmente nos representa. Acho que a gente devia voltar atrás, sabe? E começar a fazer uma terapia de aceitação coletiva. A gente precisa, mais do nunca, entender quem somos e aceitar essa identidade. 

Não podemos negar e desprezar mais as nossas raízes indígenas, a influência da cultura negra, a importância das pessoas do campo. O interior não vale menos do que a cidade grande. A periferia não vale menos que o asfalto. O sudeste não vale mais do que um país inteiro. 

E falando como uma integrante do lado de baixo do Brasil, onde tem muita gente que se acha superior aos outros, fica a dica: precisamos parar com a palhaçada de diminuir os nordestinos. 

Recebi uma amiga potiguar em casa há umas semanas atrás. No primeiro uber que a amiga entrou, o motorista já foi logo perguntando se era nordestina e se tinha vindo tentar a vida em Santa Catarina. Como se nordestinos não fossem autorizados a fazer turismo pelo Brasil. 

E agora tô aqui, escrevendo esse texto sentada numa cadeira de balanço de uma casa no interior do Rio Grande do Norte. Lugar que sempre sonhei em conhecer. Vim visitar uns amigos que moram em Santa Cruz e aproveitar pra conversar com a galera daqui sobre política. Na verdade mesmo, vim também pelo caju, feijão verde, mangaba, cuscuz e goma de tapioca fresca. 

A culinária do Nordeste, com as peculiaridades de cada região, reúne as qualidades que mais aprecio na alimentação: é simples, autêntica, sem raio gourmetizador. Aliás, o tempero é tão bom, em geral, que não precisa de técnica rebuscada, ingredientes caros. Isso que é comida de verdade pra mim.

Já conhecia o feijão verde, dá pra encontrar em Floripa, mas aqui tem algum truque que preciso aprender. Eu coloco o feijão verde na boca e ele desmancha. É tipo uma chuva de prazer!!! E melhor: parece que tem algo amanteigado de recheio. Fui perguntar pras pessoas que fazem e elas só cozinham com água, sal e coentro. Costumam servir sem caldo. 

Fui pra Baía Formosa e Natal, pensando que seria muito difícil comer algum petisco na beira da praia que não fosse fruto do mar. Mas lembrei que estou na terra da macaxeira e aqui também se saúda muito essa belezura! Me senti em casa. E tô comendo macaxeira frita todos os dias, às vezes acompanhada de um copo de cerveja, às vezes de água de coco. Não tô 100% de férias aqui, porque sigo trabalhando a distância, mas viajar merece esses luxos, né?

Também incluí outros ingredientes na minha orgia gastronômica no Nordeste. Tô comendo muito cuscuz de milho (que já tentei fazer em casa mil vezes e não fica igual ao que como aqui), tapioca, tomando suco de mangaba e, obviamente, me entupindo de caju fresco! Ainda não tá na época, então o fruto do cajueiro continua um pouco caro e não tá super doce. Mas pra catarinense aqui, já é o p-a-r-a-í-so. Olha, não sei se tem outra fruta no mundo que ganha do caju em suculência. Sério. E também tem a castanha, que tô comendo todos os dias, feito uma loba.

O caju é um ótimo substituto pro peixe em receitas, principalmente nas que levam caldo, como a moqueca (receita aqui). Também dá pra fazer ceviche com ele, bife (só cortar e grelhar), pode empanar ou colocar no recheio de pastel, tortas, empadas. 

Já tava acabando a nosso estoque de caju aqui na casa dos meus amigos, onde tô hospedada junto com Lucio, mas sobraram alguns. Tava na minha vez de fazer almoço. E ontem fomos conhecer um sítio que produz alimentos sem agrotóxicos e voltamos pra casa com muita macaxeira, salsinha, tomate cereja, hortelã e tal. Resolvi fazer uma comida leve, que usasse o que a gente tinha na geladeira e que, obviamente, lembrasse que tô no Nordeste. 

Então dessa mistura surgiu um vinagrete de caju e uns mini hamburguinhos facílimos, de feijão fradinho com macaxeira. Queria ter feito com feijão verde, mas a despensa dos amigos aqui tinha toneladas de feijão fradinho esperando pra ir pra panela. Então vamos lá:

Mini hamburguinhos
1 xícara de feijão fradinho cozido (ou outro feijão)
1 xícara de macaxeira cozida
1 cebola 
salsinha ou coentro a gosto (coloquei quase 1 xícara)
1 colher de café de cominho em pó
sal a gosto

Observação: lembra de deixar os feijões de molho antes de cozinhar, viu? Pelo menos por 12h. 

Como eu fiz
Só misturei tudo no processador até formar um creme homogêneo.  Se você não tiver processador, basta bater todos os ingredientes no liquidificador, com exceção da macaxeira. Mistura ela separadamente, depois de amassar bem com um garfo. Acertei o sal. Coloquei a massa pra gelar um pouco na geladeira, cerca de 15 minutos, pra facilitar o molde com as mãos. Pré-aqueci o forno, moldei a massa em formato de minúsculos hambúrgueres e coloquei numa assadeira untada. Deixei no forno por 25 minutos. Se quiser que fique crocante dos dois lados, é só virar cada um na metade do tempo do forno. Eu não tive paciência. Pode grelhar na frigideira ou fritar também. 

A massa fica assim!
Observação: Essa é uma ótima opção pra levar na marmita porque continua delicioso mesmo frio. Pode congelar também, antes de assar, por até 3 meses. 

Vinagrete de caju ou manga
1 caju grande picadinho em cubos ou 1/2 manga
1/2 xícara de tomate cereja ou qualquer tomate picados em cubos pequenos
1 cebola roxa pequena
hortelã ou manjericão a gosto (usei 1/4 de xícara)
1 colher de sopa de pimenta biquinho picadinha
sal a gosto
azeite a gosto

Sério! Você precisa comer isso! A ideia é comer junto com o hambúrguer, ou seja, os dois na mesma garfada pra rolar a explosão de sabores.
Como eu fiz
Juntei todos os ingredientes já picadinhos numa cumbuca e deixei na geladeira pegando gosto por 30 minutos antes de servir. Dura uma semana na geladeira, mas duvido que vá sobrar. 

Por tudo isso e mais um pouco,

Obrigada, Nordeste. 

4 comentários:

  1. nossa Juli que relato incrível ❤️ concordo plenamente com a questão da gourmetização, não é preciso gastar muito pra se alimentar bem. parabéns pelo site

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  2. Tb estou com o mesmo sentimento da nossa síndrome de vira lata! Temos que nos lembrar das coisas boas que temos no Brasil e que são mtas!! Adoro suas receitas e suas postagens...parabéns pelo blog

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    1. Obrigada, Luana! Fico feliz que mais gente compartilhe desse pensamento, de valorizar o que é nosso. Um beijo.

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