Broa de milho e os transgênicos

17 de setembro de 2018
Demorou, mas aqui está. Podia ter publicado essa receita há décadas, mas queria aproveitar o milho pra falar de transgênicos. Achei que fosse ser rápido, mas comecei a estudar, estudar mais, depois inventei de ler artigos, ir atrás da lista dos deputados que votaram a favor da PL pelo fim da rotulagem dos transgênicos, e esse post virou uma novela.

Entrei em crise. Fiz um post imenso, cheio de gráficos e links de pesquisas, de reportagens, que levou dias. Aí repensei. Acho que estamos todos cansados de tanta informação nesse período eleitoral e um post mais enxuto, com uma linguagem menos pesada, pode chegar a mais gente! Foi isso que fiz então.

PRA COMEÇO DE CONVERSA

O que são os transgênicos?
São seres vivos que tiveram seu material genético modificado artificialmente, ou seja, pelas mãos de um homem, da tecnologia. No Brasil, os maiores representantes dos transgênicos são a soja, o milho, o algodão e a canola. Isso quer dizer, em linhas gerais, que você está comendo uma pamonha bem diferente da que a sua avó comia. Ela não foi feita a base de uma espiga de milho que nasceu de uma semente natural.

Quando começou esse negócio?
O primeiro alimento que passou por esse processo e chegou ao supermercado foi o tomate. Isso aconteceu em 1994, nos Estados Unidos. A justificativa da empresa criadora do tomate modificado foi que ele demoraria mais pra estragar.

Qual é a situação no Brasil?
Segundo o relatório mais recente do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações Agrobiotécnicas, de 2017, a nossa situação atual é essa: 96, 5% da soja; 88,4% do milho e 78,3% do algodão produzidos no Brasil já são transgênicos. Quem aprova o uso dessas sementes por aqui é uma comissão do Ministério da Ciência e Tecnologia, chamada CTNbio. Até julho de 2017, esse grupo já autorizou 67 plantas transgênicas para cultivo no país. 

Por que a gente deve se preocupar com esse assunto?
Primeiro, porque ele envolve 3 temas importantíssimos pro planeta.  1) economia: investir em transgênicos significa deixar a alimentação de países do mundo inteiro reféns de 6 empresas donas das sementes, que lucram absurdamente para fornecê-las. 2) fome: os defensores dos transgênicos argumentam que eles são a solução pra fome mundial. 3) saúde pública: ainda não sabemos o impacto que esses alimentos geneticamente modificados podem causar pra saúde porque é um assunto muito novo, ainda não deu tempo de termos evidências científicas.

O que já se sabe sobre esse assunto no Brasil? 
A Embrapa e os reis da soja defendem que as sementes transgênicas são a salvação das lavouras. Espie o posicionamento da Embrapa aqui. Do outro lado, há ambientalistas e pesquisadores que argumentam que os transgênicos tendem a causar um grande desequilíbrio no meio ambiente, além de não ser tão benéfico para o produtor rural. Como mostra essa pesquisa da Unicamp. A toxicologista da Fiocruz Karen Friedrich, nesta reportagem da BBC Brasil, defende outro ponto importante: que os transgênicos não diminuíram o uso de agrotóxicos, como muita gente diz por aí. Pelo contrário. Em geral, as sementes transgênicas são vendidas em combo, em parceria com os defensivos.


De onde vêm as sementes transgênicas?
Esse é um dos principais pontos levantados pelos pesquisadores que criticam a transgenia. São poucas empresas no mundo que fabricam essas sementes. E olhe que interessante: são as mesmas empresas que produzem os agrotóxicos. São elas: as alemãs Bayer e Basf, as americanas Dow Chemical, DuPont e Monsanto, e a suíça Syngenta. Juntas, essas 6 empresas são donas de 66% do mercado de sementes transgênicas e 76% do mercado de agrotóxicos. Então funciona assim: quando a gente compra essas sementes pras lavouras brasileiras, a gente tá patrocinando esse monopólio. 


Tem países que proíbem o plantio de sementes transgênicas?
Sim. França, Alemanha estão entre os 19 países da União Europeia que baniram os transgênicos da agricultura. 


O que é o Projeto de Lei 4148/2008, também chamado de PL da rotulagem dos transgênicos?

Qualquer produto industrializado que tenha algum alimento transgênico na composição, como o milho num pacote de salgadinho, precisa ter aquele selo amarelo, com um triângulo e o "t" dentro na embalagem. Isso vale desde 2003. É uma forma de dizer ao consumidor o que ele tá comprando. Mas, o Projeto de Lei 4148/2008 quer acabar com a obrigação desse selo. O projeto já foi aprovado na Câmara dos Deputados e agora aguarda votação no Senado. Quer saber detalhes desse projeto, espia aqui.

Como cada deputado votou?
Quem votou SIM, votou pra gente perder o direito de saber o que estamos comprando! Pra saber o voto de cada deputado, espia esse link. A lista está organizada por partidos políticos. Ah! Inclusive tem candidatos à presidência nessa lista.

PRA SABER MAIS

Esse compilado pode parecer superficial, mas a ideia desse espaço não é ser uma revista científica, né? Eu sou jornalista, não posso fazer muito mais do que reunir informações a partir de fontes minimamente confiáveis e resumi-las. Se você já costuma ler sobre esse assunto, recomendo os seguintes materiais pra aprofundar mais os teus conhecimentos.

- Essa é a lei brasileira que regulamenta o uso de sementes transgênicas.
- O documentário "O mundo segundo a Monsanto" é obrigatório pra todo mundo que se interessa em saber o que come.
- Nesse relatório, em inglês, a Organização Mundial de Saúde responde a dúvidas sobre os transgênicos.


RECEITA - Broas de milho com resíduo de leite de coco - R$ 4,58


Mais uma vez fica a comprovação de que preciso de um curso de fotografia de comida.

Como eu, Juliana, não confio em alimentos transgênicos, tento comprar produtos naturais sempre que posso. No caso da receita de hoje, usei uma farinha de milho orgânica e não transgênica que ganhei de uma amiga. Ela trouxe diretamente de um assentamento do MST no Rio Grande do Sul.

O que amo nessa receita é que ela leva o resíduo de leite de coco, que sempre tenho toneladas em casa, já que faço leite desse fruto toda semana. Rendeu 30 mini broas e elas podem ser congeladas ainda cruas por até 3 meses.

Ingredientes
⠂1 xícara e 1/2 de farinha de trigo
⠂1 xícara e 1/2 de fubá
⠂1 xícara de açúcar demerara
⠂3/4 de xícara de resíduo de leite de coco bem sequinho (escorra bem!)
⠂1/2 xícara óleo de girassol
⠂1 xícara de leite vegetal ou água
⠂1 pitada de sal
⠂1 colher de fermento pra bolo (ou 1 colher de sopa de vinagre de maçã + 1 colher de café de bicarbonato de sódio)
⠂canela a gosto (opcional)

Observação: já fiz a mesma receita com farinha de aveia em vez de farinha de trigo. O sabor fica o mesmo, mas a textura fica meio pegajosa. Parece uma bolachinha, não broa. A substituição fica a teu critério.

Como eu fiz

Pré-aqueci o forno por 15 minutos. Misturei os ingredientes secos primeiro, depois os líquidos. Por último, o fermento. Fiz bolinhas pequenas e gordinhas com as mãos e coloquei numa assadeira untada. Dei uma leve achatada em cada uma com a colher. Salpiquei canela por cima e levei pro forno por 35 minutos a 200 graus.

Observação: quando tirar do forno, vai parecer que as broas ainda tão meio molengas. Mas pode confiar que elas vão endurecer ao esfriar. Não deixa muito tempo no forno porque vão ficar duras feito pedras! Eu já fiz isso várias vezes, inclusive.

Ah! Como muita coisa se perde nas redes sociais eu comecei a mandar as novidades do Comida Saudável pra Todos por e-mail. Vêm alguns cursos em SP por aí e mais algumas novidades pro Brasil inteiro. Não quer perder? Preencha esse formulário com os teus dados. 

2 comentários:

  1. Oi tudo bem? Eu adoro seu conteúdo sobre as comidas saudáveis e tal. Sou bióloga recém formada, e minha graduação foi com bastante base gsnetige e continuarei com mestrado em genética.

    Estudei já muito os processos biotecnologicos por trás dos OGMs. E sempre fiquei me perguntando porquê todos tem esse medo do transgênico.

    O seu posto me ajudou a ver um pouco dos argumentos. E algumas coisas que queria comentar.

    Primeiro, o artigo da pesquisa da Unicamp é um artigo de opinião, e com pouco referencial teórico, o que há normalmente em artigos publicados. Uma coisa que me preocupo é a falta de informação sobre realmente o transgênico.
    Desde sempre existe o melhoramento genético, o pessoal cruzavam plantas diferente e as iam melhorando. Sem isso MUITA das plantas de atualmente seriam diferentes, como a melancia, a banana, tomate, mandioca, batata...

    Então o homem está desde sempre modificando as plantas. Agora a nível molecular. E o que coloca são sequências de DNA que comemos o Tempo todo, toda alimento que é feito de células, tem DNA e estamos comendo.

    As plantas produzem milhões de metabólitos secundários que até hoje nao conhecemos, mas estamos comendo.

    Concordo com vc que a parte econômica, as empresas monopolizam e tal...
    Quando as plantas sao herbicidas, realmente diminuem a utilização de agrotóxicos.

    Recentemente fui ao congresso internacional de genética que aconteceu aqui no Brasil. Há muitos estudos utilizando nobas ferramentas para realmente melhorar a produtividade, mas há uma enooorme dificuldade para utilizar essas plantas.

    Ah e uma coisa, a CTNBio é super rigorosa, e os cultivares que passam são super testados... E as outras culturas que não tem nenhuma fiscalização, de quanto o produtor esta usando de agrotóxicos e tal.

    O transgênico em si não é o vilão, talvez o dinheiro e algumas práticas associadas...

    Desculpa o texto, mas acho legal discutir algumas coisas.

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  2. Oi, Luana! Finalmente alguém se posicionando por aqui! Obrigada pelo seu comentário de fôlego! :) Entendo quando você fala que o transgênico em si não é o vilão, mas a forma como é colocado em prática. Mas, impossível dissociar uma coisa da outra, né?

    É difícil discutir os transgênicos porque trata-se de algo muito recente, né? Não temos evidência científica suficientes pra debater o impacto que eles causam. Sobre a diminuição do uso dos agrotóxicos, essa é uma das maiores polêmicas. Principalmente porque as gigantes que vendem as sementes geneticamente modificadas são as mesmas que vendem os defensivos.

    Faria sentido pra elas criar produtos que precisam de menos veneno? Claro que não. Porque elas perderiam dinheiro com isso. Tanto que todos os agricultores que conheço, entre os que compram agrotóxicos, afirmam que sempre compram o combo "sementes + defensivos".

    Falando por mim, Juliana, eu prefiro consumir tudo da forma mais orgânica possível, respeitando o meio ambiente, os animais, o círculo natural da vida. E acho que precisamos lutar por esse direito, de manter as nossas sementes crioulas e poder nos alimentar com elas, sem depender de uma indústria.

    É sobre soberania alimentar, entende? Sobre direito à terra. Além da questão da soberania econômica, como você concordou!

    Um beijo!!!

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