Minha família não come vegetais!

25 de julho de 2018
Socorro. Recebo muitas mensagens de gente pedindo socorro porque alguém da família vive uma vida a base de lasanha congelada e não suporta nenhum tipo de vegetal. Também recebo muitos depoimentos de pessoas desesperadas porque os pais e irmãos consomem carne demais e não aceitam qualquer prato a base de legumes.

Achei esse tema tão pertinente e complexo que busquei a orientação da nossa nutricionista parceira do blog, a Débora Bottega. E a Débora destacou algo super importante: há casos que precisam ser acompanhados por um psicólogo ou, ainda, uma equipe interdisciplinar da área da saúde. Se a pessoa for resistente a qualquer tipo de mudança, não só na alimentação, não basta ir atrás de um nutricionista.

Mas antes de chegar nas questões que pedi pra Débora responder, gostaria de fazer um relato meu, já que sou um grande exemplo de transformação alimentar.

Minha casa sempre foi cheia de frutas e legumes, mas isso não me impediu de ter pavor de tudo o que fosse verde. Passei a infância comendo pouquíssimas frutas. Só encarava a sopa de legumes se fosse lisinha, com tudo batido no liquidificador. Tive até uma fase de não comer feijão. E me atracava em miojo, hambúrguer, nescau, balas, bolachas recheadas, nuggets.

Só fui descobrir que sabor tinha uma rúcula já adulta, na universidade. Senti vergonha por meus amigos comerem salada e eu não. Comecei a ver as atrizes famosas comendo legumes nos filmes e novelas e achei chique, queria aquilo pra mim também. E aí fui mudando. Saí de casa e passei a ir pra cozinha com mais frequência como forma de economizar dinheiro mesmo. Também ficava preocupada, pensando que não podia ficar doente estando a quase mil quilômetros de distância dos meus pais. Então deveria comer coisas saudáveis. Aí foi uma mistura de começar a ler, estudar, namorar um vegetariano, ter um primo viciado em livros sobre saúde, descobrir que minha mãe fazia uma berinjela maravilhosa, que eu podia matar as saudades de casa comendo tangerina. E cá estou eu, dormindo abraçada até com o jiló.

Então, se eu puder dar uma dica é: o maior gatilho pra mudança alimentar é a comida saborosa e bons exemplos por perto. Exemplos de pessoas que você admira. Ninguém vai mudar o paladar comendo aquele brócolis mole e sem sabor do restaurante a quilo.

Chame a família pra ir fazer as compras, preparar a comida, faça apresentações coloridas, tente versões mais saudáveis de pratos que a pessoa já goste. Meu primo Bernardo, de 12 anos, por exemplo, não morreu quando veio passar férias aqui na minha casa. Ele tem pavor de tudo o que é legume, mas comeu 4 hambúrgueres de berinjela de uma vez, amou o espaguete com molho branco de semente de girassol, me ajudou a fazer um risoto de beterraba e também devorou o prato. Não precisei de nenhum feitiço. Perguntei o que ele mais gostava de comer e adaptei. 

Risoto de beterraba do meu primo Bernardo, que costuma ter pavor de legumes. 


Outra dica é fazer versões caseiras de produtos industrializados, que não chegam a ser saudáveis, mas pelo menos não têm conservantes ou açúcar demais. Aqui no blog tem receita de achocolatado, ovomaltine, leite condensado e catchup caseiros. 

Também recomendo outras receitas daqui que podem ser mais facilmente aceitas por quem não está acostumado com vegetais: empadinhas, hambúrguer de berinjela, bolinhos de banana, tortinhas de maçã, pães de batata, arepa de milho e batapioca

Então vamos lá! Segue abaixo as dicas e orientações primorosas da nutricionista Débora Bottega sobre o assunto:

De onde vem essa dificuldade em ter uma alimentação mais saudável e comer vegetais que muitas pessoas têm?
Hábitos alimentares são complexos e formados ao longo de anos. Mudá-los pode se revelar extremamente simples para algumas pessoas, como se uma luzinha se acendesse. Para outras pessoas esse momento não chega e pode dar a sensação que é falta de força de vontade, muito mimimi. Porém, não cabe a mim, a qualquer profissional da saúde ou a você julgar, cabe dar apoio para quem quiser e da forma que a pessoa puder. 

 A formação dos hábitos alimentares começa na barriga da mãe. O sabor dos alimentos que a gestante consome e também a variedade desses sabores vai influenciar a formação de paladar da criança, tanto na gestação como durante o aleitamento materno. Depois disso, a introdução alimentar é fundamental. Hábitos formados durante a infância serão levados para a vida, tanto pela questão do sabor desses alimentos, do desenvolvimento da saciedade, como dos sentimentos envolvidos. 

Exemplos: aqueles que na infância recebiam os legumes liquidificados e tudo misturado, recebiam sim os nutrientes, mas não se acostumaram com o sabor, o aroma e a textura de cada um deles; alimentos forçados também são clássicos. Quem não conhece uma história de alguém que era forçado a comer determinado alimento ou comia para ganhar um prêmio? Se não comer a verdura não ganha a sobremesa... Acho que esses são os campeões de resistência. A questão econômica também pode estar envolvida. A pessoa que na infância só podia tomar refrigerante ou comer chocolate em ocasiões especiais porque os pais não tinham condição financeira de comprar, pode associar o consumo desses alimentos a momentos especiais na vida adulta ou ao seu próprio sucesso financeiro.

Nem sempre podemos identificar o motivo de uma pessoa ter dificuldade de introduzir novos alimentos e isso nem é o mais importante, mais importante é não julgar e saber que forçar ou achar que é frescura não vai auxiliar em um processo de mudança da alimentação. 

Enquanto nutricionista, achas que há formas de sensibilização e conscientização que podem ser eficazes nesses casos?
A sensibilização e conscientização podem auxiliar nesse processo, principalmente quando a decisão de mudar parte da própria pessoa. Existe, claro, uma tendência de pessoas próximas terem hábitos alimentares parecidos. Se dentro de uma família que todos comem muitos alimentos ultraprocessados um integrante quiser mudar, vai ser difícil convencer a maioria. Mas a persistência e o próprio exemplo provavelmente vão influenciar de forma positiva nas escolhas alimentares dos demais de forma natural.

Manter em casa alimentos saudáveis e consumi-los pode ser, nestes casos, uma das melhores formas de sensibilização. Recusar um fast food que todos estão consumindo sem críticas pode ter um impacto muito maior do que um discurso.


Enquanto nutricionista, acredito que a introdução de alimentos e o resgate de hábitos saudáveis são o começo, não na forma de cobrança, mas de forma prática, conhecendo a rotina da pessoa e auxiliando-a a descobrir formas disso acontecer.

Normalmente o que melhor funciona são as ideias que vieram da própria pessoa, não de mim. Estou ali para tirar suas dúvidas, ajudar a pessoa a entender algumas combinações e conceitos importantes para que ela própria tenha capacidade de decidir sua alimentação. A construção desses caminhos é mais eficaz do que a dieta perfeita que na verdade não existe e nunca dura. Quanto aos alimentos que de fato precisam ser limitados, gosto de trabalhar para encontrar um equilíbrio e ajudar a pessoa a identificar de que forma eles estão prejudicando sua saúde. Tem alimentos que nos deixam pesado, estufados, com dor de cabeça, refluxo, etc. Quando conseguimos associar o consumo de determinado alimento a uma consequência dessas, naturalmente o desejo por este alimento diminui, enquanto na proibição é mais comum o desejo aumentar. 

Algumas pessoas são resistentes não só a mudanças na alimentação, mas a mudanças em geral na sua vida, nestes e em muitos outros casos é possível que existam outros processos envolvidos e o acompanhamento psicológico se torna fundamental. Nutricionista e psicólogo são profissionais que acredito que, no mínimo, uma vez na vida todos deveriam ir.

Tens dicas de como introduzir novos alimentos e sabores?

Cozinhar é uma ótima forma. Quem cozinha acaba sendo mais aberto a experimentar. Reeducar o paladar é essencial. Para quem quer introduzir mais frutas na alimentação, diminuir o consumo de alimentos adoçados, sejam com açúcar ou adoçante, pode abrir caminho para entrada delas. Também recomendo experimentar diferentes formas de preparo e combinações, caprichar na apresentação, trocar ideais e experiências com pessoas que estejam passando pelo mesmo processo..

No caso das crianças, por exemplo, há dicas mais específicas que podem ajudar os pais a incluir alimentos mais saudáveis no cardápio?

Para as crianças, sem dúvida, o mais importante é o exemplo. Exemplo dos pais e de outras crianças da mesma idade. Quando mesmo assim houver resistência, recomendo levar a feiras, colocá-las para auxiliar na cozinha em receitas, na higienização das frutas e verduras. Também é importante não fazer chantagem. Outro ponto importante é oferecer à criança a alimentação da família. Não é interessante fazer preparações diferentes nem substituir refeições por lanches ou outros alimentos. Quando a criança perceber vai ganhar bolacha se não almoçar, provavelmente ela vai querer isso sempre e cada refeição vai ser uma briga.

Que estratégias tendem a ser pouco eficazes no geral?


Acredito que forçar pode aumentar a resistência. Da mesma forma: ameaçar, fazer chantagem, ofender ou diminuir alguém pelos seus hábitos. Lembrando que estimular e persistir é diferente de forçar. Uma criança pode precisar ser exposta dez vezes a um mesmo alimento para aceitá-lo. Se uma criança, sem vícios alimentares precisa dessas dez vezes, imagina um adulto!? Então para quem quer melhorar a alimentação e introduzir novos alimentos, saiba que o paladar pode mudar ao longo do tempo sim.

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