Sua relação com a comida é saudável?

24 de abril de 2018
Você também já trocou um bombom por uma maçã e a vontade de doce não passou? Aí no outro dia você foi lá e comeu a barra de chocolate inteira? Feito isso, começou a se sentir fracassado, ficou com inveja das musas fitness do Instagram, chorou na frente do espelho, pensou: "nunca vou conseguir ser magra"? Esse é um comportamento que tive por muitos anos e é um exemplo de uma relação NADA saudável com a comida.

As redes sociais têm um lado muito ruim: todo mundo se acha nutricionista e psicólogo. E mesmo os profissionais da saúde, muitas vezes, saem bombardeando as pessoas de doutrinações, dicas e conselhos inalcançáveis ou sem embasamento científico. Eu mesma fiquei anos sem comer pão. O pão normal de padaria, sabe? Achava que pão era amaldiçoado, o grande inimigo da magreza, da alimentação saudável. 



Você não precisa se sentir culpado por escolher o chocolate!

Hoje sou uma pessoa muito mais sensata! E não aguento mais ver gente sofrendo com esse processo de culpa e sofrimento em relação à comida. Tapioca, arroz, batata, banana, pão, massa perderam o status de comida. São só carboidratos. Inimigos mortais. Um pedaço de torta e uma bola de sorvete viraram comida de gente fraca, que não tem foco, e que não é bem informado, que nunca vai conseguir ser magro. Como é possível a gente ter chegado nesse ponto, hein?

Pra ajudar todo mundo a repensar a sua relação com a comida, fiz a entrevista abaixo com a Nutricionista Débora Bottega, eterna parceira desse blog. Atentem para esta frase maravilhosa da Débora, que resume tudo: 

"Não existe alimentação perfeita e a busca por algo que não existe sempre resultará em frustração e em uma relação ruim com a comida".

Senta que a entrevista é longa! Vale a pena! 💜Não tenho palavras pra agradecê-la por tantos ensinamentos. Tenho certeza que você vai ler tudo e tirar um peso das costas quando chegar no final da entrevista, assim como eu me senti muito mais aliviada! É isso, gente! 

Vamos parar de loucura, de trocar o tradicional arroz com feijão por uma vitamina de whey protein ou de outra coisa que não tem nome de comida! Vamos voltar a olhar pro purê de batata e enxergar apenas um purê de batata, ok?

1⠂ A preocupação excessiva com uma alimentação saudável pode gerar compulsões e transtornos alimentares?

Sim. Quando essa preocupação excessiva interfere no prazer de comer, pode surgir a necessidade de comer cada vez mais em busca do prazer perdido. O convívio social também pode ser prejudicado na tentativa de fugir dos “alimentos proibidos”. Porém, a ansiedade gerada pela perda desse convívio e a dificuldade de lidar com essas situações deve piorar, assim como a possibilidade de perda de controle.

Por isso, aquelas pessoas que tem um peso saudável, e mesmo assim querem perder aqueles 2kg, devem tomar cuidado com as técnicas escolhidas para que aqueles menos 2kg não virem mais 2kg, mais 5 ou 10kg nos anos seguintes.

2 ⠂O que significa ter uma relação saudável com a comida?

No meu ponto de vista é enxergar os alimentos como alimentos, como comida mesmo. Alimento não é nutriente nem sentimento. Alimentamos-nos por necessidade, por prazer e também como socialização, isso é natural. Conhecer a composição dos alimentos e suas propriedades é muito útil na hora de escolher os alimentos, o que não podemos, salvo em alergias e intolerâncias, é olhar para um pão e ver glúten, ver a banana e enxergar carboidrato, ter vontade de comer um alimento que gosta e sentir culpa por isso, comer e ficar com remorso.

Dividir os alimentos em permitidos e proibidos é uma visão minimalista. É resumir algo complexo demais para ser resumido. Gera culpa, aumenta o desejo pelos alimentos proibidos...

Comer de forma intuitiva nos aproxima muito mais de uma boa relação com a comida e de uma alimentação saudável sem tanto sofrimento e restrições. Para alcançar isso precisamos nos conhecer, prestar atenção nos sinais que o nosso corpo dá e respeitá-los. Claro que para chegar aí existe um caminho a ser percorrido. Engloba reeducação do paladar, correção de deficiências nutricionais, seleção dos alimentos, cuidado com a hidratação, exercícios, sono, tratamento da ansiedade, etc. Envolve buscar equilíbrio, vários profissionais da saúde podem ser facilitadores desse processo: nutricionista, psicólogo, educador físico, médico.

Vamos ao exemplo, em uma relação saudável com a alimentação e também com o corpo, come-se quando se tem fome. No comer intuitivo é importante beber muita água, pois quando o corpo está desidratado pode-se confundir sede com fome, até aí ok, tudo certo. Porém, quem tem uma relação ruim com a comida, ao sentir fome, sente medo de comer, dos alimentos proibidos, de errar na quantidade. Esse medo é tão grande que gera culpa por sentir fome e a preferência, de ao invés de comer, beber um copo de água. Fica visível a inversão dos valores?

Neste caminho pode-se em algum momento deixar de conseguir perceber a própria fome, mas quando temos fome, comemos e ficamos satisfeitos. Se perdemos a fome, também perdemos a capacidade de ficar satisfeitos, e com isso pode-se perder a capacidade de saber a hora de parar de comer. É impossível matar a fome se ela nem existe mais.

Lembrem-se sempre: sentir fome é natural, é bom. Se você tem fome também tem a capacidade de ficar saciado, o que pode ajudar a evitar excesso de alimentação e compulsão.

3 ⠂ Como encontrar um equilíbrio entre ter hábitos alimentares saudáveis e sofrer com terrorismo nutricional?

Imagino e espero que toda a sociedade esteja em busca dessa resposta. Não existe um único caminho ou responsável pela situação de terrorismo nutricional que estamos vivendo. Sem dúvida, os profissionais de saúde, a mídia e as redes sociais exercem um papel nessa transformação. A sociedade que consome tudo isso precisa selecionar ao que assiste, quem segue, ter uma visão critica de tudo que chega.

Os nutricionistas precisam ter cuidado com o que falam e prescrevem, a forma que é falado e prescrito, e também a forma que são ouvidos. Cada pessoa interpreta de uma maneira diferente orientações nutricionais e é importante acompanhar a evolução, não só de parâmetros como peso, cintura, percentual de gordura, exames laboratoriais, mas também se as mudanças dos hábitos estão ocorrendo de forma natural, se a relação com a comida está de fato melhorando. Por outro lado. os pacientes precisam se sentir à vontade para expressar seus pensamentos e sentimentos em relação a tudo que está acontecendo e que está sendo discutido.

Precisamos ter consciência de que a saúde e o peso não dependem de uma única refeição, do consumo ou exclusão de um único nutriente. Se o prazer de comer e o convívio social estão prejudicados, quando se passa fome por medo de comer e a alimentação está gerando sofrimento, é sinal de que não se está no melhor caminho ou se está o percorrendo rápido demais.

Além disso, o que é uma alimentação saudável? Sabemos que é baseada no consumo de alimentos in natura, de preferência orgânicos, variados, livre de contaminação, etc. Mas não se sabe ao certo qual é a valor calórico exato recomendado para cada pessoa, ou sequer qual é a distribuição perfeita de carboidratos, proteínas e gorduras de que necessitamos. Então qual é o sentido de ser tão radical na direção de algo que na verdade é flexível? Não estou dizendo que se pode comer qualquer coisa em qualquer quantidade, mas que talvez o caminho esteja mais no sentido de aprender a reconhecer suas necessidades, que podem variar de um dia para outro, de uma fase da vida para outra. Se tivermos hábitos de vida saudáveis, nosso corpo terá capacidade de lidar com uma refeição menos saudável se ela não for a regra.

Sabemos que esse terrorismo nutricional é vivenciado em grande por quem almeja um peso adequado. Mas tudo citado até aqui é relacionado ao indivíduo. Mas vejamos bem. Mais da metade da população está acima do peso, então estamos vivendo em um meio que está resultando nesse quadro. Não cabe citar aqui, mas são incontáveis e multifatoriais as causas que levaram metade de uma nação ao excesso de peso.

Quando pegamos essa complexa e emaranhada situação produzida por gerações de caminhos na direção errada e responsabilizamos unicamente o individuo, é claro que este se culpa e se aterroriza. Ao invés de assumirmos essa “culpa” de maneira unilateral, precisamos urgentemente exigir mais da indústria, do governo, do mercado de trabalho...

Em 2014, foi lançado pelo Ministério da Saúde um belíssimo Guia Alimentar que cita a regra de ouro pela alimentação saudável: “prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados". Esse mesmo governo que orienta uma alimentação mais natural, aprova uma infinidade de aditivos alimentares, agrotóxicos, publicidade infantil de alimentos ultraprocessados, gordura vegetal hidrogenada e outros ingredientes de péssima qualidade nutricional. Então fica mais ou menos assim: eles aprovam agrotóxicos e alimentos ultraprocessados e depois orientam a população a não utilizá-los e ainda a culpa pelas consequências desse consumo.  É muito injusto.

4 ⠂ Por que tantos nutricionistas e profissionais da saúde insistem em recomendar cardápios super restritivos, principalmente em relação aos carboidratos, para pacientes que querem perder peso? 

É muito comum o desejo de rápida perda de peso vindo dos próprios pacientes. A pressa em perder algo que foi ganho ao longo de muito tempo. Claro que o objetivo do paciente não se sobrepõe à sua saúde. Acontece que excesso de peso não é saudável, aumenta risco de diversas doenças. Logo, faz sentido trabalhar para que um peso saudável seja alcançado. E é sabido que restrição calórica emagrece. Existe, de fato, embasamento científico para isso e mais recente da restrição dos carboidratos, apesar de que mesmo na literatura científica não haja consenso para o que seria uma alimentação baixa ou muito baixa em carboidrato e até mesmo para o jejum.

Porém, muitos desses estudos são de curto e médio prazo e não necessariamente representam a realidade. Por exemplo, tem estudo que fornece todos os alimentos aos participantes, em alguns países é permitido incentivo financeiro, estudos que exigem registros alimentares diários aumentando a adesão durante o período do estudo, outros só apresentam os dados dos pacientes que emagreceram. E mesmo os estudos que não fogem tanto da realidade não é de praxe incluir questionários que identificariam aumento de apetite ou compulsão após o período do estudo, desejo de comer alimentos proibidos, ansiedade, etc. Ou seja, não se avalia como evolui a relação com a alimentação daquelas pessoas e muitos dos que avaliam esses parâmetros mostram que não é incomum eles piorarem após períodos de dieta e restrições.

Hoje, de maneira geral, eu não passo mais planejamento ou orientação com as quantidades já determinadas de cada alimento. Para algumas pessoas isso faz muito sentido e elas ficam aliviadas por saberem que podem ter uma alimentação saudável sem perder sua autonomia. Outras ficam inseguras e precisam ter resgatada sua confiança. As pessoas precisam reaprender a identificar e interpretar os sinais que o corpo dá e precisam que seja reforçado o conceito de que se alimentando com comida de verdade são totalmente capazes de tomar decisões sobre o que e quanto consumir. É um processo no qual as pessoas se responsabilizam por suas escolhas e na minha prática tem funcionado.

5 ⠂ Com pouca ou nenhuma ingestão de carboidrato é possível ter saúde?

Não. Com baixíssima quantidade de carboidrato não conseguimos as quantidades necessárias de fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos importantes para a manutenção da saúde. E mesmo nas estratégias mais restritivas em relação ao carboidrato, elas são indicadas por curtos períodos, sendo utilizadas como uma “fase da dieta”. Justamente nessa fase acontece grande perda de peso. Só que essa perda pode ser uma ilusão, pois é de difícil manutenção, já que por conta dessa “fase da dieta” algumas pessoas podem apresentar compulsão alimentar por anos. Mas em seu inconsciente sempre ficará a lembrança de que com a restrição de carboidrato é fácil emagrecer. Ninguém associa a compulsão à dieta, associam à falta de força de vontade, iniciando um processo de culpa e medo de comer.

 6 ⠂ Que práticas exemplificam um ato de comer saudável?

→Comer com prazer.

→Devagar.

→Comer alimentos e não nutrientes.

→Comer quando se está com fome.

→Comer sem distrações.

→Nem de menos nem de mais.

→Atrasar uma refeição eventualmente pela rotina, ok, passar fome de propósito não. Comer um pouquinho mais em situações especiais é normal, compulsão não.

→Pensar em alimentos que gosta com prazer e não com culpa.

→Ter limites, sim.

→Comer de tudo, com equilíbrio, claro.

→Comer com variedade, experimentar.

7 ⠂ Você atende muitos pacientes que se sentem culpados depois de comer alguns alimentos específicos? E que em geral têm uma relação de sofrimento e penitência com a comida? Que tipo de trabalho o nutricionista desenvolve com esse paciente? 

Sim. Ultimamente os alimentos que mais geram culpa são aqueles que contêm carboidrato, da banana aos doces. O papel nutricionista começa desmistificando crenças em relação aos alimentos. Às vezes a pessoa se sente culpada pelo consumo de um alimento saudável, como é o caso da banana. Outro cuidado é de fazer um aconselhamento nutricional visando o equilíbrio e que não gere ou aumente o sentimento de culpa. A estratégia deve ser escolhida junto com o paciente e é necessário o acompanhamento do mesmo para conferir a evolução da relação da pessoa com sua alimentação, não só do que está sendo consumido, mas de que forma e que sentimentos estão envolvidos. Até porque essa culpa diminui o prazer de comer sem necessariamente gerar mudanças positivas na alimentação ou maior conscientização e responsabilização dos hábitos alimentares. A atuação do nutricionista neste e em muitos casos tem suas limitações, sendo indicado e bem vindo também o acompanhamento com psicólogo.

5 comentários:

  1. Respostas
    1. Esclarecedora, né? Tenho lido pelo menos uma vez por semana hehe

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  2. Estou fazendo um curso técnico de nutrição e sei que mesmo só podendo dar orientações gerais (não específicas), vou ter uma responsabilidade enorme. Vou compartilhar essa entrevista maravilhosa com os colegas, acho que isso é de utilidade pública, ainda mais pra quem vai influenciar pessoas. Parabéns e obrigada por trazer esse conteúdo incrível pra cá <3

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    1. A responsabilidade é grande, né, Franciele? Principalmente com todo mundo querendo se passar por nutricionista hoje nas redes sociais e muitos profissionais formados, inclusive, fazendo terrorismo com as pessoas. O teu desafio é grande, mas por isso também é mais divertido. hehe Isso! Compartilha com todo mundo sim! Fico muito feliz! Beijocas

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  3. Muito bom! me identifiquei em muitas partes dessa entrevista. Estou em busca de uma alimentação saudável e consciente, depois de tanto tempo de compulsão e transtornos alimentares , sei que o caminho não é fácil e que a mudança tem que começar primeiro por dentro mas aos poucos eu chegando lá!
    Estou aprendendo ao ouvir meu corpo, atender suas necessidades, sem culpa e sem medo. Afinal, por que eu deveria me sentir culpada por fazer algo que me mantém viva?

    muito obrigado por essa entrevista, me esclareceu muitas coisas!

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