Precisamos parar e refletir


Comecei a enxergar que outras causas estão relacionadas ao vegetarianismo quando uma amiga argentina me disse que virou vegana logo depois que se tornou feminista. Não entendi a relação na hora e ela explicou que não poderia lutar contra a opressão das mulheres se continuasse contribuindo pra escravidão animal. Não faz totaaaal sentido? As lutas precisam ser aliadas. O post de hoje é sobre isso. 

Pois bem. Desde que começou a luta dos movimentos em defesa dos animais contra o embarque dos 27 mil bois para a Turquia, no Porto de Santos, pipocaram vários textos nas redes sociais de gente metendo o pau no veganismo. Muitos deles me incomodaram demais, mas me fizeram pensar em algumas coisas. 

Acho que a primeira coisa que precisamos fazer é não perder a nossa capacidade de diálogo. Não pode virar uma disputa de quem sofre mais ou qual causa é a mais importante. O que precisa ser feito é as lutas se encontrarem e trabalharem juntas, se fortalecerem.

Eu não parei de comer carne apenas porque eu não quero que a galinha morra por minha causa. Eu deixei de comer carne, também, porque funcionários dos abatedouros, a maioria, negros, são submetidos a condições de trabalho análogas às da escravidão negra. Precisamos falar sobre isso. 

Nasci numa cidade do interior de Santa Catarina onde a maior arrecadação de impostos vem das empresas do ramo frigorífico. As condições de trabalho são tão precárias nesses locais que os catarinenses preferem qualquer outro trabalho do que aquilo. E isso fez com as empresas fossem ao Acre para entupir ônibus de haitianos desesperados por emprego no Brasil. Como não enxergar racismo nisso? A luta não pode ser apenas pela vaca. 

Outro dia uma amiga veio me dizer, muito emputecida, que o pai virou vegano. Questionei o motivo de tanta braveza, já que ser vegano é uma coisa maravilhosa, e ela respondeu que agora a mãe precisa passar mais tempo na cozinha, pesquisando e preparando coisas que não está acostumada. Afinal, o pai se recusa a pôr a barriga no fogão. Como não enxergar machismo nisso? 

E tem mais. Não comer carne precisa ser uma possibilidade para todos. Eu não vou sair atirando pedras nas pessoas que comem ovos no meio do sertão porque elas simplesmente não tem a opção de comer linhaça. Precisamos lutar pelo fim da desigualdade social, pelas políticas de geração de renda. 

E muito melhor do que as minhas humildes palavras, são as da diva Raquel das Flores que escreveu esse livro aí em cima! Se quiserem ler na íntegra, é só clicar aqui. A Raquel defende que o veganismo sozinho não faz sentido. Ele precisa se unir à luta contra o machismo, elitismo e racismo. 

Conheçam também:

O blog: Sim, sou vegana e feminista preta, da diva Thallita Flor. 

O movimento afro vegano