Precisamos parar e refletir

7 de fevereiro de 2018

Comecei a enxergar que outras causas estão relacionadas ao vegetarianismo quando uma amiga argentina me disse que virou vegana logo depois que se tornou feminista. Não entendi a relação na hora e ela explicou que não poderia lutar contra a opressão das mulheres se continuasse contribuindo pra escravidão animal. Não faz totaaaal sentido? As lutas precisam ser aliadas. O post de hoje é sobre isso. 

Pois bem. Desde que começou a luta dos movimentos em defesa dos animais contra o embarque dos 27 mil bois para a Turquia, no Porto de Santos, pipocaram vários textos nas redes sociais de gente metendo o pau no veganismo. Muitos deles me incomodaram demais, mas me fizeram pensar em algumas coisas. 

Acho que a primeira coisa que precisamos fazer é não perder a nossa capacidade de diálogo. Não pode virar uma disputa de quem sofre mais ou qual causa é a mais importante. O que precisa ser feito é as lutas se encontrarem e trabalharem juntas, se fortalecerem.

Eu não parei de comer carne apenas porque eu não quero que a galinha morra por minha causa. Eu deixei de comer carne, também, porque funcionários dos abatedouros, a maioria, negros, são submetidos a condições de trabalho análogas às da escravidão negra. Precisamos falar sobre isso

Nasci numa cidade do interior de Santa Catarina onde a maior arrecadação de impostos vem das empresas do ramo frigorífico. As condições de trabalho são tão precárias nesses locais que os catarinenses preferem qualquer outro trabalho do que aquilo. E isso fez com as empresas fossem ao Acre para entupir ônibus de haitianos desesperados por emprego no Brasil. Como não enxergar racismo nisso? A luta não pode ser apenas pela vaca. 

Outro dia uma amiga veio me dizer, muito emputecida, que o pai virou vegano. Questionei o motivo de tanta braveza, já que ser vegano é uma coisa maravilhosa, e ela respondeu que agora a mãe precisa passar mais tempo na cozinha, pesquisando e preparando coisas que não está acostumada. Afinal, o pai se recusa a pôr a barriga no fogão. Como não enxergar machismo nisso? 

E tem mais. Não comer carne precisa ser uma possibilidade para todosEu não vou sair atirando pedras nas pessoas que comem ovos no meio do sertão porque elas simplesmente não tem a opção de comer linhaça. Precisamos lutar pelo fim da desigualdade social, pelas políticas de geração de renda. 

E muito melhor do que as minhas humildes palavras, são as da diva Raquel das Flores que escreveu esse livro aí em cima! Se quiserem ler na íntegra, é só clicar aqui. A Raquel defende que o veganismo sozinho não faz sentido. Ele precisa se unir à luta contra o machismo, elitismo e racismo. 

Conheçam também:

O blog: Sim, sou vegana e feminista preta, da diva Thallita Flor. 

O movimento afro vegano

6 comentários:

  1. Olá, acho válido tudo o que foi dito aqui e lá no texto, tudo tem seu viés de problematização, mas o que noto em todo movimento libertário é que sempre dão um jeito de criar no próprio movimento um embate. Acontece muito no movimento feminista, colocar as mulheres umas contra as outras, como aconteceu com aquele festival de cinema e sobre o assédio das atrizes. É claro que tudo é uma caminhada e o veganismo ainda é incipiente e está inserido nas nossas inúmeras iniquidades, mas acho que cada vegano tem sua motivação que no final das contas vai beneficiar de alguma forma animais, humanos e meio ambiente. Junto com ele vem uma conscientização sobre nossos meios de produção e excesso de consumo. O mainstream sempre está unido em torno do capital e não fica se digladiando, por isso são fortes. Os movimentos sociais ficam atacando uns aos outros ou desqualificando isso ou aquilo. Exigir que o vegano ou a feminista ou qualquer ativista extrapole sua causa e vá no início da meada a abarque tudo acho exigir demais, sei lá. Um abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Lena, tudo bem? Concordo super com o que você falou. Percebo muito bem o quanto tentam nos colocar uns contra os outros em várias lutas. A questão que levanto não é que todos abracemos todas as causas do mundo, mas que haja um diálogo entre elas, conexão. Exemplo: não são todos, obviamente, mas vejo muita gente pregar que a solução pros problemas do mundo é todos se tornarem veganos. Se isso acontecer, o mundo será pleno e maravilhoso. E não é bem assim. Tem muita coisa pra resolver além da exploração animal. Esse é o objetivo do texto e também do livro da Raquel das Flores, de acordo com a minha interpretação. Um beijooo!

      Excluir
  2. Que lindo texto! Adorei! Confesso que me dói ver os animais sofrendo, tenho compaixão por eles, gostaria que fosse diferente, mas não consigo enxergar o veganismo SÓ NISSO como vejo muitos veganos fazendo, o exemplo do pai da sua amiga é perfeito: não vou explorar os animais mas vou explorar minha esposa... Sou contra defender a vida de uma barata aos berros (como fazem alguns veganos) e comer bolacha recheada e margarina, cujas indústrias nojentas destroem o meio ambiente, escravizam pessoas e continuam caracterizando o sistema... Parei de consumir produtos animais pela energia que esses produtos carregam: de exploração, tristeza, culpa, pobreza, porque encho minha vida de boas energias o tempo todo e esses sentimentos já não cabiam mais dentro de mim, também entendi que meu corpo implorava por frescor, sabor da terra, amor e comecei a dar a ele o que ele tanto me pedia. Ufa falei quase mais que você! Adoro seu blog! Parabéns LINDO TRABALHO! Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Drica. Fico feliz que tenhas gostado do texto. Por mais que concordemos ou discordemos uns dos outros, precisamos discutir esse assunto. É urgente e necessário! Adoro seu canal e as tuas receitas! Beijocaaaaa

      Excluir
  3. Mto bom o texto. Ia escrever mais, mas dps eu falo. Rs

    ResponderExcluir
  4. Apenas AMEI!!! É nisso que acredito!!! Obrigada, gente, por divulgarem ideias tão importantes pro mundo!!!

    ResponderExcluir