Quibe de berinjela - R$ 6,53

20 de fevereiro de 2018
Hoje vamos falar do senhor quibe, que eu só fui dar conta da existência quando o Habibs chegou a Florianópolis e eu já era uma adolescente atolada de espinhas nessa época. Não temos muita influência asiática nessas bandas. Milhões de anos depois, fui descobrir que se come muito quibe no Rio e em São Paulo, inclusive nas versões vegetarianas. 

O melhor que comi até hoje é feito pelas mãos da minha sogra, de berinjela, mas leva queijo. Para uma versão vegana da iguaria, resolvi seguir mais ou menos o que a minha sogra faz, mas acrescentando a ricota de gergelim do blog em vez dos queijos. 

Os motivos para comer quibe no dia a dia são muitos.

1. Eles são muito práticos e saborosos.
2. Dá pra incluir os resíduos de qualquer leite vegetal na massa, o que evita o desperdício.
3. Eles são muito versáteis. Dá pra fazer a base de berinjela ou abóbora se for pra moldar em mini quibinhos. Se preferir colocar inteiro numa assadeira, pode colocar até os vegetais que não costumam dar liga, como abobrinha e brócolis.
4. Sai muito barato e sustenta bem. Só leva basicamente trigo pra quibe, vegetais e temperos.

Ah! Para uma versão sem glúten, a Bela Gil diz que dá pra substituir o trigo por quinoa ou painço, mas eu nunca tentei.

Na foto eu coloquei o comemos no almoço. Mas a receita rende cerca de 25 mini quibes.


Então vamos à receita, que custou R$ 6,53 e rendeu cerca mais de 20 quibinhos.

Ingredientes
⠂200g de trigo pra quibe (cerca de 1 xícara e 1/2)
⠂água filtrada para hidratar o quibe
⠂2 berinjelas grandes ou 4 pequenas cortadas em rodelas e cozidas no vapor (tem que ficar no ponto de desmanchando)
⠂1 porção da ricota de gergelim do blog (opcional)
⠂4 colheres de sopa de folhas de hortelã
⠂2 cenouras raladas
⠂suco e raspas de 1 limão
⠂sal a gosto
⠂temperos a gosto (recomendo: zattar, cominho em pó, pimenta síria, pimenta do reino)

Como eu fiz
Coloquei o trigo numa tigela com bastante água pra hidratá-lo e deixei lá por 1 hora. Depois escorri BEM com uma peneira. Se deixar o trigo muito molhado, não vai dar liga na receita. Em outra tigela grande, juntei todos os ingredientes, misturei bem, provei os temperos e o sal e comecei a fazer os moldes dos mini quibes com as mãos. Joguei todos eles numa assadeira de pizza untada com um fio de óleo e assei no forno já pré-aquecido por cerca de 30 minutos. 

Na hora de servir o quibe, regue com mais limão por cima e umas folhinhas de hortelã extra. Fica divino e é ótimo pra acompanhar um bom arroz com lentilha. 

"Iogurte" de manga com kefir - R$ 3,15

10 de fevereiro de 2018
Muita gente me escreveu agradecendo a receita do iogurte vegano de coco (link aqui), mas infelizmente ele não leva probióticos. É apenas uma ilusão, um gostinho de iogurte, só que sem os benefícios pro intestino e tal. Para colocar probióticos na receita, é preciso usar um iogurte industrializado já pronto (odeio), um sachê de probióticos comprados em lojas de produtos naturais, que são caríssimos, ou kefir de água.

O que é o kefir
É uma cultura de bactérias e leveduras que se alimentam de líquidos açucarados (açúcar mascavo ou demerara). Eles se multiplicam loucamente e consomem esse açúcar. Ninguém sabe muito bem de onde surgiu o kefir, mas há relatos dizendo que pode ter sido no México ou no Tibet há séculos atrás. 

Os benefícios desses mini grãozinhos são muitos. O principal é que eles são probióticos naturais: equilibram a flora intestinal, melhoram a digestão dos alimentos e fortalecem o sistema imunológico. Para cultivá-los, é preciso trocar a água da cultura de bactérias todos os dias e alimentá-lo com açúcar. A quantidade varia de acordo com o tamanho da sua coletânea. Para saber exatamente como proceder, ninguém melhor que o seu doador pra informar. Você pode conseguir kefir com em grupos no Facebook da sua região, vizinhos ou pelo site Probióticos Brasil. Eles mandam pelo correio por um valor ou te ajudam a achar um doador. 

Eu não tenho kefir na minha casa. Já tomei muito, enjoei e agora só pego da minha mãe de vez em quando. Sim, sou mimada. 

Vamos à receita do iogurte então?

Eu resolvi fazer com leite de arroz. Ele é bem mais barato que o de coco, fácil de fazer e sustenta bastante. Já vi muita gente fazer com o arroz cru, deixado de molho, mas eu prefiro a versão cozida, acho que fica mais cremoso e com um gostinho mais discreto.

Receita original do leite de arroz, que custa R$ 0,90

⠂1 xícara de arroz branco ou integral
⠂3 xícaras de água para cozinhar o arroz
⠂4 xícaras de água para bater no liquidificador e fazer o leite (na receita do iogurte vamos substituir essa água pela de kefir)

Como fazer
É só cozinhar o arroz com as 3 xícaras de água. Depois bater em duas etapas no liquidificador. O tempo de bater depende de quão grosso você quer o seu leite. Não deixa bater horrores porque vai ficar em ponto de mingau. É pra bater por menos de 1 minuto. Eu vou batendo e parando. Pronto. É só coar e já temos o leite pra beber, tomar com café, fazer molho branco.

O que fazer com o resíduo que sobrar
Pode misturar com 1 xícara de leite de coco, 1/2 xícara de melado de cana, canela a gosto e jogar na panela até endurecer. E temos um arroz doce delícia. Eu fiz o arroz doce, mas mudei de ideia no meio do caminho. Joguei o arroz doce no liquidificador, coloquei essa massa numa forma de pão e assei no forno por 35 minutos. Pronto! Temos um bolinho de arroz bem fininho e cremoso. 

Eu gosto do iogurte mais molinho, cremoso. Se você quiser BEM consistente, é só usar mais agar agar. 

Iogurte de manga com kefir
Para fazer o iogurte, vamos fazer o leite de arroz com a água do kefir, em vez de água filtrada. 

⠂1 xícara de arroz branco ou integral (usei o branco)
⠂3 xícaras de água filtrada pra cozinhar o arroz
⠂1 litro de água do kefir
⠂1 manga cortada em pedaços (ou outra fruta da sua preferência)
⠂4 gramas de agar agar ou goma xantana

Como fazer
Cozinhar o arroz com a água filtrada. Depois de cozido, bater o arroz no liquidificador em duas etapas com a água de kefir. Coar. Separar o resíduo para fazer o arroz doce ou bolo. Separar metade do líquido do leite para voltar ao liquidificador e bater com a manga. E a outra metade vai pra panela ferver por 3 minutos com o agar agar. Depois de fervido, é só misturar as duas metades numa tigela e deixar fermentar por 4 horas. Depois, é só colocar na geladeira pra endurecer.  Pode colocar em potinhos pequenos, para porções individuais ou em uma tigela grande com tampa. 

Atenção: Você pode fazer mil adaptações ao seu gosto nesse receita. Pode colocar mais ou menos manga, pode usar outro leite vegetal em vez do arroz, pode acrescentar mais agar agar se quiser um iogurte BEM consistente ou não usar e fazer uma versão de iogurte líquido, pra beber. 

Sobre a agar agar: não compre a granel! Essas não costumam ser boas: tem gosto forte e não endurecem bem as receitas. Prefira as de pacotinho que vendem em lojas de produtos naturais.

Precisamos parar e refletir

7 de fevereiro de 2018

Comecei a enxergar que outras causas estão relacionadas ao vegetarianismo quando uma amiga argentina me disse que virou vegana logo depois que se tornou feminista. Não entendi a relação na hora e ela explicou que não poderia lutar contra a opressão das mulheres se continuasse contribuindo pra escravidão animal. Não faz totaaaal sentido? As lutas precisam ser aliadas. O post de hoje é sobre isso. 

Pois bem. Desde que começou a luta dos movimentos em defesa dos animais contra o embarque dos 27 mil bois para a Turquia, no Porto de Santos, pipocaram vários textos nas redes sociais de gente metendo o pau no veganismo. Muitos deles me incomodaram demais, mas me fizeram pensar em algumas coisas. 

Acho que a primeira coisa que precisamos fazer é não perder a nossa capacidade de diálogo. Não pode virar uma disputa de quem sofre mais ou qual causa é a mais importante. O que precisa ser feito é as lutas se encontrarem e trabalharem juntas, se fortalecerem.

Eu não parei de comer carne apenas porque eu não quero que a galinha morra por minha causa. Eu deixei de comer carne, também, porque funcionários dos abatedouros, a maioria, negros, são submetidos a condições de trabalho análogas às da escravidão negra. Precisamos falar sobre isso. 

Nasci numa cidade do interior de Santa Catarina onde a maior arrecadação de impostos vem das empresas do ramo frigorífico. As condições de trabalho são tão precárias nesses locais que os catarinenses preferem qualquer outro trabalho do que aquilo. E isso fez com as empresas fossem ao Acre para entupir ônibus de haitianos desesperados por emprego no Brasil. Como não enxergar racismo nisso? A luta não pode ser apenas pela vaca. 

Outro dia uma amiga veio me dizer, muito emputecida, que o pai virou vegano. Questionei o motivo de tanta braveza, já que ser vegano é uma coisa maravilhosa, e ela respondeu que agora a mãe precisa passar mais tempo na cozinha, pesquisando e preparando coisas que não está acostumada. Afinal, o pai se recusa a pôr a barriga no fogão. Como não enxergar machismo nisso? 

E tem mais. Não comer carne precisa ser uma possibilidade para todos. Eu não vou sair atirando pedras nas pessoas que comem ovos no meio do sertão porque elas simplesmente não tem a opção de comer linhaça. Precisamos lutar pelo fim da desigualdade social, pelas políticas de geração de renda. 

E muito melhor do que as minhas humildes palavras, são as da diva Raquel das Flores que escreveu esse livro aí em cima! Se quiserem ler na íntegra, é só clicar aqui. A Raquel defende que o veganismo sozinho não faz sentido. Ele precisa se unir à luta contra o machismo, elitismo e racismo. 

Conheçam também:

O blog: Sim, sou vegana e feminista preta, da diva Thallita Flor. 

O movimento afro vegano