Feijão simples, mas gourmet - R$ 4,27

2 de outubro de 2017
Comer é um ator político. Já ouviu essa frase? Não significa que a batata é de esquerda e o grão de bico é de direita. Vamos por partes.

Nesse fim de semana recebi 10 amigos, desses pra vida toda, aqui em casa. Quando todos morávamos no Rio de Janeiro, criamos um grupo de estudos pra debater questões políticas. A cada mês uma pessoa/casal recebia todos em sua casa e oferecia quitutes e bebidas pra nutrir as discussões. No início, a gente pedia pizza e comprava algumas coisas prontas. Aos poucos, a galera começou a fazer o próprio banquete. Fizeram história a caponata de berinjela do Claudio e os palitinhos de cenoura e pepino da Bianca, por exemplo. Eu e Lucio somos o único casal de vegetarianos do grupo, mas todos sempre foram simpatizantes e dispostos a provar e oferecer esse tipo de comida. A bebida era um combinado coletivo: a cerveja mais barata que não tivesse milho transgênico na composição. Mas comida nunca tinha sido o tema das nessas reuniões. 

Agora, depois de um ano sem nos encontrarmos, fizemos uma nova reunião aqui em Floripa. Assunto: as mudanças nos nossos hábitos alimentares e uma possível transição para o veganismo. A Martinha e o Claudio puxaram a discussão a partir do documentário Troque a Faca pelo Garfo (Forks over Knives) e do livro O Estudo da China, do médico Colin Campbell. 

O debate foi quente e animado. O Claudio foi o primeiro que largou a carne imediatamente depois que viu esse documentário. O filme mostra os impactos do consumo de alimentos de origem animal pra saúde. Fala de câncer, diabetes, doenças degenerativas e, o mais chocante, explica os motivos de não termos acesso a esse tipo de informação: a indústria da carne e dos laticínios patrocina uma porrada de pesquisas, políticos, publicidade, associações e até congressos da área de nutrição. 

Falamos sobre o mito de que comer saudável e sem carne é mais caro. Não é. A base alimentar da população brasileira é naturalmente sem carne: arroz e feijão, cuscuz, tapioca, vegetais. Mas concordamos que esse debate ainda é super elitizado. Os restaurantes e feiras que vendem produtos veganos e orgânicos estão, em geral, nos bairros mais caros. A galera que escreve e que lê sobre esse assunto, em geral, pode gastar mais. Também discutimos outro ponto que considero importantíssimo: ser vegetariano não significa ser saudável. Afinal, batata frita e coca cola não são de origem animal. 

O ponto mais polêmico da nossa conversa foi a questão do tempo. Comer lasanha congelada, cachorro-quente na esquina e queijo quente na padaria é muito mais rápido do que fazer a própria comida. Sem dúvida!!! Mas precisamos desmistificar esse negócio de que é preciso passar horas com a barriga no fogão e ter um planejamento gigantesco pra poder comer bem. Aí já é exagero! No começo até pode ser mais chatinho. Tem que pensar no que comer, organizar um dia pra ir na feira pelo menos a cada 15 dias, ter sempre grãos e sementes no armário... Mas acostuma rápido e depois vai no automático. Não exige uma nova faculdade nem horas de pesquisa. 

Eu fazia a minha própria comida mesmo quando trabalhava a duas horas da minha casa e fazia mestrado ao mesmo tempo. Requer mais informação sim, um pouco de planejamento sim, de organização, mas também de boa vontade. Se tiver alguém na sua casa pra dividir tudo isso, fica muito mais fácil. 

Pra mostrar que comida saudável e sem carne é simples, rápida, barata e não precisa ter aquela cara de ração horrorosa, eu fiz essa receita: feijão preto com cebola caramelizada. Não precisei de goji berry, nem quinoa, nem amêndoa trufada. Não fiquei horas picando legumes nem mexendo a colher na panela. Não gastei mais do R$ 5. E ainda preparei um feijão beeeeem diferente do basicão que estamos acostumados. 

Enfim, quando a gente escolhe comer uma coisa e não outra, fazer em vez de comprar, optar por feiras no lugar do supermercado, tudo isso é política. Vou voltar nesse assunto mais pra frente. 

Partiu deixar o preconceito de lado?

O feijão, naturalmente, é adocicado. Nessa receita, ele não parece uma sobremesa, não se preocupe! E fica uma delícia!
Ingredientes do feijão com cebola caramelizada - R$ 4,27
3 xícaras de feijão preto
5 xícaras de água filtrada
2 cebolas médias
4 colheres de sopa de molho de soja/shoyo
2 colheres de sopa de melado de cana
2 folhas de louro
sal e pimenta (usei a calabresa) a gosto

Como fazer
Deixe o feijão de molho por 24h (tem que deixar de molho!!!! crie esse hábito)
Cozinhe o feijão com a água filtrada e as folhas de louro na pressão por 20 minutos. Já fiz isso de manhã cedo, enquanto tomava café da manhã, pra agilizar.
Corte as cebolas em cortes de meia lua, finos, e refogue os pedacinhos com um tico de azeite.
Deixe as cebolas na panela refogando, com a tampa da panela fechada, e mexa de vez em quando pra não queimar. Faça isso até elas ficarem mais moreninhas. Por cerca de 10 minutos. 
Acrescente o molho de soja, o melado e o sal, mexa e tampe a panela. Espere uns 5 minutos.
Antes de colocar o feijão, tire um pouco da cebola caramelizada da panela e reserve, pra finalizar o feijão depois de pronto, como eu fiz na foto.
Agora pode colocar o feijão aos poucos. Primeiro os grãos, depois o caldo. 
Pare de mexer pro caldo engrossar e deixe cozinhando em fogo baixo por mais 5 minutos.
Acerte o sal e seja feliz!

Atenção
Eu sei que a cebola caramelizada chique precisa de uns 40 minutos cozinhando. Mas aqui é vida real, não é uma prova do Masterchef, então eu faço como eu quiser. ❤

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