Precisamos falar sobre DIETAS

23 de setembro de 2017

Senta porque é textão. Antes de começar, eu queria lembrar que não sou nutricionista, nem médica, nem qualquer-coisa-coach que tá na moda, e estou aqui dando apenas o meu depoimento pessoal (e de outras mulheres), com base em vivências. Não tô dando receita de saúde e sucesso pra ninguém, ok?

Eu fiz 30 anos há pouco tempo. E só agora é que eu parei de pensar em dieta. Só agora eu parei de acordar pensando se devia ou não me pesar. Só agora eu comecei a comer um pastel com calda de cana e não me sentir culpada depois. E acho que ninguém merece viver uma vida dessa. 

Comecei a pensar diferente porque descobri o feminismo e sigo nesse processo de questionamentos e aprendizado com base em conversas, debates e leituras. Resolvi que quero ser eu mesma, com todas as minhas imperfeições.

Agora que comecei a pensar diferente, é que abri os olhos e percebo o QUANTO as pessoas vivem em função de dieta. Na academia, toda segunda só tem um assunto: "queimar a picanha do fim de semana", retomar o "foco", "fechar a boca". No restaurante, quando peço sobremesa, o garçom responde: "amanhã começa a dieta, né?" Toda semana tem notícia sobre uma famosa que fez uma nova dieta e "enxugou" uns quilos. A última da moda é a coisa mais ridícula que já vi na vida, e olha, achei que nada iria superar aquele negócio dos shakes. A onda agora é a dieta dos alimentos em pó, da Sasha, filha da Xuxa. Acho que depois dessa já podem cassar o registro de bom senso da humanidade inteira, né? 

Eu tenho 1,70 de altura, tô com 66 quilos, 4 a mais do que tinha há 10 meses, quando mudei de cidade, e uso calça 38/40. Nunca passei muito desse peso e mesmo assim sempre me senti obesa, com vergonha de usar blusa colada. E olha que eu nem estou a anos luz de distância do peso das moças que estampam a capa da Boa Forma. Imaginaaaa como se sentem as meninas que pesam 30kg a mais do que a Fernanda Lima! Fico pensando como elas devem se sentir quando se olham no espelho.

Mas também tem aquela galera que já têm o peso da Fernanda Lima, mas vive uma vida de sacrifícios e culpa pra segurar esse corpo. Acorda de manhã calculando a porcentagem de proteína que vai colocar no prato. Leva clara de ovo pra comer no domingo enquanto toda a família tá almoçando lasanha. 

E também tem a mulherada que gasta o salário inteiro em cremes anticelulite, em manteigas pra estria, morre de vergonha do peito pequeno/caído e junta dinheiro há anos pra pôr silicone. Nada contra nenhuma cirurgia plástica. Cada um que cuide da sua vida. Mas acho que a pessoa merece saber que existe vida sem aquele corpo das famosas, gente. 


Não sou toalha pra secar barriga. Obrigada!
E falo, especificamente, nas mulheres porque esse negócio de aceitação do próprio corpo e adequação a certos padrões de beleza nos atinge com mais força. É consequência também do machismo. 

Há dois anos eu coloquei na cabeça que precisava perder 3 quilos. E procurei uma nutricionista. Cheguei lá e ela me disse que era bom mesmo "dar uma secada" antes dos 30 e me passou uma lista de coisas que podia e não podia comer. Entre as que não podia comer estava a-b-a-c-a-t-e. Fiquei tão indignada que saí de lá e comi um abacate inteiro. Por que ela não me disse que eu NÃO precisava emagrecer? Ela podia ter dito: "Juliana, coloca num diário tudo o que você come de domingo a domingo e vamos avaliar se está bom, se é saudável."

Eu queria que alguém da área da saúde tivesse questionado essa minha vontade de emagrecer quando eu era adolescente. Mas não, eu era saudável, sempre praticava esporte, nunca tive uma única alteração em nenhum exame de sangue, e os endocrinologistas e nutricionistas nunca me disseram que eu não precisava emagrecer, que tava tudo bem. Eu devo ter caído nos profissionais errados, só pode, porque sei de muita gente competente por aí que não sai receitando cardápios e dietas sem questionar antes!

Conversei com a nossa nutri parceira do blog, a Débora Bottega, que tem uma visão sensata sobre essa busca enlouquecida por dietas, enxugação de barriga, e tal. Débora, queria ter ido numa consulta contigo quando tinha 15 anos! 

A Débora me explicou que uma dieta ou um planejamento alimentar até pode funcionar a longo prazo pra algumas pessoas,  mas isso é algo muito específico. Em outras pessoas isso tende a causar angústia, comportamento negativo em relação à comida e transtornos alimentares (anorexia, bulimia, outros). É uma questão muito individual, e cada um, acompanhado por um profissional, precisa descobrir o que funciona pra si. 

Ela também me explicou que há, sim, situações onde a prescrição de dietas e um cardápio com restrições alimentares é fundamental, como no caso de pessoas que acabaram de fazer a cirurgia bariátrica ou que tem algum problema de saúde específico. Esse é o caso, por exemplo, do meu pai, que o cardiologista intimou a perder uns quilos porque ele tá com umas gorduras extras nas artérias e numa idade muito suscetível a infartos. 

A Débora também explicou que uma das situações que ela NUNCA prescreve dietas é no atendimento com crianças. Porque elas estão em fase de desenvolver a saciedade, aprender a fazer escolhas alimentares. As pessoas que durante a infância seguiram dietas, grandes restrições ou sofreram cobranças em relação à comida têm grandes chances de desenvolver uma relação ruim com o ato de comer.

A mensagem que esse post quer deixar, em resumo, é que uma alimentação saudável não significa viver de dieta. Não significa durante a semana "não pode" e fim de semana "pode". Não significa comer e se culpar. Não significa passar vontade e fazer sacrifícios.

Ter uma alimentação saudável, segundo a Débora, é ter consciência sobre as escolhas alimentares, planejamento, e um pouco de conhecimento básico sobre a origem dos produtos que consumimos. Uma coisa que ajuda muito é viver rodeado de pessoas que compartilham essas mesmas intenções.

O trabalho de reeducação alimentar acompanhado por um nutricionista busca resgatar a confiança no corpo, construir essa capacidade de escuta e interpretação dos sinais que o organismo dá. Aí a pessoa alcança o famoso equilíbrio. Ela acaba consumindo alimentos mais saudáveis de forma automática e não por obrigação. E aquela vontade de devorar alimentos pouco nutritivos diminui naturalmente.

Pra pensar se uma dieta funciona ou não no seu caso específico, a Débora sugere uma reflexão. Pense o seguinte: em quais fases da sua vida a sua alimentação estava mais equilibrada e saudável? Em quais períodos sua alimentação estava pior?

Se sua melhor fase foi quando NÃO estava fazendo dieta, você já tem sua resposta. Se você já seguiu uma dieta que funcionou mas não segue mais, tente lembrar como foi o período pós-dieta. Você manteve a maioria dos hábitos ou perdeu o controle? Hoje tem uma alimentação e um peso que considera “pior” do que tinha antes? Nesse caso, por mais que tenha funcionado por um curto período, não foi sustentável e não vale insistir nessa estratégia.

Se sua melhor fase foi quando estava fazendo dieta, pense: você ainda consegue segui-la? Você tem uma boa relação com a comida? Se sente saudável? Se a resposta for sim, talvez você tenha encontrado seu equilíbrio também.

No meu caso, Juliana, 30 anos, filha da Neide Aparecida e do José Carlos, eu encerrei o ciclo de dietas. Decretei a minha liberdade. Não me peso mais, não conto mais caloria. Não como um único brigadeiro me sentindo culpada. Vou mais à feira do que ao supermercado. Olho o rótulo de cada coisa que compro. Cozinho mais em casa. Não exagero no óleo, no sal, no açúcar e no álcool. Não como nada ultraprocessado em nenhuma situação (tipo biscoito recheado). Faço esporte com frequência. Me sinto bem assim e acabou. 

Mas tudo isso é um processo. Continuo não me sentindo confortável quando uso um biquini na praia, por exemplo, mas vou chegar lá! Se você quiser saber mais sobre a minha história com a alimentação, clica aqui

Depoimentos das amigas

Tudo o que eu sou hoje eu não conquistei sozinha. Converso muito com uma tonelada de amigas maravilhosas que cultivo e que me ensinam muito. Cada uma tá num processo muito diferente, mas é incrível o quanto de insegurança já deixamos pra trás. Pedi a algumas pra escrever sobre como é a sua relação com o próprio corpo e o resultado está aí embaixo. Espero que esse post tenha inspirado outras pessoas, especialmente, outras mulheres, a buscarem mais saúde e equilíbrio em vez de adequações a certos padrões de beleza. 

Camila, 32 anos
Ouvir alguém falar que está de dieta me dá arrepio. Não pela pessoa, porque cada um sabe de si, mas por tudo que passei tentando ficar magra. Um dia, perto dos 30, eu percebi que se eu não olhasse pra mim com carinho e respeito, em vez de reclamar da barriga grande e da gordura nas costas, sempre estaria sofrendo, angustiada por não ser magra. Escolhi parar de sofrer. Corpo perfeito pra mim hoje é o meu, que aguenta o tranco da vida comigo, é forte e me leva aonde eu quero. Por mudar essa mentalidade comecei a querer dar pra ele o melhor, e a mudança nem foi tão radical, só passei a deixar de lado ultraprocessados e coloquei mais frutas e verduras no cardápio. Mas ainda como muito porque tenho muita fome. Sou grata demais ao meu corpo pra deixá-lo sem comida quando ele precisa. Me libertei das dietas e hoje vejo que esse foi o maior ato de amor que já fiz por mim mesma.

Maitê, 24
Minha relação com meu corpo sempre foi de insatisfação. Sempre fui acima do peso e já sofri muito bullying por causa disso. Com o passar do tempo e a maturidade, aprendi a lidar com meu corpo de maneira mais sincera: sou gorda sim, e isso não é o maior problema do mundo. Depois que comecei a ver que todas as mulheres, até mesmo as mais esbeltas, são extremamente inseguras com seu corpo, me senti menos excluída e passei a enxergá-lo como um instrumento pra me locomover, instrumento de prazer, cuidado e orgulho. A gente vê muito pouco nosso corpo como uma máquina que habita nossa alma e vê muito como uma superfície de cartão de visitas.

Fernanda, 31
Minha relação com meu corpo é um desafio. Tenho 31 anos, carioca, praieira, emprego bacana, gente boa, até aí parece tudo maravilhoso! Meu calcanhar de Aquiles está no corpo de brasileira que desde cedo a gente aprende a odiar e condenar. Já fiz todos os tipos de dieta e programas de emagrecimento, perdi a conta de quantos consultórios de nutricionistas, endócrinos e etc. eu já estive. Sem contar o envenenamento com remédios fortíssimos que só garantiam mesmo o “efeito ioiô”. É muito cruel o que nossa mente é capaz de fazer nos condenando por estar fora de um padrão imposto. Hoje ainda estou num processo de descobrimento, passei por mudanças significativas que estão ajudando a me aceitar e a viver bem, leve, com saúde e sem cobranças infundadas!

Mariana, 30
Fui magrela durante a infância e adolescência, mas perdi esse título logo que entrei na faculdade e saí da casa dos pais. Nunca fui neurótica com meu corpo, nunca fiz academia, mas gosto de praticar determinados esportes apenas pelo prazer em praticar. Também nunca fiz dietas loucas e sempre comi de tudo, tanto comidas saudáveis como porcarias. Agora estou com 30 anos e um bebê de 11 meses. Na minha gravidez, engordei 22kg. Obviamente agora tudo mudou. Apesar de ter perdido praticamente tudo (cerca de 20kg) logo nos 6 primeiros meses, o corpo está totalmente diferente, muito flácido. Como ainda amamento, a fome é grande e não pretendo ter nenhuma restrição alimentar até desmamar. Mas espero poder voltar à forma um dia.

Fernanda, 32
Comecei a fazer dieta com 10 anos. Desde de então, nunca parei de contar calorias. Eu amo comer, amo cozinhar. Nos últimos anos passei a me alimentar muito melhor, mas também ganhei peso. Trabalho todo dia com a aceitação de que o meu corpo não é o mesmo de 10 anos atrás. Tenho certeza que como melhor hoje do que comia ontem, mas em períodos de estresse eu exagero nas besteiras. Passei por uns problemas que me fizeram descontar minha frustração na comida e agora tento realinhar minha alimentação. Não penso em voltar ao peso de 10 anos atrás, só penso em perder o excesso que me faz sentir como se eu tivesse inchada.

Tatiana, 30
Minha relação com comida sempre foi algo complexo! A luta pelo corpo perfeito e o peso ideal faz que sempre eu coma algo e me sinta culpada! Hoje mantenho meu peso através de exercícios físicos constantes com ajuda profissional e tento me alimentar de maneira saudável. Nos momentos de ansiedade costumo exagerar nos carboidratos e açúcares, mas de modo geral tento manter o equilíbrio alimentar. E a luta contra balança acredito eu que será pro resto da vida.

Bruna, 35
As partes do meu corpo que sempre me fizeram não gostar dele do jeito que é são a barriga e o bumbum. Este último, grande demais, cheguei a esconder do jeito que podia. Sempre me achei gordinha. No entanto, hoje olho para trás e vejo que passava longe de ser de fato gorda, só não era tão magra quanto minha irmã mais velha (sempre motivo de comparação) e minha prima mais próxima entre outras. Hoje tenho um corpo de quem já gestou uma vida. Talvez as pessoas não notem as diferenças que eu noto, mas minha barriga é diferente hoje. Não muito, mas eu reconheço as novas curvas. E sou grata por isso, sou feliz por ter tido a oportunidade de ter carregado meu filho no ventre. Pela mesma causa hoje minhas mamas são também diferentes, mas de novo sou feliz por ser alimento para meu filho. Meu bumbum segue aí, nem tão firme e nem tão forte, mas bem menos acanhado do que já foi um dia!

Bianca, 30
Sempre tive as pernas exageradamente (!!) grossas e a barriga chapada. Isso fez com que eu nunca entrasse de cabeça no mundo dos regimes e dietas. Por outro lado, sempre tive uma alimentação saudável (a melhor herança dos pais), gosto de verdade de verduras, legumes e frutas, nunca fui de comprar carne pra abastecer a dispensa. Foram mudanças muito naturais conforme fui tendo mais conhecimento e autonomia na vida. Ao mesmo tempo sou uma curiosa gastronômica e amo gordices, então me permito comer o que tenho vontade e acho que nunca irei banir nenhum alimento por completo da minha vida. Como boa libriana, estou sempre em busca do equilíbrio entre saúde x aceitação x corpo “perfeito”. Já me incomodei muito com as estrias  e hoje tenho amor por elas. A relação com a celulite sempre foi mais fria, às vezes odeio o que vejo no espelho e direto sou escrava de cremes, drenagens, shorts mais compridos e cruzadas de perna mais atentas. Mas tento não pender para o radicalismo e não deixar que essa preocupação defina quem eu sou ou me impeça de viver e comer as delícias da vida.

Caroline, 30
Quando nova sempre fui muito magra, daquelas que não tinha bunda. Isso nunca foi um problema muito grande pra mim. Com o passar do tempo, o corpo foi mudando. A bunda foi aparecendo, aquela famosa "bordinha de catupiry" na barriga foi dando 'oi'. O  número da calça passou do 36 para 40/42. Até os 30 anos nunca tinha me preocupado com nada que comia, se tava a fim de comer hambúrguer com fritas no almoço encarava numa boa. Acho que depois dos 30 passei a encarar a comida de forma diferente, mas não como algo ruim, passei apenas a dar mais importância aos nutrientes e tô numa fase de reeducação alimentar. E acho que, assim como a maioria das mulheres, eu tenho fases. Tem dias que eu me acho mais ou menos gordinha, tem dias que acho que a celulite tá um pouco demais, daí escolho usar um vestido longo. Também confesso que já corri pra uma clinica de estética pra fazer tratamento contra celulite. E no mais vou levando a vida e aprendendo que quem tem que gostar do meu corpo sou eu. 

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