Vamos falar dos transgênicos?

17 de setembro de 2018
Demorou, mas aqui está. Podia ter publicado essa receita há décadas, mas queria aproveitar o milho pra falar de transgênicos. Achei que fosse ser rápido, mas comecei a estudar, estudar mais, depois inventei de ler artigos, ir atrás da lista dos deputados que votaram a favor da PL pelo fim da rotulagem dos transgênicos, e esse post virou uma novela.

Entrei em crise. Fiz um post imenso, cheio de gráficos e links de pesquisas, de reportagens, que levou dias. Aí repensei. Acho que estamos todos cansados de tanta informação nesse período eleitoral e um post mais enxuto, com uma linguagem menos pesada, pode chegar a mais gente! Foi isso que fiz então.

PRA COMEÇO DE CONVERSA

O que são os transgênicos?
São seres vivos que tiveram seu material genético modificado artificialmente, ou seja, pelas mãos de um homem, da tecnologia. No Brasil, os maiores representantes dos transgênicos são a soja, o milho, o algodão e a canola. Isso quer dizer, em linhas gerais, que você está comendo uma pamonha bem diferente da que a sua avó comia. Ela não foi feita a base de uma espiga de milho que nasceu de uma semente natural.

Quando começou esse negócio?
O primeiro alimento que passou por esse processo e chegou ao supermercado foi o tomate. Isso aconteceu em 1994, nos Estados Unidos. A justificativa da empresa criadora do tomate modificado foi que ele demoraria mais pra estragar.

Qual é a situação no Brasil?
Segundo o relatório mais recente do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações Agrobiotécnicas, de 2017, a nossa situação atual é essa: 96, 5% da soja; 88,4% do milho e 78,3% do algodão produzidos no Brasil já são transgênicos. Quem aprova o uso dessas sementes por aqui é uma comissão do Ministério da Ciência e Tecnologia, chamada CTNbio. Até julho de 2017, esse grupo já autorizou 67 plantas transgênicas para cultivo no país. 

Por que a gente deve se preocupar com esse assunto?
Primeiro, porque ele envolve 3 temas importantíssimos pro planeta.  1) economia: investir em transgênicos significa deixar a alimentação de países do mundo inteiro reféns de 6 empresas donas das sementes, que lucram absurdamente para fornecê-las. 2) fome: os defensores dos transgênicos argumentam que eles são a solução pra fome mundial. 3) saúde pública: ainda não sabemos o impacto que esses alimentos geneticamente modificados podem causar pra saúde porque é um assunto muito novo, ainda não deu tempo de termos evidências científicas.

O que já se sabe sobre esse assunto no Brasil? 
A Embrapa e os reis da soja defendem que as sementes transgênicas são a salvação das lavouras. Espie o posicionamento da Embrapa aqui. Do outro lado, há ambientalistas e pesquisadores que argumentam que os transgênicos tendem a causar um grande desequilíbrio no meio ambiente, além de não ser tão benéfico para o produtor rural. Como mostra essa pesquisa da Unicamp. A toxicologista da Fiocruz Karen Friedrich, nesta reportagem da BBC Brasil, defende outro ponto importante: que os transgênicos não diminuíram o uso de agrotóxicos, como muita gente diz por aí. Pelo contrário. Em geral, as sementes transgênicas são vendidas em combo, em parceria com os defensivos.


De onde vêm as sementes transgênicas?
Esse é um dos principais pontos levantados pelos pesquisadores que criticam a transgenia. São poucas empresas no mundo que fabricam essas sementes. E olhe que interessante: são as mesmas empresas que produzem os agrotóxicos. São elas: as alemãs Bayer e Basf, as americanas Dow Chemical, DuPont e Monsanto, e a suíça Syngenta. Juntas, essas 6 empresas são donas de 66% do mercado de sementes transgênicas e 76% do mercado de agrotóxicos. Então funciona assim: quando a gente compra essas sementes pras lavouras brasileiras, a gente tá patrocinando esse monopólio. 


Tem países que proíbem o plantio de sementes transgênicas?
Sim. França, Alemanha estão entre os 19 países da União Europeia que baniram os transgênicos da agricultura. 


O que é o Projeto de Lei 4148/2008, também chamado de PL da rotulagem dos transgênicos?

Qualquer produto industrializado que tenha algum alimento transgênico na composição, como o milho num pacote de salgadinho, precisa ter aquele selo amarelo, com um triângulo e o "t" dentro na embalagem. Isso vale desde 2003. É uma forma de dizer ao consumidor o que ele tá comprando. Mas, o Projeto de Lei 4148/2008 quer acabar com a obrigação desse selo. O projeto já foi aprovado na Câmara dos Deputados e agora aguarda votação no Senado. Quer saber detalhes desse projeto, espia aqui.

Como cada deputado votou?
Quem votou SIM, votou pra gente perder o direito de saber o que estamos comprando! Pra saber o voto de cada deputado, espia esse link. A lista está organizada por partidos políticos. Ah! Inclusive tem candidatos à presidência nessa lista.

PRA SABER MAIS

Esse compilado pode parecer superficial, mas a ideia desse espaço não é ser uma revista científica, né? Eu sou jornalista, não posso fazer muito mais do que reunir informações a partir de fontes minimamente confiáveis e resumi-las. Se você já costuma ler sobre esse assunto, recomendo os seguintes materiais pra aprofundar mais os teus conhecimentos.

- Essa é a lei brasileira que regulamenta o uso de sementes transgênicas.
- O documentário "O mundo segundo a Monsanto" é obrigatório pra todo mundo que se interessa em saber o que come.
- Nesse relatório, em inglês, a Organização Mundial de Saúde responde a dúvidas sobre os transgênicos.


RECEITA - Broas de milho com resíduo de leite de coco - R$ 4,58


Mais uma vez fica a comprovação de que preciso de um curso de fotografia de comida.

Como eu, Juliana, não confio em alimentos transgênicos, tento comprar produtos naturais sempre que posso. No caso da receita de hoje, usei uma farinha de milho orgânica e não transgênica que ganhei de uma amiga. Ela trouxe diretamente de um assentamento do MST no Rio Grande do Sul.

O que amo nessa receita é que ela leva o resíduo de leite de coco, que sempre tenho toneladas em casa, já que faço leite desse fruto toda semana. Rendeu 30 mini broas e elas podem ser congeladas ainda cruas por até 3 meses.

Ingredientes
⠂1 xícara e 1/2 de farinha de trigo
⠂1 xícara e 1/2 de fubá
⠂1 xícara de açúcar demerara
⠂3/4 de xícara de resíduo de leite de coco bem sequinho (escorra bem!)
⠂1/2 xícara óleo de girassol
⠂1 xícara de leite vegetal ou água
⠂1 pitada de sal
⠂1 colher de fermento pra bolo (ou 1 colher de sopa de vinagre de maçã + 1 colher de café de bicarbonato de sódio)
⠂canela a gosto (opcional)

Observação: já fiz a mesma receita com farinha de aveia em vez de farinha de trigo. O sabor fica o mesmo, mas a textura fica meio pegajosa. Parece uma bolachinha, não broa. A substituição fica a teu critério.

Como eu fiz

Pré-aqueci o forno por 15 minutos. Misturei os ingredientes secos primeiro, depois os líquidos. Por último, o fermento. Fiz bolinhas pequenas e gordinhas com as mãos e coloquei numa assadeira untada. Dei uma leve achatada em cada uma com a colher. Salpiquei canela por cima e levei pro forno por 35 minutos a 200 graus.

Observação: quando tirar do forno, vai parecer que as broas ainda tão meio molengas. Mas pode confiar que elas vão endurecer ao esfriar. Não deixa muito tempo no forno porque vão ficar duras feito pedras! Eu já fiz isso várias vezes, inclusive.

Ah! Como muita coisa se perde nas redes sociais eu comecei a mandar as novidades do Comida Saudável pra Todos por e-mail. Vêm alguns cursos em SP por aí e mais algumas novidades pro Brasil inteiro. Não quer perder? Preencha esse formulário com os teus dados. 

2 receitas pras eleições

5 de setembro de 2018
É época de eleições. Não sei se é coisa da minha cabeça, mas me parece que a proximidade do encontro com a urna eletrônica nos torna ainda mais descrentes na política. 

Muita gente acha que é só mais um ano de eleição. Cidades sujas, coronéis impondo votos, os velhos barões comprando o eleitorado com pão ou promessas, além daquela propaganda chatíssima do Tribunal Superior Eleitoral fazendo de conta que todo mundo tá animado com a "festa da democracia". 

E sabe o que mais me incomoda nesse período? O quanto a galera xinga o próprio país, os próprios vizinhos. Pelo discurso desse povo parece que só a gente tem políticos corruptos no mundo, só a gente tem uma democracia frágil, direitos sociais negados, impostos altos demais. Pelo amor da Nossa Senhora da Brasilidade, teremos esse insuportável complexo de vira lata até quando?

Mini hambúrgueres de feijão fradinho com macaxeira e vinagrete de caju ou "a brasilidade em forma de comida".

Pra mim, não adianta só fazer reforma política e votar em gente que realmente nos representa. Acho que a gente devia voltar atrás, sabe? E começar a fazer uma terapia de aceitação coletiva. A gente precisa, mais do nunca, entender quem somos e aceitar essa identidade. 

Não podemos negar e desprezar mais as nossas raízes indígenas, a influência da cultura negra, a importância das pessoas do campo. O interior não vale menos do que a cidade grande. A periferia não vale menos que o asfalto. O sudeste não vale mais do que um país inteiro. 

E falando como uma integrante do lado de baixo do Brasil, onde tem muita gente que se acha superior aos outros, fica a dica: precisamos parar com a palhaçada de diminuir os nordestinos. 

Recebi uma amiga potiguar em casa há umas semanas atrás. No primeiro uber que a amiga entrou, o motorista já foi logo perguntando se era nordestina e se tinha vindo tentar a vida em Santa Catarina. Como se nordestinos não fossem autorizados a fazer turismo pelo Brasil. 

E agora tô aqui, escrevendo esse texto sentada numa cadeira de balanço de uma casa no interior do Rio Grande do Norte. Lugar que sempre sonhei em conhecer. Vim visitar uns amigos que moram em Santa Cruz e aproveitar pra conversar com a galera daqui sobre política. Na verdade mesmo, vim também pelo caju, feijão verde, mangaba, cuscuz e goma de tapioca fresca. 

A culinária do Nordeste, com as peculiaridades de cada região, reúne as qualidades que mais aprecio na alimentação: é simples, autêntica, sem raio gourmetizador. Aliás, o tempero é tão bom, em geral, que não precisa de técnica rebuscada, ingredientes caros. Isso que é comida de verdade pra mim.

Já conhecia o feijão verde, dá pra encontrar em Floripa, mas aqui tem algum truque que preciso aprender. Eu coloco o feijão verde na boca e ele desmancha. É tipo uma chuva de prazer!!! E melhor: parece que tem algo amanteigado de recheio. Fui perguntar pras pessoas que fazem e elas só cozinham com água, sal e coentro. Costumam servir sem caldo. 

Fui pra Baía Formosa e Natal, pensando que seria muito difícil comer algum petisco na beira da praia que não fosse fruto do mar. Mas lembrei que estou na terra da macaxeira e aqui também se saúda muito essa belezura! Me senti em casa. E tô comendo macaxeira frita todos os dias, às vezes acompanhada de um copo de cerveja, às vezes de água de coco. Não tô 100% de férias aqui, porque sigo trabalhando a distância, mas viajar merece esses luxos, né?

Também incluí outros ingredientes na minha orgia gastronômica no Nordeste. Tô comendo muito cuscuz de milho (que já tentei fazer em casa mil vezes e não fica igual ao que como aqui), tapioca, tomando suco de mangaba e, obviamente, me entupindo de caju fresco! Ainda não tá na época, então o fruto do cajueiro continua um pouco caro e não tá super doce. Mas pra catarinense aqui, já é o p-a-r-a-í-so. Olha, não sei se tem outra fruta no mundo que ganha do caju em suculência. Sério. E também tem a castanha, que tô comendo todos os dias, feito uma loba.

O caju é um ótimo substituto pro peixe em receitas, principalmente nas que levam caldo, como a moqueca (receita aqui). Também dá pra fazer ceviche com ele, bife (só cortar e grelhar), pode empanar ou colocar no recheio de pastel, tortas, empadas. 

Já tava acabando a nosso estoque de caju aqui na casa dos meus amigos, onde tô hospedada junto com Lucio, mas sobraram alguns. Tava na minha vez de fazer almoço. E ontem fomos conhecer um sítio que produz alimentos sem agrotóxicos e voltamos pra casa com muita macaxeira, salsinha, tomate cereja, hortelã e tal. Resolvi fazer uma comida leve, que usasse o que a gente tinha na geladeira e que, obviamente, lembrasse que tô no Nordeste. 

Então dessa mistura surgiu um vinagrete de caju e uns mini hamburguinhos facílimos, de feijão fradinho com macaxeira. Queria ter feito com feijão verde, mas a despensa dos amigos aqui tinha toneladas de feijão fradinho esperando pra ir pra panela. Então vamos lá:

Mini hamburguinhos
1 xícara de feijão fradinho cozido (ou outro feijão)
1 xícara de macaxeira cozida
1 cebola 
salsinha ou coentro a gosto (coloquei quase 1 xícara)
1 colher de café de cominho em pó
sal a gosto

Observação: lembra de deixar os feijões de molho antes de cozinhar, viu? Pelo menos por 12h. 

Como eu fiz
Só misturei tudo no processador até formar um creme homogêneo.  Se você não tiver processador, basta bater todos os ingredientes no liquidificador, com exceção da macaxeira. Mistura ela separadamente, depois de amassar bem com um garfo. Acertei o sal. Coloquei a massa pra gelar um pouco na geladeira, cerca de 15 minutos, pra facilitar o molde com as mãos. Pré-aqueci o forno, moldei a massa em formato de minúsculos hambúrgueres e coloquei numa assadeira untada. Deixei no forno por 25 minutos. Se quiser que fique crocante dos dois lados, é só virar cada um na metade do tempo do forno. Eu não tive paciência. Pode grelhar na frigideira ou fritar também. 

A massa fica assim!
Observação: Essa é uma ótima opção pra levar na marmita porque continua delicioso mesmo frio. Pode congelar também, antes de assar, por até 3 meses. 

Vinagrete de caju ou manga
1 caju grande picadinho em cubos ou 1/2 manga
1/2 xícara de tomate cereja ou qualquer tomate picados em cubos pequenos
1 cebola roxa pequena
hortelã ou manjericão a gosto (usei 1/4 de xícara)
1 colher de sopa de pimenta biquinho picadinha
sal a gosto
azeite a gosto

Sério! Você precisa comer isso! A ideia é comer junto com o hambúrguer, ou seja, os dois na mesma garfada pra rolar a explosão de sabores.
Como eu fiz
Juntei todos os ingredientes já picadinhos numa cumbuca e deixei na geladeira pegando gosto por 30 minutos antes de servir. Dura uma semana na geladeira, mas duvido que vá sobrar. 

Por tudo isso e mais um pouco,

Obrigada, Nordeste. 

A sutil arte de refogar matos

19 de agosto de 2018
Comecemos com um pedido de desculpas. Houve uma certa ausência de novos posts por aqui. Só criei vergonha nas fuças mesmo porque hoje, dia 19 de agosto, o blog do Comida Saudável pra Todos completa 1 ano

Admito que tá bem mais divertido do que imaginava e dá bem mais trabalho do que imaginava. Então tô dando uma freada (sabe quando a onda do mar vem e a gente tenta não ser derrubada?) pras coisas aconteceram como devem ser: bem feitas e bem pensadas. 

Tenho recebido alguns convites para dar oficinas e palestras pelo Brasil. Parece um pouco assustador, mas já vivi coisas como dar aula ouvindo tiros de fuzil ou ser mulher e andar à noite em ruas pouco movimentadas. Pensando nisso, tenho aceitado os convites. 

Também tão rolando uns convites de marcas para fazer publicidade. Rolam uns convites pra divulgação de evento ou produto em troca de coisas (chocolate, torrada...), quando deveriam pagar em dinheiro, tendo em vista que publicidade é trabalho. Acho uma grande sacanagem e me recuso. 

Também rolaram uns convites de umas marcas que vendem umas coisas que me recuso a colocar na boca e me recuso a recomendar que os outros coloquem. Continuo pobre, porém com dignidade. 

Enfim. Vou aproveitar a onda de sinceridade pra admitir que tem outro motivo pro meu sumiço por aqui: tô de saco cheio de receitas. Passo horas procurando inspirações e, quando vou cozinhar, não sigo uma só instrução. Na verdade, tenho cozinhado e comido coisas cada vez mais simples, que não exigem porções exatas de nada. 

Baseada nessa fase rebelde, trago a dica deste post, que é a minha mais nova obsessão na cozinha: refogar matos. Fiz aniversário no mês passado e ganhei um guia de identificação de PANCs (plantas alimentícias não convencionais) e desde então tenho saído na rua, feito uma louca, querendo colocar tudo o que é verde pra dentro do estômago. Como ainda me resta um pingo de bom senso, vou aos poucos, pra saber direito o que tô comendo. 

Mas, ao contrário da galera que defende a comida crua, eu sou do time que aplaude a descoberta do fogo e prefere assar, grelhar, saltear e refogar tudo, até alface. E quem me fez pensar nessa ideia maravilhosa de comer salada quente foram os livros sobre sobre medicina chinesa. 

Os chineses acreditam que o corpo digere melhor as comidas quentinhas. E também tem o fato de que, quando refogamos, as folhas verdes murcham horroooores, o que faz com que a gente acabe comendo em mais quantidade. Por exemplo: se for comer uma salada, ninguém come mais do que 5 folhas de rúcula, certo? Agora, quando refogada na panela, dá pra comer um maço inteiro. Eu, inclusive, já comi uma acelga inteira sozinha, salteada com alho, pimenta e gengibre. 

De qualquer forma, mesmo que você seja um adorador da salada crua, não custa variar o consumo, né? Até pra não enjoar mesmo. 

Ando tão viciada nesse tipo de comida que faço até de lanche da tarde às vezes. hahahaha Pode zoar. Vontade é vontade. Não tô de dieta. Não tô compensado algo que comi ontem. Apenas tenho desejo de mato refogado, faço e lambo os beiços. É uma comida leve, quentinha, que entra no estômago como se fosse um carinho. Recomendo!

Em geral, as folhas verdes têm o amargo como sabor predominante. Segundo a terapeuta ayurvédica Laura Pires, no livro Nutrindo os sentidos, esses alimentos amargos são ótimos pra quem tem facilidade de ganhar peso, colesterol alto e retenção de líquido. Achei maravilhoso saber disso. 

Mas vou dar algumas dicas importantes antes de tudo:

⠂Não é todo mundo que gosta ou está acostumado com o sabor amargo. Se for o seu caso, não esqueça de acrescentar umas gotinhas de limão no final do preparo das folhas refogadas. 

⠂Se ainda assim achar muito amargo, recomendo adicionar uma colherzinha de melado de cana (mel de engenho) no refogado.

⠂E a rainha das dicas é: rapidez no preparo. Não pode deixar as folhas murchando por horas. É coisa muito rápida. Assim que murcharem um pouco, espera 2 minutos e pronto. Já desliga e já serve. 

Vamos à receita.



Ingredientes pra esse refogado da foto (serve 4 pessoas)
⠂1 maço de almeirão 
⠂1/2 pé de alface 
⠂folhas a gosto de ora pro nobis ou outra PANC
⠂tomate cereja a gosto ou 1 cenoura ralada
⠂4 dentes de alho picadinhos
⠂1 colher de chá de gengibre fresco picado
⠂1/2 limão espremido
⠂sal ou gersal (sal de gergelim/receita no Instagram)

Observação: Pode brincar com os temperos. O importante é sempre começar com alho e finalizar com limão. Pode jogar pimenta dedo de moça picadinha, vinagre balsâmico, pimenta rosa, cebola, alho poró, orégano. Também adoro finalizar com cebolinha picada, mas dessa vez não tinha, ou gergelim. Pra turma que ama uma crocância, é um sonho imenso finalizar com sementes de girassol torradas. 

Observação 2: em vez do almeirão e do alface, pode fazer com rúcula, espinafre, agrião, taioba, escarola, acelga, mostarda, chicória, capuchinha, bertalha, serralha, folhas de cenoura, folhas de beterraba ou rabanete...

Como eu fiz
⠂Refoguei o alho e o gengibre no azeite. 
⠂Enquanto isso, piquei as folhas como se fossem couve.
⠂Joguei as folhas picadas na panela.
⠂Joguei o tomate cereja cortado ao meio
⠂Misturei tudo com uma colher e tampei.
⠂Esperei 2 minutos e desliguei o fogo.
⠂Finalizei com o gersal e as gotas de limão. 

Nessa outra versão, usei acelga + repolho roxo + cenoura ralada + ora pro nobis e finalizei com gergelim. 

Minha família não come vegetais!

25 de julho de 2018
Socorro. Recebo muitas mensagens de gente pedindo socorro porque alguém da família vive uma vida a base de lasanha congelada e não suporta nenhum tipo de vegetal. Também recebo muitos depoimentos de pessoas desesperadas porque os pais e irmãos consomem carne demais e não aceitam qualquer prato a base de legumes.

Achei esse tema tão pertinente e complexo que busquei a orientação da nossa nutricionista parceira do blog, a Débora Bottega. E a Débora destacou algo super importante: há casos que precisam ser acompanhados por um psicólogo ou, ainda, uma equipe interdisciplinar da área da saúde. Se a pessoa for resistente a qualquer tipo de mudança, não só na alimentação, não basta ir atrás de um nutricionista.

Mas antes de chegar nas questões que pedi pra Débora responder, gostaria de fazer um relato meu, já que sou um grande exemplo de transformação alimentar.

Minha casa sempre foi cheia de frutas e legumes, mas isso não me impediu de ter pavor de tudo o que fosse verde. Passei a infância comendo pouquíssimas frutas. Só encarava a sopa de legumes se fosse lisinha, com tudo batido no liquidificador. Tive até uma fase de não comer feijão. E me atracava em miojo, hambúrguer, nescau, balas, bolachas recheadas, nuggets.

Só fui descobrir que sabor tinha uma rúcula já adulta, na universidade. Senti vergonha por meus amigos comerem salada e eu não. Comecei a ver as atrizes famosas comendo legumes nos filmes e novelas e achei chique, queria aquilo pra mim também. E aí fui mudando. Saí de casa e passei a ir pra cozinha com mais frequência como forma de economizar dinheiro mesmo. Também ficava preocupada, pensando que não podia ficar doente estando a quase mil quilômetros de distância dos meus pais. Então deveria comer coisas saudáveis. Aí foi uma mistura de começar a ler, estudar, namorar um vegetariano, ter um primo viciado em livros sobre saúde, descobrir que minha mãe fazia uma berinjela maravilhosa, que eu podia matar as saudades de casa comendo tangerina. E cá estou eu, dormindo abraçada até com o jiló.

Então, se eu puder dar uma dica é: o maior gatilho pra mudança alimentar é a comida saborosa e bons exemplos por perto. Exemplos de pessoas que você admira. Ninguém vai mudar o paladar comendo aquele brócolis mole e sem sabor do restaurante a quilo.

Chame a família pra ir fazer as compras, preparar a comida, faça apresentações coloridas, tente versões mais saudáveis de pratos que a pessoa já goste. Meu primo Bernardo, de 12 anos, por exemplo, não morreu quando veio passar férias aqui na minha casa. Ele tem pavor de tudo o que é legume, mas comeu 4 hambúrgueres de berinjela de uma vez, amou o espaguete com molho branco de semente de girassol, me ajudou a fazer um risoto de beterraba e também devorou o prato. Não precisei de nenhum feitiço. Perguntei o que ele mais gostava de comer e adaptei. 

Risoto de beterraba do meu primo Bernardo, que costuma ter pavor de legumes. 


Outra dica é fazer versões caseiras de produtos industrializados, que não chegam a ser saudáveis, mas pelo menos não têm conservantes ou açúcar demais. Aqui no blog tem receita de achocolatado, ovomaltine, leite condensado e catchup caseiros. 

Também recomendo outras receitas daqui que podem ser mais facilmente aceitas por quem não está acostumado com vegetais: empadinhas, hambúrguer de berinjela, bolinhos de banana, tortinhas de maçã, pães de batata, arepa de milho e batapioca

Então vamos lá! Segue abaixo as dicas e orientações primorosas da nutricionista Débora Bottega sobre o assunto:

De onde vem essa dificuldade em ter uma alimentação mais saudável e comer vegetais que muitas pessoas têm?
Hábitos alimentares são complexos e formados ao longo de anos. Mudá-los pode se revelar extremamente simples para algumas pessoas, como se uma luzinha se acendesse. Para outras pessoas esse momento não chega e pode dar a sensação que é falta de força de vontade, muito mimimi. Porém, não cabe a mim, a qualquer profissional da saúde ou a você julgar, cabe dar apoio para quem quiser e da forma que a pessoa puder. 

 A formação dos hábitos alimentares começa na barriga da mãe. O sabor dos alimentos que a gestante consome e também a variedade desses sabores vai influenciar a formação de paladar da criança, tanto na gestação como durante o aleitamento materno. Depois disso, a introdução alimentar é fundamental. Hábitos formados durante a infância serão levados para a vida, tanto pela questão do sabor desses alimentos, do desenvolvimento da saciedade, como dos sentimentos envolvidos. 

Exemplos: aqueles que na infância recebiam os legumes liquidificados e tudo misturado, recebiam sim os nutrientes, mas não se acostumaram com o sabor, o aroma e a textura de cada um deles; alimentos forçados também são clássicos. Quem não conhece uma história de alguém que era forçado a comer determinado alimento ou comia para ganhar um prêmio? Se não comer a verdura não ganha a sobremesa... Acho que esses são os campeões de resistência. A questão econômica também pode estar envolvida. A pessoa que na infância só podia tomar refrigerante ou comer chocolate em ocasiões especiais porque os pais não tinham condição financeira de comprar, pode associar o consumo desses alimentos a momentos especiais na vida adulta ou ao seu próprio sucesso financeiro.

Nem sempre podemos identificar o motivo de uma pessoa ter dificuldade de introduzir novos alimentos e isso nem é o mais importante, mais importante é não julgar e saber que forçar ou achar que é frescura não vai auxiliar em um processo de mudança da alimentação. 

Enquanto nutricionista, achas que há formas de sensibilização e conscientização que podem ser eficazes nesses casos?
A sensibilização e conscientização podem auxiliar nesse processo, principalmente quando a decisão de mudar parte da própria pessoa. Existe, claro, uma tendência de pessoas próximas terem hábitos alimentares parecidos. Se dentro de uma família que todos comem muitos alimentos ultraprocessados um integrante quiser mudar, vai ser difícil convencer a maioria. Mas a persistência e o próprio exemplo provavelmente vão influenciar de forma positiva nas escolhas alimentares dos demais de forma natural.

Manter em casa alimentos saudáveis e consumi-los pode ser, nestes casos, uma das melhores formas de sensibilização. Recusar um fast food que todos estão consumindo sem críticas pode ter um impacto muito maior do que um discurso.


Enquanto nutricionista, acredito que a introdução de alimentos e o resgate de hábitos saudáveis são o começo, não na forma de cobrança, mas de forma prática, conhecendo a rotina da pessoa e auxiliando-a a descobrir formas disso acontecer.

Normalmente o que melhor funciona são as ideias que vieram da própria pessoa, não de mim. Estou ali para tirar suas dúvidas, ajudar a pessoa a entender algumas combinações e conceitos importantes para que ela própria tenha capacidade de decidir sua alimentação. A construção desses caminhos é mais eficaz do que a dieta perfeita que na verdade não existe e nunca dura. Quanto aos alimentos que de fato precisam ser limitados, gosto de trabalhar para encontrar um equilíbrio e ajudar a pessoa a identificar de que forma eles estão prejudicando sua saúde. Tem alimentos que nos deixam pesado, estufados, com dor de cabeça, refluxo, etc. Quando conseguimos associar o consumo de determinado alimento a uma consequência dessas, naturalmente o desejo por este alimento diminui, enquanto na proibição é mais comum o desejo aumentar. 

Algumas pessoas são resistentes não só a mudanças na alimentação, mas a mudanças em geral na sua vida, nestes e em muitos outros casos é possível que existam outros processos envolvidos e o acompanhamento psicológico se torna fundamental. Nutricionista e psicólogo são profissionais que acredito que, no mínimo, uma vez na vida todos deveriam ir.

Tens dicas de como introduzir novos alimentos e sabores?

Cozinhar é uma ótima forma. Quem cozinha acaba sendo mais aberto a experimentar. Reeducar o paladar é essencial. Para quem quer introduzir mais frutas na alimentação, diminuir o consumo de alimentos adoçados, sejam com açúcar ou adoçante, pode abrir caminho para entrada delas. Também recomendo experimentar diferentes formas de preparo e combinações, caprichar na apresentação, trocar ideais e experiências com pessoas que estejam passando pelo mesmo processo..

No caso das crianças, por exemplo, há dicas mais específicas que podem ajudar os pais a incluir alimentos mais saudáveis no cardápio?

Para as crianças, sem dúvida, o mais importante é o exemplo. Exemplo dos pais e de outras crianças da mesma idade. Quando mesmo assim houver resistência, recomendo levar a feiras, colocá-las para auxiliar na cozinha em receitas, na higienização das frutas e verduras. Também é importante não fazer chantagem. Outro ponto importante é oferecer à criança a alimentação da família. Não é interessante fazer preparações diferentes nem substituir refeições por lanches ou outros alimentos. Quando a criança perceber vai ganhar bolacha se não almoçar, provavelmente ela vai querer isso sempre e cada refeição vai ser uma briga.

Que estratégias tendem a ser pouco eficazes no geral?


Acredito que forçar pode aumentar a resistência. Da mesma forma: ameaçar, fazer chantagem, ofender ou diminuir alguém pelos seus hábitos. Lembrando que estimular e persistir é diferente de forçar. Uma criança pode precisar ser exposta dez vezes a um mesmo alimento para aceitá-lo. Se uma criança, sem vícios alimentares precisa dessas dez vezes, imagina um adulto!? Então para quem quer melhorar a alimentação e introduzir novos alimentos, saiba que o paladar pode mudar ao longo do tempo sim.

Omelete de feijão - R$ 0,76

16 de julho de 2018
Já falei algumas vezes aqui que ainda não sou vegana, mas tenho cada vez menos tolerância ao ovo. Cresci comendo omelete ou ovo mexido ou cozido no café da manhã, almoço e janta, mas o sabor parou de me cair bem, sabe? 

Por mais que o ovo seja um alimento democrático, fácil de encontrar e muito barato, há uma grande desigualdade aí. As pessoas mais abastadas conseguem pagar R$ 15 numa dúzia de ovos orgânicos caipiras, enquanto a maior parte da população faz omelete, bolos e fritadas com ovo de granja, que veio de uma galinha alimentada com milho e soja transgênicos, criada em condições insalubres e desumanas. Não acho que essa situação seja justa, tampouco acho viável a possibilidade de criar galinhas soltas pra alimentar 212 milhões de brasileiros. 

Por isso, tenho investido em receitas sem ovos, que sejam democráticas e saborosas. Já vi muita gente fazendo o tal omelete de grão de bico ou grãomelete. É basicamente uma panqueca feita com a farinha de grão de bico ou a leguminosa cozida, que leva água e uns temperos. Nunca fiz, porque tenho comprado pouco grão de bico, mas dizem que é maravilhosa. Fiquei com isso na cabeça e decidi testar várias receitas, mas usando o feijão fradinho, que é o primo pobre do grão de bico, ou seja, rolou um feijãomelete

Só eu achei que ficou A COISA MAIS LINDA? 

Aqui em Floripa consigo comprar feijão fradinho por R$ 6,90/kg, enquanto o grão de bico custa a partir de R$ 12. É praticamente o dobro do preço. Então fica a seu critério. Pode fazer com a leguminosa que preferir. Já vi receitas no Youtube de gente que fez com lentilha ou feijão preto, inclusive, mas não testei ainda. Se quiser arriscar, me avisa se deu certo depois?

Acho a ideia de conseguirmos uma versão de omelete vegetal maravilhooooosaaaaa! Primeiro, pela praticidade. É inevitável como é prático aquele negócio de quebrar 2 ovos e jogar numa frigideira aquecida. E como dá pra tirar uma refeição disso aí. A versão com o feijão fradinho não é tããão rápida assim, mas é fácil e super vale o investimento também pelo preço!!! Sai mais barato do que se fosse com ovos! 

Se quiser transformar o omelete de feijão num almoço ou jantar mais elaborado, é só completar com uns legumes na massa ou direito na frigideira. Fiz uma versão com brócolis picadinho, pimentão vermelho e raspas de limão que ficou um escândalo de tão boa! 

Nessa versão, acrescentei brócolis, pimentão vermelho e raspas de limão na massa, quando já tava na frigideira. 

Não esquece uma coisa importante: as leguminosas, como o feijão fradinho, sempre precisam ser deixadas de molho!!! Isso faz com que sejam mais bem digeridas e o ferro seja mais bem absorvido pelo organismo. No caso dessa receita, também ajuda a massa a ficar mais lisinha. Dúvidas sobre esse assunto? Clica aqui

Vamos lá? A receita rende 3 omeletes e custou R$ 0,76.

Ingredientes 

⠂1/2 xícara de feijão fradinho cru (de molho na água por, no mínimo, 12h) ou feijão branco ou grão de bico
⠂3/4 de xícara de água filtrada
⠂4 colheres de sopa de aveia em grãos (qualquer tamanho)
⠂1 pitada de cominho em pó
⠂1 raminho de folhas frescas de hortelã ou manjericão ou orégano ou alecrim ou tomilho ou salsinha ou cebolinha
⠂1 pitada de cúrcuma em pó 
⠂1 dente de alho descascado (opcional)
⠂1 cebola picadinha
⠂sal a gosto (vou provando e acertando)

Observação: uma seguidora me deu uma dica ótima, que já testei e aprovei. Colocar 1 colher de sopa de polvilho azedo no lugar de uma das 2 colheres de aveia. A massa fica com mais estrutura, mais firme. 

Observação 2: Quero deixar uma outra sugestão de receita, da minha musa inspiradora Sandra Guimarães, do blog Papacapim. A Sandra tem uma receita de omelete de grão de bico que é incrível. Eu fiz a receita dela, que tá aqui, excluindo o alho e trocando o grão de bico por feijão branco. 

Como eu fiz

1. Deixei o feijão fradinho de molho por 12h. Descartei essa água, lavei bem os grãos e coloquei no liquidificador. 
2. Acrescentei a água e bati bem por 2 minutos. Só depois é que acrescentei os outros ingredientes, com exceção do alho, da cebola e da erva fresca. A massa tem que ficar homogênea, ou seja, não pode ficar rala com os pedaços de feijão aparentes. 
3. Numa tigela, misturei essa massa com o alho, a cebola e as ervas frescas picadinhas. Misturei bem. 
4. Numa frigideira antiaderente, joguei o equivalente a uma colher de chá de azeite e esperei esquentar. 
5. Com a frigideira quente, peguei uma concha bem cheia da massa e joguei na frigideira. Espalhei bem com uma colher pra massa ficar lisinha. Se quiser acrescentar outros legumes, dê uma refogada neles antes de despejar a massa por cima. Tampei a frigideira pra massa cozinhar por inteiro. 
5. Esperei as laterais ficarem mais escuras, tostadinhas e firmes e virei. Deixei mais uns 3, 4 minutos do outro lado sem precisar tampar de novo. Pronto! Pode comer com pastinhas também. Como o requeijão de inhame ou a ricota de gergelim

Observação: a massa dura uma semana na geladeira, mas recomendo comer em dois dias, no máximo, porque qualquer parente do feijão fica fermentando sem parar, o que vai dificultando a nossa digestão. Se sobrar massa e não for comer no dia seguinte, já congela. 

Os leites vegetais mais baratos

4 de julho de 2018
Sempre fui bezerra. Mamei até os dois anos, cresci tomando toneladas de leite de caixinha com nescau e, quando cheguei na vida adulta, me achava a musa fit tomando leite desnatado com toddy light. Só que leite de caixinha não é leite. É uma água com coisas. E mesmo se o leite for orgânico, vindo de uma vaca criada solta na Dinamarca, ele ainda é inflamatório e piora muito o quadro de quem sofre com as "ites": sinusite, rinite, faringite, além das alergias como um todo e da acne. O nosso intestino também não foi feito pra digerir o leite. E ainda tem a questão da vaca, que não deveria ser escravizada pra nos servir, certo? 

Por mais que as vacas só tenham chegado no Brasil com os colonizadores europeus, é inegável que o leite já faz parte da cultura gastronômica brasileira. E você não precisa esquecer todas as receitas de pudins, bolos e lasanhas que trazem lembranças maravilhosas, basta adaptá-las a versões com leites vegetais. 

Os mais saborosos do mundo, sem dúvida, são aqueles feitos a base de castanhas, de caju principalmente. Mas não cabem no meu orçamento, o que acredito que deva acontecer também pra maior parte da população brasileira. 

Por isso, vou citar aqui as opções mais baratas: de coco, arroz, amendoim, inhame, aveia, gergelim e semente de girassol. Você pode misturá-los entre si também e ir criando o seu preferido. Aqui em Floripa tem cafeteria que mistura leite de amêndoas com semente de girassol pra baratear o preço, por exemplo. 

Um aviso importante: não existe um tipo leite vegetal que substitui perfeitamente o leite de vaca em todas as receitas. Cada um é mais adequado pra um tipo específico de preparação, como explico no fim desse texto. O leite de gergelim rende um molho branco sublime, mas ficaria intragável num brigadeiro. Entende?

O leite da foto é o de inhame, uma das opções mais baratas. 

Como fazer

Em geral, a medida que uso é a universal: 1 xícara da base que escolher com 4 xícaras de água. A quantidade de água é que vai medir a cremosidade do leite. Vá adaptando ao seu gosto. Pra fazer molho branco pra macarrão, por exemplo, eu reduzo um pouco a quantidade de água pro creme ficar mais grosso. Se usar água quente, teremos um leite mais encorpado.

⠂Leite de coco - o melhor de todos

1. Basta bater no liquidificador 1 xícara de coco ralado fresco ou coco desidratado sem açúcar com 4 xícaras de água filtrada.
2. Aí é só coar com uma peneira ou voal e o leite tá pronto! Não esqueça de guardar o resíduo. Pra mim, essa é, de longe, a melhor versão de leite vegetal. 

Dica: Se você tem dificuldade de abrir o coco seco, espia esse vídeo.

Quando o coco seco tá muito caro, compro os flocos a granel mesmo. 
Não esqueça de conferir se é sem açúcar, adoçantes e conservantes, tá?

⠂Leite de arroz

1. É só cozinhar 1 xícara de arroz de sua preferência normalmente, mas sem sal, e bater no liquidificador em 2 etapas, pra não transbordar e sujar tudo. 
2. Primeiro, bata metade do arroz com 2 xícaras de água, coe e reserve. 
3. Aí bata a outra metade com mais 2 xícaras de água filtrada, coe e pronto. Guarde o resíduo. Tem gente que faz com arroz cru, eu já testei e não gostei muito. Acho que fica ralo demais. 

Dica: qualquer leite a base de grãos, como arroz ou aveia, vai render um líquido mais grosso do que as outras opções. Se você bater muito tempo no liquidificador, vai engrossar demais e virar um mingau. É coisa rápida, bem menos de 1 minuto, ok? 

⠂Leite de amendoim 
Você pode fazer o leite com o amendoim cozido, cru ou torrado, desde que sempre sem sal e sem casca ou pele, ok? Já fiz com amendoim torrado e com pele, mas não fica branquinho e achei o gosto meio amargo. 
1. Nas 3 possibilidades, é bom deixar essa leguminosa de molho por pelo menos 8 horas, depois descartar essa água. Lembra que o amendoim é da família do feijão? Tem que reduzir os fitatos pra facilitar a digestão e absorver melhor os nutrientes. Na dúvida sobre qual opção escolher, comece pelo leite de amendoim torrado, ideal pra receitas doces: cobertura de bolo, leite condensado, tomar com vitaminas, café ou achocolatado. 
2. Basta bater 1 xícara do amendoim com 4 xícaras de água filtrada. 3. Coar e reservar o resíduo. O amendoim cru tem um sabor bem mais neutro, fica parecido com o de arroz. Rende uma ricota maravilhosa também. E o leite a base de amendoim cozido fica mais encorpado, e é ideal pra molhos brancos, cremes, receitas salgadas no geral. 

⠂Leite de inhame
1. Basta cozinhar o inhame com casca no vapor e tirar a casca com as mãos depois que esfriar. Se cozinhar na água, o inhame vai soltar aquela baba, que nem todo mundo gosta.
2. E bater 1 xícara de inhame com 4 xícaras de água filtrada. É uma das minhas opções preferidas porque não gera resíduo. Dá pra fazer com inhame cru também, mas pode causar coceira nas mãos ou na boca por conta do oxalato de cálcio, uma substância presente em muitos vegetais. Eu nunca tive esse problema, mas tem gente que tem. Se quiser saber mais sobre esse assunto, espia esse post da diva Sonia Hirsch. 

⠂Leite de gergelim ou semente de girassol  - rico em proteínas
1. Mesma coisa que o amendoim: tem que deixar de molho por 4 horas, pelo menos, pra neutralizar os fitatos. Não é obrigatório (quando esqueço, eu faço assim mesmo), mas é melhor deixar, tá?Não esqueça de descartar a água do demolho. 
2. Mesma coisa dos outros: bater 1 xícara dos grãos com 4 xícaras de água. 
3. Coar e armazenar o resíduo. 

⠂Leite de aveia
1. Deixe de molho por pelo menos 4 horas e descarte essa água depois. 
2. Bata 1 xícara de aveia (flocos pequenos, médios ou grossos) com 4 xícaras de água filtrada. Para um creme BEM grosso, pra fazer brigadeiro, por exemplo, ou pra gratinar coisas no forno, não precisa nem coar. Para um leite normal, é melhor coar. 
3. Reservar o resíduo. 

Como armazenar

Todos os leites vegetais devem ser guardados numa jarra com tampa na geladeira. Duram de 3 a 5 dias. Depois de um tempo refrigerado, o líquido vai se separando, principalmente no caso dos leites mais gordurosos, como de amendoim e coco. Não se assuste. Não está estragado. Basta mexer, pra misturar bem, antes de consumir. 

Como esquentar

Quanto mais gordura tiver no ingrediente que será a base do leite, maior o risco de talhar ao aquecer. Então não é uma boa ideia ferver o leite de coco, gergelim e amendoim, por exemplo. Esquente um pouco na panela e desligue o fogo bem antes de começar o processo de fervura. Os leites de aveia e arroz, mais ricos em carboidratos, aguentam melhor o calor, mas vão virar minguau se esquentar muito. O de inhame, não sei por qual motivo, fica mais ralo quando aquecido. Também não é bom ferver. 

Onde usar

Tem gente que gosta de congelar leite vegetal. Não recomendo, acho que muda muito a textura. 

⠂Bebidas: Pra beber com café, achocolatado (receita aqui), ovomaltine caseiro (aqui) ou fazer vitaminas, o de coco é o melhor disparaaaaaaaaado. O leite de amendoim torrado combina muito também. O de arroz é super neutro e não vai deixar gosto estranho no café. Pra vitaminas, também gosto de usar o leite de aveia, que ajuda a engrossar. O leite de coco e de amendoim rendem aquela espuminha maravilhosa pra fazer cappuccino. Basta esquentá-los um pouco ou bater com água quente no liquidificador na hora de fazer o leite. 

⠂Ricota: Os leites de amendoim (qualquer versão), gergelim, semente de girassol e coco rendem ótimas ricotas. Basta aquecer o leite, talhar com limão e coar com um voal. Mais detalhes, nesse post. Também dá pra fazer ricota de tofu com leite de soja. Receita aqui

⠂Receitas doces: Leite de aveia, de arroz, de coco  e de amendoim torrado são boas bases para leite condensado (receita aqui) e docinhos no geral (aqui). Além de todos esses, o leite de inhame também é ótimo para bolos, tanto na massa quanto na cobertura. 

⠂Receitas salgadas: Leite de gergelim e semente de girassol são meus preferidos para substituir o famoso creme bechamel ou creme de leite em receitas. O de aveia também é uma boa opção, apesar de não ser tão saboroso. Pro estrogonofe (receita aqui), que precisa de um sabor mais neutro, a aveia é o meu preferido. 

O que fazer com o resíduo

Todos eles podem ser guardados na geladeira por até 1 semana e congelados por cerca de 3 meses.

⠂Farinha: O resíduo do leite de coco e amendoim rende uma boa farinha para bolos ou granolas. Basta espalhar bem numa assadeira e assar no fogo baixo, até ficar sequinho, sem queimar. Em bolos, essas farinhas substituem bem a farinha de aveia, por exemplo. Não podem ser colocadas no lugar da farinha de trigo, porque não possuem glúten e vão atrapalhar a estrutura do bolo. 

⠂Bolos ou cookies: Se tiver com pressa, nem precisa torrar os resíduos do leite de coco e amendoim pra fazer farinha. Pode colocá-los direto em novas receitas doces. Nesse link, tem uma preparação maravilhosa de bolachinhas com o resíduo do leite de coco. 

⠂Farofa: O resíduo do leite de amendoim, gergelim e semente de girassol pode ser refogado com cebola pra fazer farofa. Você pode usar a farinha de mandioca também ou não. Aí é só temperar a gosto: fica bom com azeitona ou cenoura ralada, cheiro verde...

⠂Base para massa de tortas e hambúrgueres: O resíduo do leite de aveia ou arroz é menos versátil, de aspecto mais "estranho". Por isso, gosto de usá-los onde eles passam despercebidos, como bolinhos assados ou massa de hambúrguer. Lembra de espremer bem o líquido do leite na hora de coar, pro resíduo não ficar encharcado, o que pode prejudicar a estrutura das novas receitas. Pra fazer bolinhos, basta misturar os resíduos com as sobras da geladeira: feijão (sem o caldo), cenoura ralada, bastante cheiro verde e assar. Se tiver muito farelento, é preciso acrescentar um pouco de farinha de trigo. 

⠂Patês: O resíduo do leite de gergelim e semente de girassol rende pastinhas saborosas. Por serem um pouco amargos por natureza, é bom usar limão pra temperar o patê, o que ajuda a neutralizar esse sabor. Com azeitonas ficam divinos, manjericão e pimenta rosa também. Use o que tiver em casa com uma dose de criatividade. 

Observação: nenhum leite vegetal substitui o leite materno, ok? Para dúvidas sobre as propriedades nutricionais de cada opção, consulte um nutricionista. 

Bolinhos de banana com casca e tudo - R$ 4,71

22 de junho de 2018
Vem cá. Todo santo dia recebo pelo menos uma mensagem no Instagram assim: "queria muito gostar de cozinhar como você gosta". Mas quem disse que eu super gosto de cozinhar? Precisamos esclarecer essa história. 😅

Odeio picar alho e cebola. Vivo queimando arroz. Meu estado de espírito em frente ao fogão, em geral, se resume a uma cara bem emburrada. Tem dias que eu e Lucio estamos com tanta preguiça que só nos resta duas opções: tirar no par ou ímpar pra ver quem vai pra cozinha ou fazer pipoca

A ideia desse blog nasce justamente daí, como um incentivo pra eu me empolgar mais, fazer testes, descobrir uns temperos muito loucos, essas coisas. Tenho bem mais ânimo pra ir pra cozinha desde que comecei o Comida Saudável pra Todos, mas ainda assim tem uma lista imensa de coisas que me dão muito mais prazer. 

Eu cozinho por obrigação mesmo. Não posso bancar refeições em restaurantes todos os dias e, até se pudesse, não acho saudável. Não sabemos que óleo eles usam pra fritar a couve, se deixam o feijão de molho, essas coisas. Apenas internalizei que essa é uma tarefa necessária, como muitas outras da vida adulta. 

Uma dica: ajuda colocar um fone pra ouvir músicas, rádio, podcast. No domingo também me dou o direito de cozinhar bebendo vinho. 

Café da manhã eu acho mais divertido preparar, mesmo não acordando nunca de bom humor. É a minha refeição preferida na vida. Na minha casa a gente sempre tinha a cultura de fazer café da manhã especial pro aniversariante da vez. Quando eu conheci o Lucio, a gente passava hooooras tomando café, lendo jornal, falando besteira, ouvindo rádio e chegando atrasado no trabalho. 

E tem uma coisa específica que eu realmente adoro preparar: bolo. Nunca fui boa em química na escola, então não entendo o negócio que rola no forno e faz uma massa meio líquida e com gosto mais ou menos virar algo incrível. Pra mim é macumba, mágica, não sei. Sempre me admiro. Como já aprendi a não me entupir mais de açúcar, dou uma maneirada nos bolos. Aqui em casa a gente faz quando tem visita e às vezes nos fins de semana. Por favor, não venha com essa de xylitol pra cima de mim. 

Como deu uma esfriada delícia aqui em Floripa (sofro, mas amo inverno) e começaram os jogos da Copa do Mundo, achei que as duas coisas juntas mereciam um bolinho. Tava com preguiça de fazer algo grande, que demora quase uma hora pra assar, e por isso resolvi fazer mini bolinhos.

A receita foi o que tinha em casa assado no forno. Não fiz testes antes, não vai ser o bolo mais incrível que você comeu na vida, mas é uma ótima opção pro lanche da manhã ou da tarde, pra levar na bolsa, ou tomar com um chá de gengibre no fim do dia. 

Como sempre tenho muita banana em casa, resolvi fazer bolo de banana, com casca e tudo porque agora sou dessas pessoas que não desperdiçam. Vamos lá? É tão fácil, mas tão fácil, que até quem só sabe abrir pacotes de miojo vai conseguir fazer.

Atenção: se você não tiver essas forminhas de mini bolinhos, pode fazer numa assadeira de pão pequena, ok? Se só tiver as mini forminhas de inox ou outro material que não seja silicone, vai precisar untar com um pouco de óleo. 

Rende 6 bolinhos grandes ou 12 bem chiquititos (se apostar nessa opção, pode colocar frutas picadinhas no fundo das forminhas, uva passas, castanhas, pra massa render mais...)

Ficaram bonitinhos, vai?

Ingredientes dos bolinhos - R$ 4,71
⠂4 bananas prata com casca (quanto mais maduras, melhor)
⠂1 xícara de aveia em flocos (médios ou grossos)
⠂1 xícara de leite de coco ou água 
⠂1/2 xícara de açúcar mascavo
⠂1/4 de xícara de óleo de girassol
⠂1 colher de sopa de vinagre + 1 colher de chá de bicarbonato de sódio (juntos, formam o fermento)
⠂canela a gosto e um tiquinho a mais de açúcar mascavo pra forrar as forminhas (opcional). 

Como eu fiz
Antes de tudo, liguei o forno. Bolo sem forno pré-aquecido nunca vai dar certo. Lavei bem as bananas e cortei aquela pontinha preta minúscula. Num liquidificador, bati as bananas com casca (corta em pedaços pra não queimar o liquidificador), o leite de coco, o açúcar e o óleo. Bati até formar um creme liso e uniforme. Depois disso, acrescentei a aveia e bati de novo. Joguei essa massa numa tigela e só aí coloquei o vinagre e o bicarbonato. Misturei com uma colher. No fundo de cada forminha, joguei umas pitadas de canela e mascavo pra formar uma crostinha crocante deliciosa. Despejei um pouco de massa em cada forminha e pronto! Assei a 220 graus por cerca de 35 minutos. 

Nosso café da manhã de 2 horas. 

Sugestão: leva pros amigos do trabalho que vivem a base de biscoito recheado. Vamos ver a cara deles quando aprovarem os bolinhos e souberem que até casca de banana tem nesse negócio.