Uma ceia simples e vegana

22 de dezembro de 2018
Para os curiosos: a bebida da jarra é chá gelado de casca de abacaxi com capim limão, um pouco de vinho branco e pedaços de morango. 

Se tem uma coisa que não me anima muito desde que virei adulta é o Natal. Estar de férias e reunir a família não parece algo ruim, mas tem duas coisas que mexem muito comigo nessa data festiva: a questão do machismo, porque as mulheres costumam ficar extremamente sobrecarregadas nessa época, e o festival de animais mortos na ceia. 

Até achei que fosse ser mais zoada pela família desde que passei a negar o chester, há 6 anos. Pensei que seria um sofrimento imenso deixar de comer todos aqueles bichos decoradíssimos e que deveria levar vários pratos vegetarianos pra ceia da família. 

Até cheguei a levar um tabule de quinoa e uns rolinhos de berinjela a parmegiana pra ceia na casa da família do meu pai e da minha mãe. Mas praticamente ninguém comeu porque já tinha um festival de comida. 

Comecei então a me contentar apenas com o que já estava incluído no menu familiar: farofa, maionese, torta de palmito, creme de milho, salada. E todos os doces do mundo. Mas agora eu virei vegana e nenhuma dessas opções é livre de ingredientes de origem animal. Minha mãe, a responsável pela famosa torta de palmito, já tratou de fazer um teste da receita com leite vegetal. E deu muito certo. E vai ser isso que eu vou comer. Tô pensando apenas em levar uma sobremesa. Talvez alguma entrada também. Vamos ver se conseguirei um espaço no calor das cozinhas da família. 

O resto é copo cheio de cerveja, telefone desligado, ouvidos a postos para as piadas do meu pai, sessão de fotos, amigo oculto rouba-rouba (a melhor parte sempre). 

Maaaaaaas, o post de hoje é uma sugestão de ceia vegana completa da forma mais simples possível. Seria exatamente isso que eu faria se a o Natal fosse na minha casa. Nada de animais na mesa, nem pratos trabalhosos. Ninguém merece passar o dia inteirinho na cozinha quando a família toda tá na piscina ou tomando banho de mangueira. 

Pensei num cardápio que facilite a vida de todo mundo, que até as crianças podem ajudar, e que possa ter alguns passos adiantados no dia anterior. De quebra, tudo sem glúten, sem excesso de açúcar, muito barato e com ingredientes comuns no Brasil.

Se tem uma coisa que não faz sentido no mundo é a gente ficar replicando um modelo de Natal comum nos Estados Unidos e na Europa. Pra que endeusar um senhor de barba branca com uma roupa de neve? Pra que tanta coisa assada se aqui faz um calor escaldante nessa época? 

Planejei um menu bem refrescante e com ingredientes a cara do Brasil. Em vez de lentilha, que não produzimos por aqui, o prato principal da ceia leva ervilha, uma leguminosa cultivada em massa no nosso país. 

Ah! Minha família nunca teve tradição de comer bacalhau, rabanada ou salpicão. Então nem me dei ao trabalho de testar opções veganas e acessíveis dessas receitas. 

Informação importante: essa ceia completa serve de 4 a 5 pessoas. 

Rolinhos de abobrinha com molho de manga - R$ 5,89

Pode variar a receita como quiser. Rechear com castanhas, trocar a manga pelo maracujá, a rúcula por agrião...

Ingredientes
⠂1 abobrinha 
⠂1 manga
⠂2 colheres de sopa de molho de mostarda (pode ser dijon ou dessas de lanchonete)
⠂1/3 de xícara de sementes de girassol sem casca
⠂1/4 de xícara de uva passa
⠂8 folhas de rúcula
⠂1 limão
⠂pimenta rosa a gosto (opcional)
⠂sal a gosto

Como fazer
Com um descascador de legumes ou mandolim, é só fatiar a abobrinha no sentido do seu comprimento. Numa frigideira, toste as sementes de girassol com um pouco de sal até ficarem morenas. Num liquidificador, bata a polpa da manga com a mostarda e o suco do limão. Reserve. Aí é só montar. Estique a fatia de abobrinha numa tábua. Num cantinho, coloque uma folha de rúcula, um punhadinho pequeno de semente de girassol e a uva passa. Vá enrolando como se fosse panqueca. Se não conseguir deixar o rolinho fechadinho, espete um palito pra fixá-lo. Pode deixar na geladeira e na hora de servir é só jogar o molho de manga e um pouco de pimenta rosa por cima.

Observação: Essa receita pode ser feita no dia anterior. 

Mini batatas com ricota de amendoim - R$ 4,62

O problema dessa receita é parar de comer. Dá vontade de fazer a ceia só com ela. hahaha

Ingredientes
⠂12 batatas inglesas do tipo baby*
⠂2 xícaras de amendoim cru** sem sal (com ou sem pele)
⠂1 maço de cebolinha
⠂1 ramo de alecrim (ou manjericão)
⠂2 limões
⠂2 colheres de sopa de azeite

*Se não achar essa mini batata, pode usar a normal e cortar em rodelas. 
**Pode fazer com o amendoim torrado, mas o sabor vai ficar muito forte. Eu prefiro pra receitas doces. 

Como fazer
Vamos começar pela ricota. Eu fiz exatamente a mesma receita da ricota de gergelim, apenas dobrei a quantidade. Como o amendoim é cru (eu prefiro por ter um sabor mais suave), cozinhei em água por 10 minutos antes de bater e coar pra fazer o leite. Separei o resíduo do leite de amendoim pra fazer um patê e comer com pão depois. Pra isso, só temperei com sal, limão e orégano. Voltando pra ricota, temperei com 1 limão, sal, 2 colheres de azeite, a cebolinha e o alecrim. E pronto. Aí basta cozinhar as batatas em água e sal até ficarem macias, cerca de 10 minutos. Escorri essa água e coloquei as batatinhas num refratário. Em cada uma, fiz um cruz com uma faca e coloquei o recheio por cima. A ideia de fazer essa cruz é deixar o recheio entrar mais, mas não precisa fazer isso não. É importante deixar essa receita esfriar na geladeira por, pelo menos, 30 minutos. 

Observação: Pode deixar pronta na geladeira no dia anterior. 


Assado de berinjela e ervilha picante - R$ 9,53

Esse prato parece simples, mas é super especial. A berinjela fica com uma crostinha maravilhosa. Parece até que foi empanada. 

Observação: essa receita é uma adaptação abrasileirada da Márcia do blog Compassionate Cuisine. Pra ver a versão original, clica aqui

Ingredientes
⠂1 xícara de grãos de ervilha deixados de molho por 12 horas
⠂2 berinjelas com casca cortadas em rodelas
⠂1 cebola
⠂4 dentes de alho
⠂1 colher de chá de cominho em pó
⠂2 folhas de louro
⠂1 colher de chá de páprica picante (ou uma pimenta de sua preferência)
⠂1 lata de tomate pelado (ou 4 tomates maduros)
⠂1 xícara de leite de coco
⠂1/2 maço de coentro ou salsinha
⠂pimenta do reino a gosto
⠂4 colheres de sopa de azeite

Como fazer: Enquanto cozinhei a ervilha com as folhas de louro por 30 minutos na panela com água, levei as rodelas de berinjela ao forno com sal, 2 colheres de azeite e pimenta do reino. Assei em fogo alto por 15 minutos. As berinjelas precisam estar assadas, mas não desmanchando. Numa panela, refoguei a cebola e o alho. Depois acrescentei a ervilha já cozida, a páprica, o cominho, sal, a lata de tomate pelado e o leite de coco. Deixei esse molho apurando por 15 minutos. Num refratário grande, coloquei 2 colheres de sopa de azeite no fundo e untei bem com as mãos. Acrescentei uma concha do molho. Em cima dele, fiz uma camada com as berinjelas assadas em rodelas. E assim fui intercalando as berinjelas e o molho. Levei ao forno por 20 minutos e, na hora de servir, acrescentei o coentro picado por cima. 

Arroz com cenoura e raspas de limão

Arroz é um negócio muito particular, né? Ainda mais no Natal. Todo mundo tem uma receita de família. No meu caso, resolvi inovar e fazer o arroz com raspas de limão da Rita Lobo (receita aqui), que é extremamente incrível e dá vontade de comer puro. A única coisa que mudei foi acrescentar uma cenoura ralada pra dar uma cor. Não calculei o valor dessa receita porque esqueci. hehe

Sagu de abacaxi com hortelã - R$ 5,94

Pode servir o sagu numa tigela grande ou em mini potinhos.

Eu peguei essa maravilha de receita da querida da Mônica, do Santo Legume, link aqui. Aliás, se você não conhece, precisa voar e conhecer esse blog. As únicas coisas que mudei na receita foram: acrescentei hortelã na hora de fazer o chá de casca de abacaxi e também na hora de servir, além de usar gengibre fresco picadinho em vez de em pó. É uma das melhores sobremesas da vida, brasileiríssima, super refrescante e ainda funciona como um bálsamo digestivo pra aliviar a comilança. 

Se quiser mais uma opção de sobremesa, tem o nosso famosíssimo manjar de coco. Receita aqui

Já não estamos mais na época de amora. Que tal uma calda de pêssego ou graviola?


E não esqueça: dê um descanso para as mulheres da família! Vamos dividir as tarefas de tudo que envolve a reunião familiar, não só da comida. 

Reinventar o restê dontê

9 de dezembro de 2018
Ao contrário do que muita gente pensa, trabalhar de casa continua sendo trabalhar. E como uma usuária desse sistema de emprego moderno, eu vivo em busca de estratégias pra usar o meu tempo de forma sensata. Um dos desafios é a cozinha. Por questões econômicas e de saúde, minhas refeições são todas feitas em casa. Só como em restaurante quando tô na rua e não tenho outra opção. 

Só que preparar café da manhã, almoço, lanche e janta todos os dias em casa dá trabalho e requer um tempo imenso. E ainda não posso me dar ao luxo de passar o dia apenas na cozinha, o que acredito que iria me aborrecer bastante também. Uma hora a gente não aguenta mais ver cebola na frente nem sujar louça. 

Pra economizar tempo, eu e Lucio nos revezamos. Em geral, quem fez o almoço não faz a janta. Mas além do compartilhamento de tarefas, há milhões de outras estratégias que nos ajudam a agilizar as comidas aqui em casa. Uma delas é fazer alguns preparos básicos em grande quantidade pra semana toda, como arroz e feijão. Só que aí tem um problema: a frescura de não aguentar comer a mesma coisa todo santo dia. Inclusive é saudável comer comida fresca e variada, né? 

Nosso lema, então, é reinventar novos pratos com o arroz e o feijão da geladeira. E esse é o post de hoje. Vou resumir, em detalhes, o que faço com os restos desses dois ingredientes aqui em casa. 

Mas antes, não custa lembrar, pare imediatamente de jogar comida fora. Primeiro porque é dinheiro jogado no ralo. Segundo porque é mais lixo pro aterro sanitário. Terceiro que é uma questão ética, né? Uma parte bem considerável da humanidade passa fome. Então o mínimo que você precisa fazer, já que tem comida na mesa, é usufruir ao máximo e agradecer por isso. 

Aliás, saber recriar pratos a base de sobras é uma das habilidades que respeito muito nas pessoas. Tô de saco cheio desses programas de culinária que desperdiçam horrores de ingredientes e não dão dicas pra ajudar a gente a reaproveitar as sobras. Esses programas amam xingar as tias amadoras por não saberem fazer um empratamento refinado, mas não valoriza o potencial delas de aproveitar aquele arroz de ontem como ninguém. 

E é claro, se você tem pavor de comida requentada, mesmo se tiver novos sabores e texturas, dê o seu jeito de comprar menos e cozinhar em menor quantidade, assim você evita o desperdício. 

Vamos lá. 

Sobras de feijão

Croquetes de feijão com molho de pimenta

As sobras de leguminosas cozidas, como os feijões, exigem um tiquinho de cuidado por causa da umidade do caldo. Por mais que a gente escorra beeeeem, será praticamente inevitável usar algum tipo de farinha em novas refeições. Já tive a proeza de fazer hambúrguer de feijão preto e batatas sem farinha. Mas só depois de deixar a massa no congelador por uns 30 minutos. Apenas escorri bem o feijão cozido e já temperado, misturei com um purê de batatas bem amassado e acrescentei cheiro verde (ou outras ervas aromáticas). Um pouco mais de sal, um tipinho de páprica defumada e massa pronta. Aí deixo no congelador pra massa ficar mais fácil de modelar. E pronto. Basta fazer o formato desejado e levar ao forno, ou frigideira bem quente untada com azeite ou fritar por imersão. 

Se optar pelos bolinhos, há um segredo pra deixar as casquinhas mais crocantes: empanar. Nessa versão da foto, empanei os croquetes com farinha de mandioca. Mas poderia ser farinha de trigo, arroz, de rosca ou linhaça. Cada uma vai deixar a receita com uma textura e sabor diferente, mas todas dignas de comer lambendo os beiços. 

Pra essa receita da foto, eu usei 1 xícara de arroz, 1/2 xícara de feijão bem escorrido, bastante manjericão picado, 1 colher de café de molho de mostarda (desses industrializados) e 2 colheres de sopa de farinha de trigo. Misturei tudo com as mãos, modelei a massa em formato de croquete, empanei na farinha de mandioca e levei no forno (com fogo alto) por 20 minutos. Na metade do tempo de forno, virei os croquetes pra ficarem crocantes em cima e embaixo. 

Mas também dá pra fazer coisas mais simples com feijão de ontem. Em Santa Catarina a gente usa muito farinha de mandioca pra fazer pirão. E pirão de feijão é uma das melhores coisas do mundo. Basta ferver o feijão bem temperadinho (com alho, cominho, louro, pimentas) e acrescentar farinha de mandioca na panela até alcançar a textura desejada. Ah! Alguns lugares do Brasil chamam isso de tutu. 

E se quiser algo mais saboroso ainda, também rola de fazer bolinhas com essa massa e fritar. E já temos outra receita: bolinhos de feijão. Confesso que já usei até dendê pra fritar e ficou uma delícia inexplicável. 

Sobras de arroz

Hambúrguer de arroz de ontem com temperinhos

Arroz puro já é o suficiente pra dar textura em bolinhos e hambúrgueres. Se estiver bem sequinho talvez nem exija alguma farinha para dar liga. Então aqui em casa os restos de arroz sempre viram essas duas possibilidades. 

Pro tradicional bolinho de arroz eu só misturo qualquer tipo de arroz (em geral em torno de 1 xícara), cenoura ralada (1 cenoura média), 1 cebola crua bem picadinha, sal e cheiro verde a gosto. Faço bolinhas. Se a massa tiver difícil de dar o ponto, acrescento um tiquinho de farinha de trigo até conseguir fazer bolinhas com a mão. Coloquei farinha demais? Basta acertar a receita com um pouco de água. Pra modelar a massa com facilidade, a dica é molhar as mãos com água. E pronto. Aí é só levar ao forno pré-aquecido até ficar sequinho por fora ou fritar. Mas confesso que a melhor versão dessa receita é feita no formato de hambúrguer, grelhado na frigideira com um pouco de azeite. 

Também dá pra variar a receita e acrescentar outros legumes em vez da cenoura, como berinjela defumada, ou beterraba ralada, batata cozida e amassada, pedacinhos de tomate seco, ou até rechear com algum patê. Uma dica importante é não usar vegetais que soltam muita água, que vai atrapalhar a liga do bolinho, como tomate, chuchu ou abobrinha. 

E outra saída maravilhosa pro arroz de uns dias atrás é usá-lo em recheios. Pode ser pra rechear pimentão, tomate, abobrinha ou folhas de couve, uva ou repolho. 

No caso dos legumes, é só fazer um corte neles crus, temperar com sal, pimenta do reino e azeite e tacar o arroz dentro. No caso das folhas, precisa cozinhá-las antes por 2 minutos pra amolecerem. Depois é só rechear e levar ao forno ou cozinhar na panela com molho de tomate. 

A minha musa inspiradora Sandra Guimarães, do blog Papa Capim, também tem um post sobre como reciclar sobras de comida. Nele, a rainha dá dicas ótimas de como transformar restos em uma espécie de paella. Espia aqui. E este blog que vos fala também tem receita de empadinhas recheadas com sobras da geladeira. Espia aqui

E para outras dicas de como agilizar a vida na cozinha, espia esse post também. 

Cozinha saudável é cozinha sem desperdício. 

Arroz de carreteiro - R$ 3,95

28 de novembro de 2018
Resolvi me lançar numa grande enrascada: recriar um prato tradicionalíssimo da gastronomia brasileira, principalmente na minha terra, cuja estrela é charque. Tô falando do arroz de carreteiro. 

Além de muito simples, esse prato é ótimo pra usar como recheio de outras preparações.

Ao contrário da moqueca, por exemplo, que a alma está na combinação do leite de coco, dendê e coentro, ou seja, dá pra fazer a base de banana da terra de boa, o principal ingrediente do carreteiro é uma carne. E como uma não consumidora de carnes, eis o meu desafio. 

No geral, eu não curto essa onda de veganizar pratos que costumam levar carne. Acho mais interessante descobrir novas combinações de sabores e inventar coisas novas. Mas nós, veganos, também somos filhos da Deusa da Memória Afetiva e às vezes queremos morder um negócio e lembrar da infância. Entende? Ou receber alguém em casa e mostrar o sabor de um prato regional. 

Aqui em Floripa, mesmo sendo litoral, a gente come bastante arroz de carreteiro. Na minha família, inclusive, nem era feito com charque, mas com as sobras do churrasco. Então a minha memória afetiva é de um prato que reúne arroz e um sabor defumado bem predominante

E tem uma coisa que  sempre amei mais do que o sabor nesse prato: a simplicidade. Ele costuma levar apenas uma carne salgada (charque, em geral), arroz, e cheiro verde. E a origem desse prato, como muitos outros da nossa gastronomia, é explicada pela necessidade. Trata-se de uma mistura que podia ser feita na estrada, durante as longas viagens dos carreteiros, os moços que viajavam em cima dos carros de bois no Rio Grande do Sul. 

Entendo que fazia algum sentido naquela época. Mas estamos em 2018. Temos ferramentas para conservar alimentos. Não precisamos mais montar em cima de animais, nem nos alimentar deles pra sobreviver. Há uma infinidade de plantas que viram comidinhas maravilhosas e duzentos mil tipos de veículos de transporte. 

Já que comecei a comprar a briga com os gaúchos, aí vai. A popularidade do arroz de carreteiro em todo o país se deve, principalmente, a essa galera do Rio Grande do Sul que deixou a sua terra para investir na pecuária em outras regiões do Brasil, como a Amazônia e o Cerrado. E é esse mercado o responsável pelo maior impacto ambiental do mundo depois dos combustíveis fósseis. 

Ou seja. Uma memória afetiva da nossa infância ou a realização de um simples capricho alimentar não justifica a destruição das nossas áreas de preservação ambiental, a nossa fauna, flora, a nossa água. E ainda tem a questão da dizimação dos povos indígenas. É pra alimentar esse gado todo que a gente compra sementes transgênicas e agrotóxicos, inclusive. 

Então tá na hora de começar a sair da zona de conforto, né? Ninguém vai ser menos feliz se largar o churrasco. Pode acreditar. 

Bronca dada, vou explicar como foi o processo de criação dessa receita. Primeiro: um arroz com legumes dificilmente iria atingir a textura e sabor que eu procurava. Precisei acionar um recurso pouco comum por aqui: a soja. 

E já imaginando a cara feia que você vai fazer ao ler que tem soja nessa receita, vou lembrar algumas coisas. Primeiro: é um mito que soja faz crescer peitos nos homens e faz mal pras crianças, tá? Não caia nessa. O que é prejudicial é o excesso de soja. Se você come muita comida ultraprocessada, tá comendo soja demais. É óleo de soja, lecitina de soja, margarina... Não esquece que os alimentos de origem animal também são atochados de soja, porque ela é a base da ração dos bois.

Mas pensa uma coisinha aqui comigo. Sabe de onde surgiu esse negócio de comer soja? Foi na China há milhares de anos. Os chineses e japoneses são os maiores consumidores de produtos a base de soja do mundo: tofu, shoyu, tempeh, missô, etc. E pensa: a saúde deles tá bem melhor que a da nossa população. Então a vilã dessa novela não é especificamente essa leguminosa em si, mas uso que a indústria faz dela

Em resumo: não tenha medo de soja. Evite comprar as versões transgênicas (sim!) e reduza ao máximo o consumo de alimentos industrializados. Feito isso, pode comer uma soja ou outra em paz. 

Pra essa receita, eu usei soja texturizada, aquela minúscula que muita gente confunde com carne moída. Quando bem temperada e preparada certinho, dá uma textura excelente pra receitas que tradicionalmente levariam carnes. Recomendo usar pra fazer molho bolonhesa, por exemplo, ou almôndegas. 

E atenção na hora de preparar. O segredo está na combinação de temperos e no passo a passo da preparação, tá? Fique atento e não pule nenhuma parte. Pra essa receita, é essencial que a soja seja preparada no forno, pra ficar bem sequinha e saborosa. Aliás, essa é minha versão preferida de fazer esse tipo de soja. Não costumo gostar do resultado quando feita apenas na panela. 

Então vamos lá.

Ingredientes para temperar a soja
⠂1 xícara de proteína de soja texturizada (de preferência não transgênica)
⠂2 xícaras de água fervente
⠂4 dentes de alho crus picados ou 2 colheres de sopa de alho desidratado
⠂2 limões
⠂pimenta do reino a gosto
⠂1 colher de chá de sal

Eu usei essa soja, feita em Curitiba. É bem barata e não é transgênica. 

Como eu fiz
Numa cumbuca, coloquei a soja, a água fervente e esperei 15 minutos. Escorri a soja com uma peneira e descartei essa água. Na mesma cumbuca, coloquei a soja, o alho, o limão, a pimenta e o sal e deixei na geladeira pegando sabor por, pelo menos, 4 horas. Quanto mais tempo deixar de molho, melhor. 

Soja temperada e indo pro forno!

Ingredientes para o arroz de carreteiro
⠂1 xícara da soja temperada
⠂1 pimentão verde 
⠂1 cebola
⠂1 xícara de arroz agulha (usei integral)
⠂2 tomates
⠂1 colher de sopa de raminhos de alecrim fresco (opcional)
⠂2 colheres de sopa de páprica defumada*
⠂2 folhas de taioba ou couve 
⠂4 colheres de sopa de azeite
⠂sal a gosto
⠂cebolinha a gosto

Observação: a páprica defumada é a estrela da receita, tá? Não pode faltar!

Como eu fiz
Liguei o forno. Numa assadeira, coloquei a soja já temperada, o pimentão, o tomate e a cebola picada em cubinhos. Acrescentei o alecrim fresco, o sal, o azeite e a páprica defumada. Misturei bem com uma colher e levei ao forno alto por 25 minutos (ou até a soja estar bem sequinha). Enquanto isso, cozinhei o arroz normalmente com água e sal numa panela grande. Quando faltava 1 dedo de água pro arroz secar e ficar pronto, acrescentei a soja, a taioba fatiada bem fininha e acertei o sal. Fiquei mexendo pra misturar tudo até a água secar. Joguei cebolinha picada por cima e pronto!

Observação: serve 4 pessoas que comem moderadamente ou 3 pessoas famintas. 

O resultado final desse prato é realmente MUITO surpreendente. Eu garanto. Além do sabor, tem bem menos sódio e gorduras que a versão original com charque. Aqui em casa eu e Lucio comemos tudo no mesmo dia, no almoço e na janta. Por levar ingredientes muito simples e baratos, já virou um dos nossos pratos queridinhos aqui em casa. 

Aqui em casa a gente comeu assim purinho no almoço e depois como recheio das folhas de repolho e molho de tomate. 

Essa receita é perfeita pra usar como recheio também. Você pode fazer pimentão ou folhas de repolho recheados com esse carreteiro. 

Manjar de coco - R$ 4,21

16 de novembro de 2018
Minha cozinha tem fases. Já passei pela febre de comida indiana, onde a prateleira de temperos e ervas aqui de casa ficava mais abarrotada do que a despensa e a geladeira juntas. Logo depois veio a fase minimalista, quando eu comprava quase nada e comia basicamente os mesmos pratos todos os dias. Um tédio. Isso que nem vou citar a fase gourmet, que já venci há anos, e a das dietas. Mas, a nova tendência que anda ditando as regras na minha cozinha é comida com história

Não consigo mais comer nada sem pensar se alguém já comeu antes. Só que aí surgiu um problema chamado tempo, porque estou me afundando em pesquisa e leitura sobre a história dos ingredientes e da gastronomia. E se eu só precisava trabalhar, ter um blog, fazer os trabalhos da faculdade, limpar a casa, cuidar dos gatos, preparar refeições, etc, agora eu arrumei mais uma tarefa pra lista. Parece que tô fazendo drama, mas não. É um tempo gasto com prazer. A comida fica com outro gosto, sabe? Recomendo que você também embarque nessa. 

E foi isso que aconteceu com o manjar de coco. Estive em Fortaleza na semana passada pro casamento de um amigo que mora na região e acabei provando um manjar num restaurante vegano maravilhoso chamado Mandir. Fica no bairro Benfica e serve um prato super caprichado por R$ 17. Provei o manjar deles, que levava uma calda de manga com maracujá. De uma gostosura do nível de comer chorando, sabe?

Voltei pra casa enlouquecida pra testar e já usar a receita como sobremesa na ceia de natal da família. Esse é o meu primeiro natal vegano. Até ano passado, eu comia a maionese da Tia Nazir, a torta de palmito da minha mãe, a farofa do Tio Nei e as 90 sobremesas atochadas em leite condensado da Tia Nádia. Agora, tenho negociado algumas adaptações nas receitas da família, mas faltava uma opção de sobremesa. 

Só que antes de preparar o manjar, comecei a pesquisar sua história. As primeiras notícias que temos da existência do manjar são do século XVI, em Portugal e na França. Mas como tudo na história da humanidade, não há um consenso sobre isso. Há registros de que o prato já existia na Índia e em alguns países do Oriente Médio. Essa teoria faz algum sentido pelos ingredientes, já que a receita do manjar original levava leite de amêndoas, açúcar e pó de arroz pra engrossar. A calda (pasmem!) levava frango desfiado. Ou seja, inacreditavelmente o manjar surgiu no mundo como uma comida salgada. E foi assim que ele chegou ao Brasil, como diz o livro O cozinheiro imperial, de 1841. 

O tempo foi passando e o mundo todo foi adaptando a receita. Na Itália, a galera acrescentou gelatina e deu o nome de Pannacotta. Os ingleses substituíram o pó de arroz pelo amido de milho, mais fácil de encontrar lá, e todo mundo entrou na deles. E como nós, brasileiros, somos incríveis e nossa comida costuma deixar todo mundo no chinelo, tivemos a brilhante ideia de fazer com leite de coco.  Na verdade, acho que não era uma opção, né? Leite de vaca era só pros ricos e amêndoas nem se tinha notícia aqui nessa época. 

Resumindo: o manjar de coco é uma criação brasileira, amados. Mais precisamente dos negros escravizados na Bahia. E agradeço imensamente por terem excluído o frango da receita. Este causo é citado no livro Açúcar, do Gilberto Freyre, inclusive. A obra fala da a forte influência africana na cozinha brasileira e o manjar é um desses exemplos. 

Se não é a coisa mais linda do mundo, é a segunda mais linda! hahahaa

Pois bem. História contada, vamos partir pra receita. Tô até agora passada com o quanto é fácil, rápido e barato. E não me conformo de não ter investido nessa sobremesa antes. Só tem um problema: parar de comer. Aqui em casa testei em taças e comi duas de uma vez no primeiro dia e mais duas no segundo, que é hoje. Mas, defendo sempre que tenhamos uma relação saudável com a comida e não recomendo que ninguém fique assim enlouquecido como eu. Em geral, costumo ser bem comedida com doces. Acho que foi a emoção mesmo porque é tão bom, mas tão bom que arrisco dizer ser uma das melhores sobremesas que já fiz na vida. 

Ah! Alguns países não comem o manjar com calda, apenas com canela ou cacau polvilhado, como é o caso de El Salvador. Nunca fiz, mas achei interessante pra testar um dia. 

Última informação: o preço baixo da receita no meu caso se deve ao fato de que as amoras foram doadas pela vizinha, que trouxe da casa da mãe dela. Pensei em ignorar esse fato e fazer com alguma fruta comprada, pro preço ser mais próximo de todo mundo. Mas não. Acho legal incentivar esse troca a troca de quitutes. Faça uma rede, troque com os vizinhos, construa pontes alimentícias. :) Mais revolução que isso não há! 

Vamos lá. 

Eu fiz várias versões. Essas em forminhas e em taças também, que não corre o risco de dar ruim na hora de desinformar

Ingredientes pro manjar - rende 6 porções individuais
4 xícaras de leite de coco*
4 colheres de sopa de amido de milho (maizena)
1/2 xícara de açúcar demerara

*Observação: Se for fazer com leite de coco caseiro, faça mais grosso, ok? Ele tem que ser bem encorpado. Recomendo fazer na proporção de 2 xícaras de coco pra 4 xícaras de água, tá? 

Observação 2: Eu não fiz com coco ralado, mas é uma opção também. Pode acrescentar 2 colheres de coco na panela, junto com os outros ingredientes. 

Como eu fiz
Numa tigela, dissolvi 1 xícara de leite de coco com as 4 colheres de sopa de amido de milho. Dessa forma, tem menos chances de empelotar o leite. Se as bolinhas do amido não dissolverem bem, passe a mistura numa peneira direto na panela, espremendo bem pra dissolver tudo. Na panela, misturar todos os ingredientes e mexer até engrossar, atingir a textura de creme. Aí é só despejar esse líquido em potinhos untados com óleo, taças ou numa assadeira de pudim (também untada com óleo). Coloque na geladeira por, pelo menos, 4 horas. Se for levar para uma festa e o manjar precisar ficar exposto por um tempo na mesa, recomendo colocar no congelador antes, por 30 minutos, pra ele ficar mais firme e aguentar mais tempo. 

Ingredientes da calda de amoras
2 xícaras de amoras frescas
1/3 de xícara de açúcar* demerara
3/4 de xícara de água 
1 colher de sopa de cachaça
1/2 colher de sopa de limão espremido

*Observação: A quantidade de açúcar da calda varia de acordo com o seu gosto e com a fruta que escolher. As amoras não estavam tão doces, então coloquei um pouco mais de açúcar. Se fizesse com  uma manga bem madura, usaria menos açúcar ainda. 

Calda de ameixas - opção 2
1 xícara de ameixa seca ou em calda sem caroço
1/3 de xícara de açúcar demerara
3/4 de xícara de água
1 colher de sopa de vinho tinto
1 canela em pau
2 cravos

Calda de maracujá - opção 3
1 xícara de polpa de maracujá (ou 1/2 xícara de maracujá e 1/2 de manga)
1/3 de xícara de açúcar demerara
3/4 de xícara de água
1 colher de cachaça
1 tiquinho de gengibre ralado

Como eu fiz
Numa cumbuca, espremi as amoras com a mão. Só precisa fazer isso se quiser. Com maracujá e ameixa não precisa. Numa panela, coloquei a água e o açúcar e mexi até engrossar um pouco, quase em ponto de caramelo. Acrescentei o restante dos ingredientes e mexi até ficar uma calda encorpada, por cerca de 8 ou 10 minutos. Pronto. Agora é só colocar numa tigela e levar à geladeira pra esfriar. Recomendo despejar a calda sob o manjar apenas na hora de servir. 

Ah! Eu não queria dizer, mas tenho certeza que o povo do Norte do Brasil vai querer jogar na nossa cara a ideia de fazer o manjar com calda de cupuaçu. Podem fazer, mas não me contem, tá? Não sei se meu coração aguenta! :)

Patê de feijão com alecrim - R$ 2,49

31 de outubro de 2018
Homus de grão de bico. A gente vem sentindo um aumento no número de pessoas veganas nesse país, como também de intolerantes à lactose ou de gente que reduz laticínios pra emagrecer. Certo? Ou sou só eu? Esse movimento pode ter causado, na minha humilde opinião, uma popularização súbita do homus. É chuva da pastinha a base de grão de bico em feiras, eventos, restaurantes, perfis do Instagram way of life. 

Mas pensa aqui comigo. Será que faz sentido massificar o homus, por mais delicioso e incrível que seja? Faz sentido investir em taaaantas receitas a base de grão de bico se não produzimos essa leguminosa no Brasil? Ok, já tem uns produtores começando a cultivar e vender por aí. Mas ainda não é nada expressivo. 

E sabe uma coisa que tem bastante por aqui, de Roraima ao Rio Grande do Sul, e que também serve pra fazer pastinhas? E que também tem bastante ferro e proteína? Feijão. O Brasil produz, pelo menos, 14 tipos de feijões comercializáveis. 14 tipos. Não é nem um, nem dois. São 14. Por que diabos a gente tá se entupindo de grão de bico então, consagrados?

Além disso, é mais caro. Estamos desperdiçando dinheiro mesmo por causa de modismos. Em Floripa não encontro grão de bico por menos de R$ 14 o quilo. Enquanto os feijões branco, preto, carioca, mulatinho, fradinho, etc, não passam de R$ 8 o quilo. 

É uma questão de sustentabilidade, inclusive. Consumir o que dá no nosso quintal significa menos combustível queimado pra distribuir comida por aí. 

É uma questão de valorizar a nossa identidade alimentar também, de pertencimento, de nos reconhecermos enquanto brasileiros. Mas olha. Não precisa me odiar. Esse não é um texto pra fazer você sentir culpa por comer grão de bico ou proibir o consumo de homus. Eu adoro provar umas comidas diferentes, de outras culturas, inclusive. Mas não podemos transformá-las na base da nossa alimentação, entende? Comida saudável é comida local!

Menos pizza, sushi e homus, por favor! Mais feijão, arroz e farofa! 

Sim, eu virei a cesta de pão do avesso só pra usar esse xadrez maravilhoso na foto. Sou cafona! Aguente.

E como ode de amor à Vossa Majestade Feijão Branco, trago em poucos minutos a receita maravilhosa de hoje. Eu gosto de insistir no feijão branco. Pouca gente conhece, os restaurantes servem pouco, mas ele é barato, produzido aqui, e merecia ocupar mais espaço no nosso estômago.

Pra mim, é o feijão perfeito para hambúrguer, patês e bolinhos porque ele é bem massudo. Quando a gente processa, deixa qualquer massa bem cremosa e suave. Também uso pra fazer omelete, receita aqui, e saladas. Pra temperar, o feijão branco combina muito com sálvia ou alecrim frescos, berinjela, tomate, azeitona. Também gosto de fazer um refogado de legumes com ele, mais gengibre, curry e leite de coco. Um delicioso acordo alimentício do Brasil com a Índia. 

Só um último adendo. Essa receita foi inspirada no patê de feijão branco com alecrim e castanha de caju da minha musa inspiradora, ídola, ícone, rainha, mestra dos magos, Sandra Guimarães, do blog Papa Capim. Amei a ideia da Sandra, mas queria baratear a receita. Então tirei a castanha de caju e incluí a semente de girassol. 

Mas preferi a versão torrada, que fica beeem mais saborosa. Também fiz sem alho, ao contrário da Sandra, porque tenho comido alho em tudo, acho melhor dar uma segurada. As últimas mudanças que fiz foi tirar a pimenta do reino e incluir o alecrim na hora de bater. É isso! Sandra, muito obrigada por me apresentar a maravilha que é a combinação de feijão branco com alecrim. Não esquecerei dessa dupla jamais. E se você não conhece essa mulher, o blog e o trabalho dela, corre pro link aí de cima. 

Ingredientes
⠂1 xícara de feijão branco cozido (lembra de deixar de molho por 24h antes de cozinhar!)
⠂1/2 xícara de semente de girassol sem casca
⠂1 ramo de alecrim fresco
⠂1 limão grande
⠂5 colheres de sopa de azeite
⠂1/3 de xícara de água
⠂1 colher de café de sal 

Como eu fiz
Como meu processador não é dos melhores, cozinhei bem o feijão branco, por 20 minutos na pressão, pra ele ficar bem molinho e homogêneo na pastinha. Numa frigideira, joguei a semente de girassol e esperei ficar moreninha. Essa "torra" a jato vai dar um gostinho esperto pra pastinha. Despejei as sementes de girassol no processador e bati até virar uma farofa. Se o seu processador for bom, não precisa fazer isso antes. Pode bater as sementes junto com os ingredientes todos. Se for podre como o meu ou se for um liquidificador normal, bate a semente de girassol antes ou ela vai ficar pedaçuda demais no patê. Enquanto isso, coloquei o azeite na frigideira e o ramo de alecrim. Com o fogo baixo, dei uma leve fritada nos ramos de alecrim por uns 3 minutos. Depois disso, despejei o feijão, o azeite, o alecrim (sem o caule, só as folhas), o sal, o limão e água no processador e bati. Pronto. 

Observação: Servir frio, depois de pelo menos 1h na geladeira. Dura cerca de uma semana num pote bem fechado. 

Observação 2: Por favor, nada de jogar o alecrim cru no processador, viu? Vai ficar super forte e roubar o sabor de tudo. O tchan dessa receita está justamente no sabor delicado do alecrim. 

Sementes de girassol ainda cruas.

Já torradas. 

Nunca imaginei que viveria pra grelhar alecrim. 

Pronto. Patê delicioso, brasileiro, perfeito pra comer com torradas, pães, palitos de cenoura, nachos, panqueca, arepas. Se acompanhar uma cervejinha então...

Como começar uma rotina saudável

23 de outubro de 2018
O post de hoje é uma resposta a vários pedidos do Instagram, principalmente de uma seguidora recente, a Adriana, que me escreveu: "pelo amor de deus, me ajuda a me organizar pra ter uma alimentação mais saudável". 

Mas vou ser bem direta: não existe uma receita, tá? Nem um manual, muito menos um botão que a gente aperta e vira os "senhores da comida saudável". Não é assim que funciona porque cada vida é uma vida, cada corpo é um corpo, cada rotina é uma rotina, cada região é uma região. Então, esse post não vai ser um mantra pra você ler, seguir exatamente a risca e ser feliz. A chave de tudo tá em você se descobrir mesmo, descobrir o que te faz bem e o que faz sentido no teu dia a dia

Mas é claro que há algumas pistas pra gente discutir aqui. Vou contar um pouco da minha vida e da minha rotina alimentar com base nos meus hábitos, tá? E vamos ver o que você consegue adaptar pro teu dia a dia. 

Antes de começar, quero te lembrar de ler alguns posts que vão ajudar nessa empreitada: 

1. Esse post aqui dá algumas dicas de produtos bem acessíveis pra sempre ter no armário da cozinha e não passar perrengue. 

2. Esse post aqui ensina umas estratégias pra economizar tempo na cozinha. 

4. Esse bonitão aqui tem a lista dos vegetais da estação mês a mês, pra você consultar a hora que quiser e comer sempre comida fresca. 

5. Nesse texto aqui, você encontra dicas de como usar temperos e ervas aromáticas no dia a dia. 

6. Nesse aqui, que eu fiz pro blog da Cristal, o Um ano sem Lixo, você encontra dicas de como gerar o mínimo de resíduos na cozinha. 

7. E se você ainda não me conhece muito bem, espia esse post, onde eu conto de forma resumida como cheguei na berinjela depois de tanto miojo.

Fazer leite de coco caseiro ou outros leites vegetais é um dos meus hábitos preferidos. 


Agora vou dar o contexto da minha vida pra você entender os meus hábitos, tá? Eu moro num bairro longe de tudo, fica a 50km do Centro de Floripa. Consigo comprar vegetais frescos aqui, com poucas opções de orgânicos, e tem umas lojas de produtos naturais também, que são meio caras. Eu trabalho de casa, mas viajo bastante, quase toda semana. Então, minha rotina se resume a passar o dia inteiro em casa ou alguns dias inteiros fora de casa. Quando eu tenho aula da faculdade, durmo na casa minha mãe, que fica mais perto. Em resumo, minha vida é uma grande bagunça. 

Compras
Pra começar, não tem como cozinhar com geladeira e despensa vazias. Ir ao supermercado toda vez que der fome é insustentável, e você vai acabar caindo no conto do miojo ou do delivery se não tiver um estoque mínimo de comida em casa. Aqui, por exemplo, a gente sempre tem espaguete, azeite, óleo, açúcar mascavo, arroz, farinhas, feijão, aveia no armário. Assim que um desses itens acaba, a gente já coloca na lista do mercado e se organiza durante a semana pra comprar. O resto dos itens não perecíveis a gente compra com menos pressa, quando dá. Temperos seguem a mesma regra. Tem os indispensáveis: orégano e pimenta do reino, por exemplo, que uso todos os dias, e os que dá pra ficar uns dias sem, como páprica, cominho a gente compra quando encontra uma brecha. Dos vegetais frescos, pelo menos uma vez por semana eu ou Lucio nos responsabilizamos por abastecer a casa. Sempre que vou na casa da minha mãe, trago toneladas de comida, e não preciso ir na feira ou hortifruti nessa semana. Também ganho muita coisa de uma vizinha, o que tapa um buraco. E, outra dica importante: fique de olho nos lugares que vendem produtos orgânicos mais baratos, itens que vieram da agricultura familiar ou dos assentamentos do MST. E inclua uma passadinha nesses locais sempre que puder. Em resumo, acho importante destinar um dia na semana, e o horário e o local variam de acordo com a vida de cada um, pra comprar vegetais frescos. Sem eles, não dá pra ser minimamente saudável. 

Como planejar o que cozinhar
Nos fins de semana, gosto de fuçar blogs e livros de receitas e selecionar algumas ideias pra fazer durante a semana, se já tiver os ingredientes em casa. Marco a página do livro com um marcador ou mando a receita pra mim mesma por e-mail pra não esquecer. Também faço bastante as coisas aqui do blog, que já decorei as proporções, ou adapto pro que tem em casa. Lucio é rebelde e nunca cozinha com receitas, sempre faz coisas da cabeça dele. Não curtimos a ideia de cardápio semanal aqui em casa. Nunca deu muito certo. A gente nunca tinha vontade de comer o que tava escrito no cardápio. 

Pré-preparo
Tem muita comida que exige uns processos antes, como o feijão. Não dá pra decidir comer feijão na hora que der vontade porque os grãos precisam ficar de molho. Aqui em casa, todo domingo à noite é a nossa hora de deixar leguminosas de molho pra semana. Coloco no demolho com água, pelo menos, 2 tipos. Lentilha é sempre bom de ter em casa porque cozinha mais rápido que feijão e exige menos tempo de demolho. Depois de cozinhar os feijões, a gente deixa um potinho na geladeira pra comer em até 2 dias depois do preparo e separa outros potinhos pra congelar. Nunca ficamos sem pelo menos uma vasilha de feijão no congelador. Também sempre tenho molho de tomate congelado, pão, mandioca (congelo assim que compro, ainda crua) e polenta. Esses itens salvam em qualquer momento de desespero e correria. Domingo aqui em casa também é dia de deixar algumas pastinhas prontas pros cafés da manhã ou lanches da semana: ricota de gergelim, tofu, patê de berinjela, alguma geleia com uma fruta que já tava passando. Pelo menos um deles sempre tá marcando presença na geladeira. Vamos variando conforme a vontade e o que tiver na despensa. Também recomendo muito sempre ter uma granola caseira (receita nos destaques do Instagram) pronta num vidro pra quebrar o galho de cafés da manhã ou lanches mais apressados. Nas manhãs de segunda-feira, quando costumo estar de mal humor, reservo pelo menos 30 minutos pra fazer leite de coco caseiro, que funciona como uma terapia pra mim. Amo abrir o coco seco com um martelo. É libertador!

Cozinhar em casa
Com uma despensa e geladeira abastecidas, não tem drama pra comer em casa. No café da manhã, a gente varia a comida conforme o tempo que temos disponível. Pãezinhos de batata, que exigem pelo menos 25 minutos de forno, ficam pros dias mais tranquilos. Na correria, banana grelhada com granola sempre salva, ou algum pão congelado em fatias, que só exige uma esquentadinha na frigideira. Quando temos pelo menos 30min pra comer com calma, rolam as arepas de milho, batapioca, vitaminas. O almoço geralmente sou eu que faço e consiste em uma leguminosa cozida, arroz ou batatas, e verduras cruas ou refogadas. No lanche da tarde, como alguma fruta, pipoca, torrada com alguma pastinha, uma vitamina, ou um pedaço de bolo, se tiver. Em geral, fazemos bolos nos sábados aqui em casa. De janta, a gente tem o hábito de jogar uns legumes no forno com mil temperos, ou comer alguma massa rápida, sopa, ou restos do almoço. Não tem muito segredo. No inverno, sexta à noite é nosso dia de comer massa e tomar um vinho. 

Marmitas
Não tenho o hábito de levar marmita. Como trabalho de casa, costumo almoçar em casa mesmo. Quando tô viajando, tento comer num buffet a quilo barato. Se você almoça todos os dias fora, pode tirar um dia na semana pra organizar suas marmitas. Dê prioridade pra receitas simples e que podem ser consumidas frias: quibe, massa, torta salgada, hambúrguer, etc. 

Lanches
Quando vou passar o dia todo fora de casa, sempre levo alguma coisa pra comer no meio da manhã ou no meio da tarde porque nunca tem opções veganas e saudáveis na rua ou são caríssimas. Costumo levar amendoim torrado, alguma bolacha caseira, pipoca, banana, maçã, o que tiver dando sopa em casa. Também gosto de levar chá numa garrafinha de vidro porque sou viciada em chás. 

Horta
Uma coisa importante. Eu cultivo alguns temperinhos na minha varanda e tenho uma horta num canteiro do meu prédio com manjericão, hortelã, cidreira, tomate cereja, alecrim, sálvia, boldo, espinafre. Isso faz com que eu sempre tenha essa carta na manga na cozinha. Nunca preciso lembrar de comprar ervas aromáticas. E todos sabemos que são elas que deixam os vegetais realmente suculentos e deliciosos. Por isso, recomendo muito que você comece a cultivar essas belezinhas se tiver um espaço em casa. Além do mais, é de graça, né? Tem dicas de como começar uma horta em casa nesse post

Então é isso. Peço perdão a quem pensou que fosse encontrar um manual de autoajuda aqui, achou que sairia com todos os problemas resolvidos. Mas não tem como ser saudável se você não for você mesmo e respeitar seus hábitos, suas vontades. Essa é a vida. 

Não custa reforçar também a importância de compartilhar as responsabilidades das compras, pré-preparos, limpeza, cozinhar, com todo mundo da sua casa. Se você mora sozinho, tenta revezar as marmitas e lanches com os colegas do trabalho. Cada dia um leva pode levar uma porção, etc. 

Patê humilde de berinjela - R$ 1,44

14 de outubro de 2018
Como quem não quer nada, citei esse modesto patê de berinjela num post do Instagram há uns dias atrás. Era tão fácil e simples que achei que ninguém fosse se interessar. Mas pra minha surpresa recebi uma enxurrada de mensagens de fãs incondicionais do patê, que ficaram hipnotizados com a possibilidade de ter algo pra passar no pão por menos de R$ 2

Essa receita é perfeita pra comer com pão, torradas, nachos, batatas assadas em rodelas...

Por isso, cá estou. Pra oficializar e dar vida à essa receita tão honesta. Não sei você, mas eu acho revolucionário a gente deixar de comprar essas pastinhas industrializadas.

Cozinhar, por si só, já é um ato revolucionário, ainda mais se for com ingredientes que NÃO exploram a mão de obra de algum trabalhador ou a vida dos animais. Se você que me lê for homem, faça pras mulheres da sua vida também. Liberte a sua mãe, filha, esposa, tia, avó, da obrigação de alimentar a família. 

Essa receita me lembrou outra coisa. Pessoas maravilhosas me convidaram pra participar da Vegfest, em São Paulo, com uma palestra sobre veganismo acessível. Trata-se da maior feira vegana da América Latina e terminou hoje, domingo. Mas, mesmo sabendo que dividiria espaço com tanta gente querida, politizada e crítica, eu resolvi recusar o convite. 

Não teria como bancar os custos da viagem pra SP e não acho coerente falar de comida vegana até R$ 10 para pessoas que podem pagar pelo ingresso caríssimo que dá direito à entrada no evento. Ingresso que eu não poderia pagar do meu próprio bolso. Além disso, sei do meu lugar de privilégio. Falo de comida acessível, mas continuo sendo mais um rosto branco e classe média. E não acho que mais um rosto branco e classe média deva compor a equipe de palestrantes. Neste ano, gente não branca e periférica subiu no palco do evento! Amém! Mas ainda é pouco.

Precisamos lutar pra que o assunto "comida saudável" não seja mais associado a um grupo restrito de pessoas. Precisamos lutar para o próprio movimento vegano, do qual faço parte, perca essa cara elitista e segregadora. Eu mesma demorei muito a me assumir vegana por vergonha de fazer parte de um movimento representado por pessoas que não me representam. Até que conheci a musa Sandra Guimarães, do blog Papa Capim, além de uma multidão de gente maravilhosa que me representa muito bem. 

Aliás, tem duas divas que me representam muito, a Babi e Thais. Elas fazem um trabalho incrível, por conta própria. O Outras Mamas é o primeiro podcast vegano e feminista do Brasil e eu tive a honra de gravar um episódio com as meninas. Se ainda não ouviu, clica aqui

Ainda volto pra fazer um post assumindo politicamente o meu veganismo e retomando esse assunto de comida acessível, mas agora vamos pra receita. 

Eu gastei R$ 1,44 no patê porque a berinjela entrou na época e aqui tá custando R$ 2,49 o quilo. Se você é um berinjelofóbico, pode fazer a mesma coisa com abobrinha, com a diferença de que vai precisar temperar mais. Afinal, berinjela tem muito mais personalidade que abobrinha. Sozinha, ela se basta. Já a prima da abóbora, leva desvantagem em sabor e precisa de coadjuvantes de peso, como azeitona, tomate seco, ervas aromáticas. 

Uma boa substituição pra essa receita seria a mistura de abobrinha, cebola roxa, hortelã e azeitonas pretas. Fica a fica. 

Outro ponto maravilhoso dessa receita é que não exige nenhum equipamento. Então ela alcança um nível de acessibilidade ainda maior!!!

Ingredientes
⠂2 berinjelas grandes com casca (cerca de 500g)
⠂4 dentes de alho sem casca
⠂1 limão
⠂pimenta do reino a gosto
⠂sal a gosto
⠂azeite a gosto

As folhas de manjericão da foto são apenas uma firula. Nessa versão, temperei da forma mais simples possível. 

Como eu fiz
Lavei as berinjelas, cortei fora o pedacinho da bunda e a cabeça dela. Fatiei o que sobrou em rodelas grossas. Numa panela de cozinhar legumes no vapor (pode ser cuscuzeira), coloquei as fatias de berinjela e o alho descascado. Deixei cozinhando com tampa até desmanchar. Quando vi que já tava tudo bem molinho, transferi pra um prato fundo e amassei tudo com um garfo até ficar numa consistência de patê. Acrescentei sal, o suco do limão, um pouco de pimenta e um fio de azeite. Misturei mais um pouco e pronto. Deixei esfriar e guardei na geladeira num pote com tampa. 

Sugestões: pode acrescentar tahine (pasta de gergelim), folhas de manjericão fresco picadas, cebola, azeitona, ou o que quiser. Eu prefiro essa versão bem simples, mas já fiz mil vezes com ervas frescas. Dona Neide Aparecida, minha mãe, também faz com o alho refogado em vez de cozido no vapor. Também fica incrível com a berinjela defumada. Em vez de cozinhar no vapor, espeta um garfo na berinjela e fica segurando na boca do fogão e girando, até todos os pedaços estarem cozidos por dentro. Nessa versão, a casca precisa ser descartada. 

Duração: não faço a menor ideia porque aqui em casa nunca durou mais do que três dias. A gente come muito rápido.