Bolinhos de banana - R$ 4,71

22 de junho de 2018
Vem cá. Todo santo dia recebo pelo menos uma mensagem no Instagram assim: "queria muito gostar de cozinhar como você gosta". Mas quem disse que eu super gosto de cozinhar? Precisamos esclarecer essa história. 😅

Odeio picar alho e cebola. Vivo queimando arroz. Meu estado de espírito em frente ao fogão, em geral, se resume a uma cara bem emburrada. Tem dias que eu e Lucio estamos com tanta preguiça que só nos resta duas opções: tirar no par ou ímpar pra ver quem vai pra cozinha ou fazer pipoca

A ideia desse blog nasce justamente daí, como um incentivo pra eu me empolgar mais, fazer testes, descobrir uns temperos muito loucos, essas coisas. Tenho bem mais ânimo pra ir pra cozinha desde que comecei o Comida Saudável pra Todos, mas ainda assim tem uma lista imensa de coisas que me dão muito mais prazer. 

Eu cozinho por obrigação mesmo. Não posso bancar refeições em restaurantes todos os dias e, até se pudesse, não acho saudável. Não sabemos que óleo eles usam pra fritar a couve, se deixam o feijão de molho, essas coisas. Apenas internalizei que essa é uma tarefa necessária, como muitas outras da vida adulta. 

Uma dica: ajuda colocar um fone pra ouvir músicas, rádio, podcast. No domingo também me dou o direito de cozinhar bebendo vinho. 

Café da manhã eu acho mais divertido preparar, mesmo não acordando nunca de bom humor. É a minha refeição preferida na vida. Na minha casa a gente sempre tinha a cultura de fazer café da manhã especial pro aniversariante da vez. Quando eu conheci o Lucio, a gente passava hooooras tomando café, lendo jornal, falando besteira, ouvindo rádio e chegando atrasado no trabalho. 

E tem uma coisa específica que eu realmente adoro preparar: bolo. Nunca fui boa em química na escola, então não entendo o negócio que rola no forno e faz uma massa meio líquida e com gosto mais ou menos virar algo incrível. Pra mim é macumba, mágica, não sei. Sempre me admiro. Como já aprendi a não me entupir mais de açúcar, dou uma maneirada nos bolos. Aqui em casa a gente faz quando tem visita e às vezes nos fins de semana. Por favor, não venha com essa de xylitol pra cima de mim. 

Como deu uma esfriada delícia aqui em Floripa (sofro, mas amo inverno) e começaram os jogos da Copa do Mundo, achei que as duas coisas juntas mereciam um bolinho. Tava com preguiça de fazer algo grande, que demora quase uma hora pra assar, e por isso resolvi fazer mini bolinhos.

A receita foi o que tinha em casa assado no forno. Não fiz testes antes, não vai ser o bolo mais incrível que você comeu na vida, mas é uma ótima opção pro lanche da manhã ou da tarde, pra levar na bolsa, ou tomar com um chá de gengibre no fim do dia. 

Como sempre tenho muita banana em casa, resolvi fazer bolo de banana, com casca e tudo porque agora sou dessas pessoas que não desperdiçam. Vamos lá? É tão fácil, mas tão fácil, que até quem só sabe abrir pacotes de miojo vai conseguir fazer.

Atenção: se você não tiver essas forminhas de mini bolinhos, pode fazer numa assadeira de pão pequena, ok? Se só tiver as mini forminhas de inox ou outro material que não seja silicone, vai precisar untar com um pouco de óleo. 

Rende 6 bolinhos grandes ou 12 bem chiquititos (se apostar nessa opção, pode colocar frutas picadinhas no fundo das forminhas, uva passas, castanhas, pra massa render mais...)

Ficaram bonitinhos, vai?

Ingredientes dos bolinhos - R$ 4,71
⠂4 bananas prata com casca (quanto mais maduras, melhor)
⠂1 xícara de aveia em flocos (médios ou grossos)
⠂1 xícara de leite de coco ou água 
⠂1/2 xícara de açúcar mascavo
⠂1/4 de xícara de óleo de girassol
⠂1 colher de sopa de vinagre + 1 colher de chá de bicarbonato de sódio (juntos, formam o fermento)
⠂canela a gosto e um tiquinho a mais de açúcar mascavo pra forrar as forminhas (opcional). 

Como eu fiz
Antes de tudo, liguei o forno. Bolo sem forno pré-aquecido nunca vai dar certo. Lavei bem as bananas e cortei aquela pontinha preta minúscula. Num liquidificador, bati as bananas com casca (corta em pedaços pra não queimar o liquidificador), o leite de coco, o açúcar e o óleo. Bati até formar um creme liso e uniforme. Depois disso, acrescentei a aveia e bati de novo. Joguei essa massa numa tigela e só aí coloquei o vinagre e o bicarbonato. Misturei com uma colher. No fundo de cada forminha, joguei umas pitadas de canela e mascavo pra formar uma crostinha crocante deliciosa. Despejei um pouco de massa em cada forminha e pronto! Assei a 220 graus por cerca de 35 minutos. 

Nosso café da manhã de 2 horas. 

Sugestão: leva pros amigos do trabalho que vivem a base de biscoito recheado. Vamos ver a cara deles quando aprovarem os bolinhos e souberem que até casca de banana tem nesse negócio. 

Orgânicos pra todos: é possível?

13 de junho de 2018
Depois que fiz um intensivão de postagens no Instagram sobre o Projeto de Lei que quer mudar a política dos agrotóxicos no Brasil, recebi diversas mensagens com dúvidas. Para responder todo mundo, achei que valia um textão. Vou resumir aqui os pontos que citei lá, indicando as fontes de onde tirei as informações. Depois, vou responder às questões que mais se repetiram. E, por último, vou contar a minha relação com os alimentos orgânicos

Esse é um exemplo de lavoura de orgânicos. Em vez de uma grande monocultura, diversidade e respeito à terra.

O que são agrotóxicos? 
Segundo a Lei dos Agrotóxicos de 1989, em rigor até o momento: “são produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos” usados com o objetivo de alterar a composição da fauna ou da flora. Resumindo: são químicos que matam alguns seres vivos para promover o crescimento de alguma coisa, como soja e milho. 

De onde surgiu essa bagaça?
Após a Segunda Guerra Mundial, os agrotóxicos começaram a ser usados como remédio pra piolho, depois viram que também servia pra afastar pragas nas lavouras. O moço que criou um dos primeiros agrotóxicos, o suíço Paulo Muller, chegou a ganhar o Prêmio Nobel de Medicina. 

Fonte: esta reportagem do Nexo Jornal.

Por que os agrotóxicos não são legais? 
A primeira pessoa a publicar um livro criticando o uso dos agrotóxicos foi uma zoóloga americana, a Rachel Carson, em 1962. Faz tempo, né? Mas não aprendemos. A moça explicou que essas substância se ligam ao tecido de gordura dos animais. Então funciona assim. Um gafonhoto come uma planta com agrotóxico. Aí vem um passarinho e come esse gafonhoto. O próximo animal que comer o passarinho vai ter acumulado ainda mais agrotóxico no corpo. Ou seja, os maiores predadores estão ferrados. Lembra da cadeira alimentar das aulas de biologia? Em 2005, a Universidade de Cornell foi a primeira que avisou pro mundo sobre o impacto ambiental causado por essas substâncias. A coisa é muito grave pros animais. Muitos agrotóxicos matam abelhas polinizadoras, minhocas, fungos e bactérias que são essenciais pro ecossistema continuar vivo. Além disso, esses produtinhos agrícolas também destroem ninhos de passarinhos e tocas de mamíferos. E a água? Imagina. Os agrotóxicos estão no solo, certo? Onde as pessoas ou as máquinas plantam as comidas. Aí vem a chuva e molha tudo. Essa água, contaminada com esses produtos, vai pra onde? Ela não desaparece. Ela chega nos rios, lagoas, praias, mangues e pode tornar a nossa água imprópria pro consumo

Fonte: esta reportagem do Nexo Jornal.

Onde encontrar informações confiáveis sobre os danos que os agrotóxicos causam?
Relatório do Ministério da Saúde. Acesse aqui.
Atlas dos Agrotóxicos 2017, da USP. Baixe aqui.
Documentário O mundo segundo a Monsanto. Clique aqui.
Documentário O veneno está na mesa I e II. Acesse aqui e aqui

Qual é o cenário no Brasil?
A soja, o milho, a cana de açúcar e o algodão lideram o ranking de plantações onde os latifundiários mais usam agrotóxicos. São Paulo e Mato Grosso são os estados que mais compram. Segundo o Atlas da USP citado aí em cima, 30% dos agrotóxicos usados no Brasil são proibidos na Europa. Nós utilizados 5.000 vezes mais glifosato nas nossas lavouras do que os países na União Europeia, por exemplo. Enfim, Brasil: o país do veneno. 

O que tem de grave no Projeto de Lei (PL) do Veneno?
Primeiro, a PL 6299/2002 foi escrita pelo atual ministro da Agricultura, o Blairo Maggi, do PMDB. Ele é apenas um dos maiores produtores de soja do Brasil. O moço rei da soja já foi governador do Mato Grosso, e nessa época ganhou o troféu Motosserra do Ano do Greenpeace (ele se destacou em desmatamento), também foi senador e tem vários aliados de peso no congresso. Se quiser conhecer o rosto do ministro, em um momento de descontração, cantando com o músico Leonardo, clique aqui. No momento, a PL do Veneno está em discussão dentro de uma comissão da Câmara dos Deputados. Se for aprovada lá dentro, como deve ser, ela segue pra votação geral. 

Vamos aos pontos mais graves da lei:

 ⇨ Mudança no nome:  O novo projeto de lei quer que os agrotóxicos passem a ser chamados de "defensivos fitossanitários". Sabe quando os partidos políticos mudam de nome pra ver se a gente esquece o que eles já aprontaram? É a mesma lógica. 

Exclusão do Ibama e da Anvisa: De acordo com a lei em vigor em hoje, a aprovação de um novo agrotóxico precisa ser avaliada por três órgãos federais: Ministério da Agricultura, Ibama, que faz parte do Ministério do Meio Ambiente e Anvisa, que integra o Ministério da Saúde. O novo projeto de lei propõe que só o Ministério da Agricultura cuide disse, pra agilizar o processo.

Redução no prazo pra aprovar um novo agrotóxico: Para um novo veneno entrar em vigor no Brasil, ele precisa passar por uma avaliação, o que costuma levar de dois a três anos e oito meses atualmente. Não precisa ser especialista na área pra entender que esse período é importante para que sejam feitos testes e mais testes antes de sair aprovando o negócio, certo? Mas a nova lei quer reduzir esse prazo para 30 a 180 dias. 

Autorização temporária: A nova lei quer permitir alguns agrotóxicos que já são proibidos no Brasil. Eles poderiam ganhar uma autorização por um período determinado. Só seriam barrados aqueles venenos considerados inaceitáveis, que tiverem realmente impacto comprovado à saúde humana. Esse ponto é tão grave, mas tão grave pra mim que não consigo ser racional a ponto de comentá-lo. 


A pulverização aérea é proibida em diversos países do mundo, como os da Europa. No Brasil, ainda é permitido.

E, afinal, o que são os orgânicos?
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a agricultura orgânica é aquela que não causa danos sociais e ambientais (mais detalhes nesse link). Ao contrário do agronegócio, que produz culturas de alimentos em grande escala com o uso de agrotóxicos, os alimentos orgânicos são cultivados sem venenos por famílias, cooperativas e associações. Nesse tipo de lavoura, não se pode utilizar antibiótico nos animais, nem fertilizantes, conservantes, pesticidas, além de sementes transgênicas nos plantios. 

Só existe um tipo de alimento orgânico?
Não. Existem diversas variações. Exemplos:

 Orgânicos certificados: São alimentos que cumprem uma série de critérios super exigentes para ganhar os adesivos abaixo. O selo que garante que o produto é orgânico é dado por instituições certificadoras credenciadas no Ministério da Agricultura. Esse processo acaba encarecendo bastante os produtos. Por isso, esse grupo costuma ter um valor bem maior do que os outros alimentos, e são encontrados, principalmente, nos supermercados. 

 Orgânicos não certificados: São produtos cultivados sem agrotóxico mas que não possuem o selo de certificação. Para garantir que os alimentos estejam realmente livres de veneno é necessário conhecer os produtores ou fazer parte de redes de compras coletivas onde os participantes tenham contato direto com os agricultores. Sim, existem várias denúncias de feirantes que enganam os consumidores, mas isso não pode enfraquecer o trabalho de centenas de pessoas. Pesquise. 

 Produtos em transição agroecológica: São alimentos oriundos de plantações que já usaram agrotóxico em outros momentos e não conseguem a certificação por ainda possuírem indícios dos defensivos no solo. Por mais que os produtores tenham a intenção de plantar orgânicos, o processo de "desintoxicação" da terra pode levar anos. 

Dá pra alimentar o mundo inteiro com orgânicos?
Esse costuma ser o ponto de maior polêmica entre defensores e críticos dos agrotóxicos. Mas pense aqui comigo. Nós, brasileiros, somos os maiores consumidores de alimentos envenenados do mundo. Deixamos de ter pessoas passando fome por isso? Não. O agronegócio não resolveu o problema da fome. Já a produção de orgânicos, por mais que seja menos lucrativa, pode alimentar toda a população do planeta. Diversos estudos já provaram isso, assim como a Organização das Nações Unidas (ONU)Não acredita? Espia esses estudos aqui e aqui, além desse relatório da ONU. 

E o preço? Os orgânicos são mesmo mais caros?
Em geral sim, principalmente as frutas. Mas é importante entender os motivos que levam os preços a serem mais altos antes de sair xingando o produtor na feira. Em primeiro lugar, a agricultura orgânica envolve mais gente e menos máquinas. E essas pessoas precisam ser remuneradas, obviamente. Em segundo lugar, a distribuição dos produtos é feita em pequena escala, o que também encarece o preço final. Em terceiro lugar, o solo é utilizado de forma menos intensa e mais respeitosa. Isso significa que durante uma safra e outra os produtores precisam plantar outros alimentos menos lucrativos, justamente para recuperar a terra. E, como bem lembrado pela Flora aqui nos comentários, o principal fator que encarece o preço dos orgânicos é a falta de incentivo para os pequenos produtores. O governo brasileiro enche os grandes latifundiários de incentivos fiscais. Oferecem mil facilidades para os agricultores que usam glifosato na lavoura. E os produtores de orgânicos não recebem nenhum tipo de apoio, de subsídio, de orientação. Precisam fazer tudo por conta própria. É injusto demais!

Como tornar os orgânicos mais baratos?
Uma pesquisa da ONG Kairós mostrou que a diferença de preço entre alimentos orgânicos e convencionais está caindo cada vez mais. Os pesquisadores acreditam que o aumento da demanda por orgânicos tende a baixar os custos de produção, distribuição, marketing, etc. Acesse o estudo completo aqui. Separei também algumas dicas aqui para, juntos, nos mobilizarmos na luta pela democratização da comida sem veneno: 

 Compre o máximo de orgânicos que puder. Se você pode arcar com os custos de vegetais e outros produtos orgânicos, invista neles para que outras pessoas possam comprá-los no futuro. Não precisa comprar a feira inteira. As hortaliças, arroz e temperos, por exemplo, são mais baratos e muitas vezes têm preços equivalentes aos produtos convencionais.

 Exija que a merenda das escolas da sua região seja orgânica. Se o seu filho estuda em escolar particular, é mais fácil. Mobilize um grupo de pais e corra atrás. Se não, pense no coletivo e pressione os vereadores e deputados a sugerirem leis que obriguem as redes públicas de ensino a incluir alimentos orgânicos na merenda escolar. Não conseguiu resultados? Que tal um mutirão para criar uma horta comunitária nas escolas do bairro?

⇨ Pressione os vereadores e deputados da sua região a sugerirem leis para apoiar os produtores orgânicos. Não dá mais pra incentivar os agricultores a plantarem com venenos. Chega de subsídios e incentivos fiscais para quem utilizar glifosato na lavoura!

 Cobre de restaurantes que você frequenta. Procure os administradores e peça que incluam alimentos orgânicos no menu.

 Divulgue o trabalho de produtores e fornecedores da agricultura sem veneno. Descobriu uma feira no bairro? Bares e restaurantes que compram da agroecologia? Incentive os vizinhos e familiares a frequentarem. 

 Crie sua própria rede de distribuição. Não acha alimentos orgânicos em supermercados, feiras e hortifrutis da sua cidade? Que tal entrar em contato com alguns produtores e montar a sua própria rede de distribuição? Já existem várias pelo Brasil.Veja um exemplo aqui. É a forma mais eficaz de baratear os preços enquanto não temos mudanças efetivas nas políticas públicas.



Compro alguns orgânicos certificados e outros de produtores que conheço e confio. 

Como é a minha relação com os orgânicos?
Ainda não cheguei no ponto de poder fazer a feira do mês apenas com orgânicos. O que faço hoje é comprar o máximo que minha conta bancária e disposição para me deslocar permitem. Pesquiso bastante pra procurar os melhores preços e compro pelo menos os vegetais que costumam ser banhados em veneno: tomate, pimentão e morango. No supermercado eu passo longe porque é o lugar mais caro sempre. Aqui em Floripa eu acho arroz orgânico, folhas verdes, maçã e farinha de trigo a preços bem acessíveis. Quando vou visitar minha família no interior, sempre trago duas toneladas de comida de produtores orgânicos locais, não certificados, mas que conheço ou tenho conhecidos que conhecem e são confiáveis. Compro feijão por R$ 5/kg, açúcar mascavo por R$ 6/kg, uva, gengibre, cebola, melado, pinhão, batata doce... Tem que pesquisar! Muitos produtores não usam veneno, mas não têm a certificação. Esses são os mais baratos sempre. Corra atrás! 


Outro jeito de consumir orgânicos de baixo ou nenhum custo é plantar em vasinhos em casa ou construir uma horta coletiva no seu prédio, como é o meu caso. 

Não sabe onde comprar orgânico na sua região? Espia esse mapa com diversas feiras em cidades de todo o país. 

Empadas sem desperdício - R$ 3,22*

27 de maio de 2018
A receita de hoje é uma exceção, bem a cara do momento de crise que estamos vivendo. Ao contrário de tudo que postei até hoje neste canal de entretenimento, as empadinhas contra do desperdício não me permitiram calcular o preço real que custaram. Simplesmente porque o recheio foi feito com as sobras de outras coisas que eu já tinha na geladeira. No caso, tinha um molho branco de aveia pronto e um maço de beterraba estragando. O valor R$ 3,22 se refere apenas à massa, ok? Trata-se de uma estimativa. Pra você não gastar muito além disso, basta fazer como eu: use os insumos que já tão velhinhos na geladeira, ou que sobraram de outro prato, ou, ainda, use os vegetais da sua região com os temperos da sua despensa. 

A receita rende 6 empadinhas. Pode comer quentinha ou levar de lanche pro trabalho. 

Cada vez mais eu tenho pensado nisso, sabe? Não faz sentido a gente basear a nossa alimentação em cima de receitas de outras pessoas. Receita é pra usar como inspiração. Porque às vezes não tem maçã no Maranhão nem caju no Rio Grande do Sul. Às vezes a verdureira tá pelada porque deu algum problema no sistema de distribuição de comida e você será obrigado a cozinhar uma hortaliça do próprio jardim. Não tem espaço pra jardim na sua casa? Tenha pequenos vasos na janela. Já falei isso 800 vezes aqui! É a melhor forma de economizar com temperos e hortaliças. E não existe comida boa sem tempero. 

Aqui na minha varanda eu tenho uma rúcula plantada num vaso minúsculo junto com alho poró e cebolinha e já é a terceira vez que ela dá novas folhas. Como eu fiz isso? Comprei uma rúcula com a raiz pela primeira vez. Cortei o caule, usei pra comer junto com as folhas, e deixei a raiz num copo com água por três dias, trocando a água todo santo dia. Depois disso, coloquei no vaso e um mês depois, já tinha um novo maço de rúcula. De graça e orgânico. Você pode fazer isso com vários vegetais. Espia esse link aqui, onde tem mais dicas desse tipo. 

A gente vive num país com grandes desigualdades e não poderia ser diferente com a alimentação. Dava pra escrever um livro se fosse citar cada problema aqui (agrotóxicos, monocultura, indústria dos ultraprocessados, falta de apoio aos pequenos produtores...). E esses problemas ficam mais evidentes em momentos de crise, como agora, com a interrupção do sistema de distribuição de comida por parte dos caminhoneiros. Podemos tirar mil lições desse período maluco que estamos vivendo. Arrisco alguns: 

→Não podemos mais viver em função do petróleo. 

→Não podemos mais viver em função dos Estados Unidos. 

→Não podemos mais viver em função de um sistema político onde quem nos governa não nos representa, não nos ouve. Pelo contrário, nos boicota. 

→Não podemos mais ser dependentes do sistema rodoviário. 

→Precisamos repensar todo o estilo de vida das médias e grandes cidades. 

→Precisamos entender todo o caminho que a comida faz até chegar na nossa mesa e tentar encurtá-lo o máximo possível. Leia-se: comer o que tá na época, produzido na região por pequenas famílias que entendem dessa terra. Enquanto a gente se alimentar de coisas empacotadas sem ter a mínima ideia de onde aquilo veio e como foi produzido, a gente vai levar esses sustos em momentos de crise.

Observação: eu não acho que todo mundo ter bicicleta e horta no prédio resolveria o problema que estamos vivendo hoje. Seria ingenuidade da minha parte. A questão é essencialmente política, por mais que não compreendamos exatamente o que isso quer dizer. E se vivêssemos em cidades super sustentáveis talvez o problema nos atingisse de outras formas. Mas é impossível não ver que o nosso estilo de vida faz esses momentos de crise terem consequências catastróficas. 

Toda essa enrolação pra dizer que usei o que tinha em casa pra rechear as empadinhas e insisto para que você também comece a fazer a sua parte contra o desperdício de comida. 

A base da receita das empadinhas é da diva global Bela Gil. Se quiser acessar o passo a passo original, clica aqui. A massa é fantástica e você pode usá-la para criar milhões de novas receitas maravilhosas. É grão de bico e farinha. No caso da Bela, ela usou farinha de arroz. Eu não tinha farinha de arroz em casa, não tenho o hábito de comprá-la, e usei farinha de trigo. Grão de bico tá muito caro na sua região? Pode substituir tranquilamente por feijão fradinho ou feijão branco. 

Ingredientes da massa - Rende 6 empadinhas
⠂1 xícara de grão de bico cozido na água e sal
⠂1 colher de sopa de azeite ou óleo de girassol
⠂1 colher de chá de sal
⠂1/2 colher de chá cúrcuma (pra massa ficar mais colorida)
⠂3/4 de xícara de farinha de trigo (ou de arroz para os celíacos)
⠂1/4 de xícara de água gelada

Como fazer a massa
Misture tudo no processador. Caso não tenha, cozinhe o grão de bico beeeem, a ponto de estar quase desmanchando, pra poder bater no liquidificador. Se fizer isso, acrescente a farinha depois, numa tigela. Se fizer no processador, pode bater a farinha junto. Modele a massa em forminhas de silicone ou inox (aí precisa untar), forre com o recheio e cubra com um pedacinho de massa por cima. Asse no forno pré-aquecido a 200 graus por 30 minutos. 

Use a criatividade e o que tiver sobrando na geladeira pro recheio. Dica: tem que ficar um creme bem consistente. 

Ingredientes do recheio
⠂1 cenoura grande cortada em cubos (poderia ser brócolis, alho poró, abóbora, palmito, vagem, berinjela, cogumelos...)
⠂1/2 xícara de água pra cozinhar a cenoura
⠂Folhas de beterraba ou qualquer hortaliça (espinafre, escarola, taioba, ora pro nobis, acelga..)
⠂1 xícara de molho branco de aveia ou ricota de semente de girassol ou ricota de gergelim ou qualquer pastinha a base de tofu ou 1 colher de sopa de maisena diluída em 1 xícara de água
⠂4 dentes de alho
⠂1 polegar de gengibre
⠂canela em pó a gosto
⠂cheiro verde a gosto
⠂pimenta do reino a gosto
⠂noz moscada a gosto
⠂sal a gosto

Como fazer o recheio
Refoguei o alho e o gengibre no azeite. Acrescentei a cenoura picadinha, uma pitada de canela, noz moscada, pimenta do reino e sal. Depois de refogar bem, acrescentei a água e deixei cozinhando com a panela tampada por 15 minutos. Acrescentei as folhas da beterraba e tampei a panela por mais 2 minutos. Acrescentei o molho branco de aveia. Corrigi o sal e a pimenta e finalizei com cheiro verde. A consistência do recheio tem que ser de um creme bem consistente. Não pode ficar líquido ou aguado ou a massa vai ficar molhada e molenga. Não vai assar direito. 

Observação: Você pode usar a criatividade aqui no recheio! Pegue o que tem na sua geladeira quase estragando, capriche nos temperos e pronto! Agora é só correr pro abraço e se afundar na empada. 

O que aprendi com Sonia Hirsch

14 de maio de 2018
Em uma sexta-feira de uns anos atrás, eu voltava pra casa junto com uma amiga do trabalho e a gente conversava sobre saúde e alimentação, assuntos recorrentes entre nós. Contei pra Lívia que eu sofria muito com candidíase, e que a minha ginecologista recomendou, como última estratégia de tratamento, reduzir o consumo de açúcar (que era alto). A Lívia fez aquela cara de "não sabias disso, sua pamonha"? Ela já sabia que a Sonia Hirsch associava a cândida ao consumo de açúcar. E foi nesse momento que ouvi falar pela primeira vez dessa senhorinha que entende muito das propriedades curativas dos vegetais, que é amiga da Bela Gil, estudiosa voraz da medicina chinesa, e que já publicou mais de 20 livros sobre saúde. 

A Sonia não é cientista, nem médica, nem nutricionista. E nem escreve se fazendo passar por uma. O conteúdo que ela produz é sob o olhar de uma jornalista curiosa, com base em leituras, em referências, que inclusive constam nos livros.

De lá pra cá devorei vários livros dela e descobri, há uns meses, como a medicina milenar chinesa enxerga a questão da alimentação. Acho que tanto a Sonia quanto os chineses tem muuuuuito pra nos ensinar. Acabei de fazer o curso dela aqui em Floripa na semana passada, que durou três dias e me rendeu 12 páginas de anotações num caderninho. E sigo nos estudos sobre os hábitos alimentares da China. 

Se tiver que resumir ao máximo, me arrisco a dizer que o principal ensinamento da Sonia e da medicina chinesa é essa forma de enxergar o corpo de forma integrada, como um todo, onde tudo está conectado. Um problema de coluna não pode ser resolvido em um ortopedista porque pode ter sido desencadeado por um desequilíbrio no fígado, por exemplo. A medicina aqui do Ocidente, em geral, insiste em tratar apenas os sintomas em vez de buscar compreender a fundo as raízes do problema. 

Nesse post, vou tentar ser bem objetiva pra não entediar ninguém. Vou organizar esse texto da seguinte forma: na primeira parte, vou descrever o que fez mais sentido pra mim no curso da Sonia. Na segunda parte, vou apontar os princípios da medicina chinesa que aplico na minha vida. 

Eu e a Sonia no curso Meditando na Cozinha, que ela ministrou aqui em Floripa durante três dias. 

O que aprendi com a Sonia Hirsch

1. Sobre o ato de cozinhar: É impossível ser saudável delegando aos outros a tarefa de fazer a sua comida. Ir pra cozinha é um dos requisitos pra ter saúde, inclusive pra saúde mental. É mais difícil para as mulheres, é claro, que sofrem com o machismo e muitas vezes não contam com a parceria dos homens nas tarefas domésticas (precisamos mudar isso!!!!). Mas o ato de cozinhar não precisa ser encarado como uma obrigação. A comida que sai das mãos de alguém estressado e de saco cheio não vai ser equilibrada, saborosa e nutritiva. Não vamos cozinhar sorrindo todos os dias, obviamente, falo pelo meu próprio exemplo, mas precisamos tentar tirar esse fardo das costas. O que a Sonia defende no curso dela é a importância de resgatarmos o prazer e o afeto no ato de cozinhar. Primeiro, temos que dar um jeitinho de deixar a cozinha confortável, por mais que seja apertada. A gente tem que se sentir bem naquele espaço. Coisas que parecem muito simples e bobas, como desenvolver uma afetividade por uma faca, colher de pau ou panela fazem toda a diferença na qualidade da comida. Tornam aquele momento mais prazeroso. Outra coisa. Cozinhar, segundo a Sonia, é como meditar. Vamos usar esse tempo que gastamos na cozinha para nos entregar, se concentrar em cada etapa, exercer a atenção plena na hora de picar aquele alho e esquecer o mundo ao redor. 

2. Sobre o ato de comer: Se sentir sonolento ou estufado depois de comer não é normal. Pode ser a mastigação, que não foi bem feita como deveria. Pode ser o fato de não estarmos atentos ao que ingerimos. É fundamental identificar os sabores e texturas a cada garfada, o que auxilia muito a digestão. Por isso é tão ruim comer  com distrações, como TV e computador, que fazem a gente não prestar atenção na comida. E também tem a questão da  quantidade. A gente costuma comer muito mais do que precisa, principalmente quem come rápido e com pressa. Cada um precisa encontrar o seu equilíbrio na quantidade de comida que coloca no prato.

3. Sobre autoconhecimento: Nada em excesso faz bem, nem repolho orgânico. Há estômagos que lidam melhor com feijão do que outros. Há pessoas que não se sentem mal com um pouquinho de açúcar por dia. Outras têm enxaquecas homéricas ao devorar um bombom. O que precisamos saber é que não existe alimentação perfeita, existe autoconhecimento. O segredo da saúde é encontrar o seu equilíbrio, a sua harmonia. A Sonia recomenda que a gente invista em uma alimentação com 70% de alimentos que fazem bem pro próprio corpo e outros 30% que são importantes para a saúde psíquica, pra vida social: o chope com os amigos, o vinho com a namorada, o pudim da avó no domingo. Isso não mata ninguém e evita possíveis compulsões alimentares. 

4. Sobre o leite: Quando o assunto é o leite de vaca, não tem discussão: não faz bem pra ninguém. Ele é feito para nutrir um bezerro, não um ser humano. É altamente inflamatório, cancerígeno e piora muito o quadro de quem sofre com as "ites": sinusite, rinite, faringite, além das alergias como um todo e da acne. O nosso intestino também não foi feito pra digerir o leite. Se você está lendo esse post, é porque já cresceu. Desapegue-se do "leitinho". 

5. Sobre o açúcar: O açúcar rouba a nossa vitalidade e deprime, tipo aquele seu colega de trabalho que só reclama da vida. Por isso, a pior hora para consumi-lo é pela manhã, quando precisamos de energia, e em outros momentos quando estamos de estômago vazio. Não é a toa que se inventou o hábito da sobremesa, depois das refeições. É a hora mais apropriada para dar um alô pro docinho, já que o suco gástrico já está trabalhando. O alto consumo de açúcar é considerado tóxico: enfraquece os rins, sobrecarrega o pâncreas, estimula a produção de mucos, causa desordens emocionais e fragiliza o sistema imunológico, o nosso exército contra doenças. 

6. Sobre vitalidade e energia: Segundo a Sonia, o problema das farinhas não está no glúten, mas no processo de refinamento, que tira todos os nutrientes do trigo e o transforma em um alimento sem vida. É por esse motivo que os alimentos ultraprocessados nem são considerados comida, eles são desvitalizados. Sabe o exército de zumbis da série Game of Thrones? Então. São eles. É como se a gente comesse isopor. Lembra que a mosca não pousa na margarina? E que o hambúrguer do MC Donalds não mofa por semanas? Não tem vida ali. Nada. Por isso é bom escolher farinhas integrais, porque elas possuem nutrientes, estão vivas. Variações bruscas de temperatura também roubam a nossa energia. Por isso, é bom evitar ar condicionado, ventilador e secador de cabelo. Por outro lado, banho de mar e de cachoeira, pé na terra e cozinhar são atividades que nos enchem de energia e saúde. 

7. Sobre as leguminosas: Esse assunto me deixou um pouco desanimada. A Sonia defende que as leguminosas são pesadinhas de digerir. Não é a toa que precisamos deixá-las de molho e cozinhá-las com especiarias (louro, cominho, gengibre, alho...). Ok, disso já sabemos. O que ela acrescentou é que precisamos evitar ao máximo comer leguminosas requentadas (e agora, vida?). Sim, tem que fazer e comer no mesmo dia porque elas continuam fermentando e quanto mais fermentadas, mais difícil de digerir. A macrobiótica diz que as melhores leguminosas são as que têm os grãos menores e a Sonia acrescentou que precisamos sempre combiná-las com outro cereal na hora de comer, como milho ou arroz. Ah! E amendoim só cozido e em pequenas quantidades! 😓

8. Sobre o inhame: Se há algum representante de Deus na terra, esse alguém é o inhame. Ele é o campeão do fortalecimento das nossas defesas, o bálsamo da limpeza do sangue, aumenta a fertilidade nas mulheres, baixa febre e é cicatrizante. Resumindo: não faça guerras, coma inhame. 

9. Sobre sucos: Dona Sonia Hirsch não recomenda sucos. Diz que eles costumam ter frutose em excesso e não exigem a mastigação, o que dificulta pro estômago saber o que tá digerindo. Como os sucos não me fazem mal, pelo que me conheço, vou continuar tomando, sem exageros. 

10. Sobre o cocô saudável: O intestino não veio ao mundo pra ficar preso ou solto demais. Ele precisa de harmonia pra fazer seu trabalho. Como ele é um dos responsáveis por produzir o nosso exército de células protetoras, temos que ficar de olho nesses desequilíbrios. Esses desarranjos podem ser falta de líquidos, comida muito seca, consumo de leite e derivados ou outros alimentos que não fazem bem, assim como diversas questões emocionais. A melhor hora pra evacuar é de manhã, em jejum. Assim que acordar, a Sonia recomenda tomar um copo de água morna, que vai cutucar o intestino e fazê-lo funcionar, eliminando o que precisa sair do corpo do dia anterior. Intestino saudável significa corpo e mente saudáveis. 

11. Sobre temperos: Lembra que os portugueses invadiram o Brasil quando tavam tentando ir pra região da Índia buscar especiarias? Então. Elas valem a viagem mesmo. Não só por contribuirem pra deixar a comida gostosa e sem gosto de hospital. Elas auxiliam a digestão e têm milhões de propriedades maravilhosas. O tomilho, por exemplo, ajuda a fortalecer a imunidade. Já salsinha, com 700 propriedades curativas, e a cúrcuma, um poderoso antiinflamatório, são dignas de disputar o trono com o inhame caso o Reino Vegetal fosse palco da série Game of Thrones. Os marqueses gengibre e o louro são ótimos para aliviar gases intestinais. 

Assim como os chineses, a Sonia defende que as hortaliças sejam consumidas quentes, como nesse caldo de abóbora com rúcula, servido durante o curso dela. 
Achou todo esse papo interessante? 

Vou deixar aqui algumas leituras para você se aprofundar mais:

O primeiro livro que li sobre a alimentação na medicina chinesa foi esse rosa da foto: "Por que as chinesas não contam calorias". O segundo foi o "Manual do Herói", da Sonia Hirsch.

Patê de lentilha - R$ 3,89

3 de maio de 2018
Eu e uma vizinha do prédio onde moro estamos empenhadas em cuidar da horta que temos aqui. Já plantamos mil coisas, mas rolaram umas obras e pintura, o que detonou o nosso espaço verde. Agora estamos cuidando aos poucos. Mas uma planta específica, o manjericão, está sempre firme, maior que todos, e usufrui muito bem das condições climáticas e do solo desta região: muita areia, maresia, umidade quase amazônica. Eu moro num bairro de praia aqui em Floripa e às vezes tem taaaanta umidade e taaanta maresia que não andamos dentro de casa, deslizamos. Tudo enferruja rápido. Comprei cestinha pra carregar compras na minha bicicleta no ano passado e ela já estás prestes a ir pro lixo: já quebrou inteira de tão enferrujada. 

Toda essa enrolação pra dizer que estou empenhada em usar muito manjericão na cozinha de agora em diante porque tenho dois pés verdinhos e rechonchudos na horta do prédio, dando sopa, de graça. Como viver só de molho pesto não tem graça, vou começar a inventar muitas coisas com manjericão. Aguarde. 

Um dia acordei pensando que manjericão deve combinar com lentilha, como se essa erva não combinasse com alguma coisa. Já comeu sorvete de limão com manjericão? É tão bom que dá vontade de chorar. Pois bem. Pensei comigo: vou fazer um patê de lentilha com manjericão, mas talvez fique mole demais, tipo uma papa. Quero algo mais consistente. Nessa onda de pensamentos lembrei que a mestra Bela Gil tem uma receita de patê de lentilha com nozes e salsinha. Não tenho comprado nozes devido ao preço exorbitante, em torno de R$ 89,90/kg, mas tenho amendoim, que não é da família da noz, mas engana bem. 

Receita no caminho: lentilha, manjericão e amendoim. Para temperar, uma cebola, quem sabe, um pouco de azeite, o sal, e umas gotinhas de limão. A Bela Gil usa salsinha em vez de manjericão e tempera a pastinha com missô. Eu até tenho missô aqui em casa, mas acredito que a maior parte da população brasileira não tenha, então preferi ser democrática. 

A combinação de lentilha + amendoim + manjericão é um espetáculo. Coma com pão, torrada, bolachinhas de arroz.

Joguei tudo no processador e saiu um dos melhores patês que já comi entre os que eu mesma fiz. Se você não curtiu muito o requeijão de inhame como alternativa pra passar no pão ou na torrada, tenho certeza que vai gostar dessa opção. Além do maaais, ela é um presente para os noias que amam ingerir uma overdose de proteína de manhã. Tanto a lentilha quanto o amendoim têm bastante proteína, além de ferro. 

É isso. Fiquei tão animada com essa receita que estou tentada a testá-la com feijão fradinho, para uma versão ainda mais barata. Vamos brincar de substituir os ingredientes à vontade, mas não esqueça que o manjericão é fundamental. Sério. Também fiquei pensando em adicionar azeitonas, mas resolvi não ser tão audaciosa dessa vez.

A ilustração leva salsinha porque usei todo o manjericão na receita. hahaha
Ingredientes

⠂1 xícara de lentilha cozida
⠂1 xícara de amendoim torrado e sem pele
⠂1 xícara de folhas de manjericão
⠂1 cebola cortada em pedaços grossos e grelhada rapidinho (usei da roxa)
⠂sal a gosto
⠂azeite a gosto
⠂um tiquinho da água do cozimento da lentilha para acertar a consistência desejada do patê
⠂gostas de limão a gosto

Prazer, eu sou o amendoim torrado sem pele. 

Como eu fiz


Bati tudo no processador e pronto. Basta armazenar na geladeira. Se você não tem processador vai precisar amassar o amendoim num pilão ou com um amassador de carnes. Ou você ainda pode comprar o amendoim na forma de xerem, que são aqueles pedacinhos pequenos, sabe? No liquidificador acho que não rola de triturar o amendoim, apenas o resto dos ingredientes. 

Validade: Não faço ideia de quanto dure na geladeira, mas acredito que seja seguro consumir em torno de uma semana.

Os ingredientes reunidos à espera da lentilha cozinhar.

Observação: pode fazer com amendoim cru, mas acho o torrado mais saboroso. Pode fazer com amendoim com pele, se tiver comprado com, só não espere um patê super lisinho. 

Não sabe como plantar manjericão em casa? Clica aqui.
Não sabe como cozinhar lentilha? Clica aqui

Não esqueça de deixar a lentilha de molho por 12 horas antes de cozinhar.

Sua relação com a comida é saudável?

24 de abril de 2018
Você também já trocou um bombom por uma maçã e a vontade de doce não passou? Aí no outro dia você foi lá e comeu a barra de chocolate inteira? Feito isso, começou a se sentir fracassado, ficou com inveja das musas fitness do Instagram, chorou na frente do espelho, pensou: "nunca vou conseguir ser magra"? Esse é um comportamento que tive por muitos anos e é um exemplo de uma relação NADA saudável com a comida.

As redes sociais têm um lado muito ruim: todo mundo se acha nutricionista e psicólogo. E mesmo os profissionais da saúde, muitas vezes, saem bombardeando as pessoas de doutrinações, dicas e conselhos inalcançáveis ou sem embasamento científico. Eu mesma fiquei anos sem comer pão. O pão normal de padaria, sabe? Achava que pão era amaldiçoado, o grande inimigo da magreza, da alimentação saudável. 



Você não precisa se sentir culpado por escolher o chocolate!

Hoje sou uma pessoa muito mais sensata! E não aguento mais ver gente sofrendo com esse processo de culpa e sofrimento em relação à comida. Tapioca, arroz, batata, banana, pão, massa perderam o status de comida. São só carboidratos. Inimigos mortais. Um pedaço de torta e uma bola de sorvete viraram comida de gente fraca, que não tem foco, e que não é bem informado, que nunca vai conseguir ser magro. Como é possível a gente ter chegado nesse ponto, hein?

Pra ajudar todo mundo a repensar a sua relação com a comida, fiz a entrevista abaixo com a Nutricionista Débora Bottega, eterna parceira desse blog. Atentem para esta frase maravilhosa da Débora, que resume tudo: 

"Não existe alimentação perfeita e a busca por algo que não existe sempre resultará em frustração e em uma relação ruim com a comida".

Senta que a entrevista é longa! Vale a pena! 💜Não tenho palavras pra agradecê-la por tantos ensinamentos. Tenho certeza que você vai ler tudo e tirar um peso das costas quando chegar no final da entrevista, assim como eu me senti muito mais aliviada! É isso, gente! 

Vamos parar de loucura, de trocar o tradicional arroz com feijão por uma vitamina de whey protein ou de outra coisa que não tem nome de comida! Vamos voltar a olhar pro purê de batata e enxergar apenas um purê de batata, ok?

1⠂ A preocupação excessiva com uma alimentação saudável pode gerar compulsões e transtornos alimentares?

Sim. Quando essa preocupação excessiva interfere no prazer de comer, pode surgir a necessidade de comer cada vez mais em busca do prazer perdido. O convívio social também pode ser prejudicado na tentativa de fugir dos “alimentos proibidos”. Porém, a ansiedade gerada pela perda desse convívio e a dificuldade de lidar com essas situações deve piorar, assim como a possibilidade de perda de controle.

Por isso, aquelas pessoas que tem um peso saudável, e mesmo assim querem perder aqueles 2kg, devem tomar cuidado com as técnicas escolhidas para que aqueles menos 2kg não virem mais 2kg, mais 5 ou 10kg nos anos seguintes.

2 ⠂O que significa ter uma relação saudável com a comida?

No meu ponto de vista é enxergar os alimentos como alimentos, como comida mesmo. Alimento não é nutriente nem sentimento. Alimentamos-nos por necessidade, por prazer e também como socialização, isso é natural. Conhecer a composição dos alimentos e suas propriedades é muito útil na hora de escolher os alimentos, o que não podemos, salvo em alergias e intolerâncias, é olhar para um pão e ver glúten, ver a banana e enxergar carboidrato, ter vontade de comer um alimento que gosta e sentir culpa por isso, comer e ficar com remorso.

Dividir os alimentos em permitidos e proibidos é uma visão minimalista. É resumir algo complexo demais para ser resumido. Gera culpa, aumenta o desejo pelos alimentos proibidos...

Comer de forma intuitiva nos aproxima muito mais de uma boa relação com a comida e de uma alimentação saudável sem tanto sofrimento e restrições. Para alcançar isso precisamos nos conhecer, prestar atenção nos sinais que o nosso corpo dá e respeitá-los. Claro que para chegar aí existe um caminho a ser percorrido. Engloba reeducação do paladar, correção de deficiências nutricionais, seleção dos alimentos, cuidado com a hidratação, exercícios, sono, tratamento da ansiedade, etc. Envolve buscar equilíbrio, vários profissionais da saúde podem ser facilitadores desse processo: nutricionista, psicólogo, educador físico, médico.

Vamos ao exemplo, em uma relação saudável com a alimentação e também com o corpo, come-se quando se tem fome. No comer intuitivo é importante beber muita água, pois quando o corpo está desidratado pode-se confundir sede com fome, até aí ok, tudo certo. Porém, quem tem uma relação ruim com a comida, ao sentir fome, sente medo de comer, dos alimentos proibidos, de errar na quantidade. Esse medo é tão grande que gera culpa por sentir fome e a preferência, de ao invés de comer, beber um copo de água. Fica visível a inversão dos valores?

Neste caminho pode-se em algum momento deixar de conseguir perceber a própria fome, mas quando temos fome, comemos e ficamos satisfeitos. Se perdemos a fome, também perdemos a capacidade de ficar satisfeitos, e com isso pode-se perder a capacidade de saber a hora de parar de comer. É impossível matar a fome se ela nem existe mais.

Lembrem-se sempre: sentir fome é natural, é bom. Se você tem fome também tem a capacidade de ficar saciado, o que pode ajudar a evitar excesso de alimentação e compulsão.

3 ⠂ Como encontrar um equilíbrio entre ter hábitos alimentares saudáveis e sofrer com terrorismo nutricional?

Imagino e espero que toda a sociedade esteja em busca dessa resposta. Não existe um único caminho ou responsável pela situação de terrorismo nutricional que estamos vivendo. Sem dúvida, os profissionais de saúde, a mídia e as redes sociais exercem um papel nessa transformação. A sociedade que consome tudo isso precisa selecionar ao que assiste, quem segue, ter uma visão critica de tudo que chega.

Os nutricionistas precisam ter cuidado com o que falam e prescrevem, a forma que é falado e prescrito, e também a forma que são ouvidos. Cada pessoa interpreta de uma maneira diferente orientações nutricionais e é importante acompanhar a evolução, não só de parâmetros como peso, cintura, percentual de gordura, exames laboratoriais, mas também se as mudanças dos hábitos estão ocorrendo de forma natural, se a relação com a comida está de fato melhorando. Por outro lado. os pacientes precisam se sentir à vontade para expressar seus pensamentos e sentimentos em relação a tudo que está acontecendo e que está sendo discutido.

Precisamos ter consciência de que a saúde e o peso não dependem de uma única refeição, do consumo ou exclusão de um único nutriente. Se o prazer de comer e o convívio social estão prejudicados, quando se passa fome por medo de comer e a alimentação está gerando sofrimento, é sinal de que não se está no melhor caminho ou se está o percorrendo rápido demais.

Além disso, o que é uma alimentação saudável? Sabemos que é baseada no consumo de alimentos in natura, de preferência orgânicos, variados, livre de contaminação, etc. Mas não se sabe ao certo qual é a valor calórico exato recomendado para cada pessoa, ou sequer qual é a distribuição perfeita de carboidratos, proteínas e gorduras de que necessitamos. Então qual é o sentido de ser tão radical na direção de algo que na verdade é flexível? Não estou dizendo que se pode comer qualquer coisa em qualquer quantidade, mas que talvez o caminho esteja mais no sentido de aprender a reconhecer suas necessidades, que podem variar de um dia para outro, de uma fase da vida para outra. Se tivermos hábitos de vida saudáveis, nosso corpo terá capacidade de lidar com uma refeição menos saudável se ela não for a regra.

Sabemos que esse terrorismo nutricional é vivenciado em grande por quem almeja um peso adequado. Mas tudo citado até aqui é relacionado ao indivíduo. Mas vejamos bem. Mais da metade da população está acima do peso, então estamos vivendo em um meio que está resultando nesse quadro. Não cabe citar aqui, mas são incontáveis e multifatoriais as causas que levaram metade de uma nação ao excesso de peso.

Quando pegamos essa complexa e emaranhada situação produzida por gerações de caminhos na direção errada e responsabilizamos unicamente o individuo, é claro que este se culpa e se aterroriza. Ao invés de assumirmos essa “culpa” de maneira unilateral, precisamos urgentemente exigir mais da indústria, do governo, do mercado de trabalho...

Em 2014, foi lançado pelo Ministério da Saúde um belíssimo Guia Alimentar que cita a regra de ouro pela alimentação saudável: “prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados". Esse mesmo governo que orienta uma alimentação mais natural, aprova uma infinidade de aditivos alimentares, agrotóxicos, publicidade infantil de alimentos ultraprocessados, gordura vegetal hidrogenada e outros ingredientes de péssima qualidade nutricional. Então fica mais ou menos assim: eles aprovam agrotóxicos e alimentos ultraprocessados e depois orientam a população a não utilizá-los e ainda a culpa pelas consequências desse consumo.  É muito injusto.

4 ⠂ Por que tantos nutricionistas e profissionais da saúde insistem em recomendar cardápios super restritivos, principalmente em relação aos carboidratos, para pacientes que querem perder peso? 

É muito comum o desejo de rápida perda de peso vindo dos próprios pacientes. A pressa em perder algo que foi ganho ao longo de muito tempo. Claro que o objetivo do paciente não se sobrepõe à sua saúde. Acontece que excesso de peso não é saudável, aumenta risco de diversas doenças. Logo, faz sentido trabalhar para que um peso saudável seja alcançado. E é sabido que restrição calórica emagrece. Existe, de fato, embasamento científico para isso e mais recente da restrição dos carboidratos, apesar de que mesmo na literatura científica não haja consenso para o que seria uma alimentação baixa ou muito baixa em carboidrato e até mesmo para o jejum.

Porém, muitos desses estudos são de curto e médio prazo e não necessariamente representam a realidade. Por exemplo, tem estudo que fornece todos os alimentos aos participantes, em alguns países é permitido incentivo financeiro, estudos que exigem registros alimentares diários aumentando a adesão durante o período do estudo, outros só apresentam os dados dos pacientes que emagreceram. E mesmo os estudos que não fogem tanto da realidade não é de praxe incluir questionários que identificariam aumento de apetite ou compulsão após o período do estudo, desejo de comer alimentos proibidos, ansiedade, etc. Ou seja, não se avalia como evolui a relação com a alimentação daquelas pessoas e muitos dos que avaliam esses parâmetros mostram que não é incomum eles piorarem após períodos de dieta e restrições.

Hoje, de maneira geral, eu não passo mais planejamento ou orientação com as quantidades já determinadas de cada alimento. Para algumas pessoas isso faz muito sentido e elas ficam aliviadas por saberem que podem ter uma alimentação saudável sem perder sua autonomia. Outras ficam inseguras e precisam ter resgatada sua confiança. As pessoas precisam reaprender a identificar e interpretar os sinais que o corpo dá e precisam que seja reforçado o conceito de que se alimentando com comida de verdade são totalmente capazes de tomar decisões sobre o que e quanto consumir. É um processo no qual as pessoas se responsabilizam por suas escolhas e na minha prática tem funcionado.

5 ⠂ Com pouca ou nenhuma ingestão de carboidrato é possível ter saúde?

Não. Com baixíssima quantidade de carboidrato não conseguimos as quantidades necessárias de fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos importantes para a manutenção da saúde. E mesmo nas estratégias mais restritivas em relação ao carboidrato, elas são indicadas por curtos períodos, sendo utilizadas como uma “fase da dieta”. Justamente nessa fase acontece grande perda de peso. Só que essa perda pode ser uma ilusão, pois é de difícil manutenção, já que por conta dessa “fase da dieta” algumas pessoas podem apresentar compulsão alimentar por anos. Mas em seu inconsciente sempre ficará a lembrança de que com a restrição de carboidrato é fácil emagrecer. Ninguém associa a compulsão à dieta, associam à falta de força de vontade, iniciando um processo de culpa e medo de comer.

 6 ⠂ Que práticas exemplificam um ato de comer saudável?

→Comer com prazer.

→Devagar.

→Comer alimentos e não nutrientes.

→Comer quando se está com fome.

→Comer sem distrações.

→Nem de menos nem de mais.

→Atrasar uma refeição eventualmente pela rotina, ok, passar fome de propósito não. Comer um pouquinho mais em situações especiais é normal, compulsão não.

→Pensar em alimentos que gosta com prazer e não com culpa.

→Ter limites, sim.

→Comer de tudo, com equilíbrio, claro.

→Comer com variedade, experimentar.

7 ⠂ Você atende muitos pacientes que se sentem culpados depois de comer alguns alimentos específicos? E que em geral têm uma relação de sofrimento e penitência com a comida? Que tipo de trabalho o nutricionista desenvolve com esse paciente? 

Sim. Ultimamente os alimentos que mais geram culpa são aqueles que contêm carboidrato, da banana aos doces. O papel nutricionista começa desmistificando crenças em relação aos alimentos. Às vezes a pessoa se sente culpada pelo consumo de um alimento saudável, como é o caso da banana. Outro cuidado é de fazer um aconselhamento nutricional visando o equilíbrio e que não gere ou aumente o sentimento de culpa. A estratégia deve ser escolhida junto com o paciente e é necessário o acompanhamento do mesmo para conferir a evolução da relação da pessoa com sua alimentação, não só do que está sendo consumido, mas de que forma e que sentimentos estão envolvidos. Até porque essa culpa diminui o prazer de comer sem necessariamente gerar mudanças positivas na alimentação ou maior conscientização e responsabilização dos hábitos alimentares. A atuação do nutricionista neste e em muitos casos tem suas limitações, sendo indicado e bem vindo também o acompanhamento com psicólogo.